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50 anos do Proálcool: conquista do passado, reflexos para o futuro

Por José Roberto Moreira, professor sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP

O evento realizado no dia 6 de novembro no auditório do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP teve como propósito discutir aspectos históricos e atuais do programa de produção e uso do etanol no Brasil e suas perspectivas futuras. A iniciativa conduzida por um trabalho conjunto da USP e Unicamp, liderado por mim e pelo professor Luís Augusto Cortez, da Unicamp, é uma parte importante de um conjunto de ações envolvendo uma apresentação no Imperial College de Londres e a publicação de um livro, financiado pelo Society of Chemical Industry Sustainability Journal, pertencente à Society of Chemical Industry, uma organização internacional sem fins lucrativos.

A abertura do evento ficou a cargo do professor Ildo Luís Sauer, vice-diretor do IEE, substituindo o diretor, professor Tércio Ambrizzi, que estava fora de São Paulo. O orador, que atuou em sua longa carreira científica como especialista em usinas nucleares, em combustíveis fósseis, chegando à diretoria da Petrobras e, na última década, especialista em bioenergia, parabenizou os participantes e lembrou que homenagens ao Proálcool são sempre bem-vindas, recordando de um evento realizado no IEE em 2012 com a mesma finalidade.

Durante a manhã, o evento discutiu a história do Proálcool, reunindo pessoas com intensa participação desde sua criação em 1975. Tivemos a oportunidade e o prazer de receber o ex-ministro de Minas e Energia, Shigeaki Ueki, o ex-ministro da Educação e do Meio Ambiente, José Goldemberg, o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, e o empresário do setor sucroalcooleiro Murílio Biagi Filho, que continuou a ação de seu pai, um dos pioneiros na criação do programa, criado em 14 de novembro de 1974.

Foi muito proveitoso ouvi-los e aprender fatos históricos novos e premiá-los mais uma vez, reconhecendo que esse programa com 50 anos de vida teve papel importante para a economia, agricultura e prestígio internacional do Brasil. No aprendizado ficou claro que a iniciativa foi do setor empresarial, mas, após aceita pelo governo federal, contou com suporte financeiro e político da Presidência da República.

A execução do programa exigiu volumosa quantidade de recursos financeiros, pois o etanol tinha preço três vezes superior ao da gasolina no momento de sua implantação. O setor produtor de etanol acreditou no novo mercado e ampliou a produção por meio de novas usinas, projetadas de forma mais eficiente e usando avanços tecnológicos disponíveis. Através do princípio “aprender fazendo”, em alguns anos o custo do produto foi reduzido e a competitividade comercial foi assegurada, dependendo exclusivamente de impostos diferenciados em nível federal e estadual da gasolina e do etanol.

Numa segunda mesa-redonda, ainda pela manhã e dirigida pelo professor Marcos Buckeridge, do Instituto de Estudos Avançados da USP, tivemos a presença de Lamartine Navarro Neto e Luís Carlos Corrêa de Carvalho. O primeiro convidado, filho de Lamartine Navarro Filho, um dos pais do Proálcool e criador da Destilaria Alcídia, pioneira como destilaria autônoma, e o segundo, diretor da Canaplan e presidente da Academia Nacional da Agricultura, com atividades no setor sucroalcooleiro desde 1975.

Os palestrantes lembraram dos esforços tecnológicos e financeiros necessários para o crescimento do setor e enfatizaram o papel do etanol combustível como um propulsor da nova agricultura brasileira.

Na primeira sessão da tarde, contamos com a coordenação do professor Luís Augusto Cortez, da Unicamp, e os seguintes membros da mesa-redonda: Henrique Amorim, presidente da Fermentec, empresa brasileira de tecnologia da fermentação do etanol, atuando internacionalmente; Guilherme Nolasco, presidente da União Nacional de Etanol de Milho; e Plínio Nastari, fundador e ex-presidente da empresa Datagro e ex-membro do Conselho Nacional de Política Energética.

A discussão se concentrou no futuro do programa, mostrando as novas e excelentes oportunidades geradas pela penetração do milho como matéria-prima na industrialização do etanol. Há acordo entre todos de que devemos explorar a cana em conjunção com o milho e jamais vê-los como competidores. Em torno de 300 usinas de cana operam por sete a oito meses por ano, e mantêm suas estruturas improdutivas pelo restante do ano, porque a cana precisa ser imediatamente processada.

O milho, que contém amido, pode ser estocado por anos e, portanto, servir de insumo para a operação das usinas de cana durante o período ocioso ou mesmo em meses em que a colheita da cana enfrenta redução por razões climáticas. Considerando que basta acrescentar uma etapa nova para transformar o amido em açúcar, pode-se usar boa parte da infraestrutura industrial existente, bem como o resíduo da cana, o bagaço, como insumo energético, na forma final de eletricidade e calor, quando se opera com milho.

A infraestrutura energética já existente nas usinas de cana é suficiente para a operação com milho, e a fonte primária dessa energia vem da sobra de resíduo da operação com cana. Portanto, as usinas abastecidas pelas duas culturas, conhecidas como usinas-flex, têm maior produtividade anual de etanol e evitam a necessidade de utilizar grande quantidade de eucalipto como insumo energético, que é o caso de mais de duas dezenas de unidades que usam apenas milho em operação no País. As usinas-flex, perto de uma dezena já em operação no Brasil, são provas incontestáveis das vantagens econômicas acima descritas.

A última mesa-redonda, dirigida pelo professor Luíz Augusto Horta, da Universidade Federal de Itajubá, contou com a presença de Henry Joseph Junior, diretor da área de sustentabilidade da Anfavea e conhecido interlocutor do setor privado e da academia; Ricardo Abreu, especialista do setor automotivo em nível internacional e fundador da Associação Brasileira de Engenharia, representando a União Nacional de Cana de Açúcar e Bioenergia; e Waldir Luiz Ribeiro Gallo, professor da Faculdade de Engenharia da Unicamp.

O tema central da discussão foi a competição entre veículos de combustão interna e veículos elétricos. Após considerações de todos os participantes, houve um consenso de que haverá mercado para ambos os tipos de tecnologia, porém as alterações frequentes e rápidas que estão ocorrendo no mercado de veículos elétricos aumentam a incerteza sobre o futuro. Aparentemente, o domínio chinês desse mercado pode ser um fator estimulante para veículos híbridos que continuarão a demandar etanol e ser dependentes, de uma forma menos intensa, de baterias.

No final dos trabalhos tivemos a oportunidade de ouvir o engenheiro Carlos de Mathias Junior, presidente da empresa Ebex, desenvolvedora de projetos de captura e sequestro de CO2 do setor de biomassa, sobre um projeto em desenvolvimento para a construção de um hub de armazenagem de CO2 no Estado de São Paulo. O projeto está na fase de detalhamento geológico e já há acordos assinados com usinas de cana que desejam armazenar o CO2 produzido em suas instalações no potencial hub da empresa Ebex.

Em colaboração com Jornal da USP

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