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Infraestrutura no Brasil em debate

GZM faz uma análise do cenário do setor em 2025 e acompanha evento especializado promovido pela Abdib. Avanço dos investimentos privados é um ativo importante, mas não substitui a necessidade de um Estado capaz de planejar

A infraestrutura brasileira vive um momento paradoxal em 2025. Os números indicam um ciclo de investimento mais robusto do que o visto na última década, com sucessivos recordes anuais; ao mesmo tempo, quase todos os diagnósticos convergem para a mesma conclusão: o país ainda investe menos do que precisa, e boa parte do esforço atual serve apenas para evitar que o estoque de ativos se deteriore ainda mais. 

‘Os dados estão disponíveis em estudos recentes da Associação Brasileira de Infraestrutura de Base (Abdib), da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), de consultorias especializadas e organismos multilaterais que desenham um quadro em que a infraestrutura deixa de ser apenas um tema setorial e volta a ocupar o centro do debate sobre produtividade, competitividade e qualidade de vida no Brasil.

Segundo a edição 2025 do chamado “Livro Azul da Infraestrutura”, da Abdib, os investimentos no setor devem atingir cerca de R$ 280 bilhões neste ano, em valores reais, superando o recorde de 2024 (R$ 272,3 bilhões) e alcançando aproximadamente 2,3% do PIB. O número impressiona se comparado ao período de forte queda observado após 2014, mas perde força quando confrontado com a necessidade estimada por especialistas: estudos da Inter.B, da Firjan e do Banco Mundial indicam que o país precisaria investir algo em torno de 4% a 4,6% do PIB ao ano, por duas décadas, para recompor o estoque de capital em infraestrutura, hoje em torno de 35,5% do PIB – um dos mais baixos entre economias emergentes – e aproximá-lo da média internacional de 60%.

Em outras palavras, o Brasil finalmente voltou a crescer em infraestrutura, mas ainda está investindo algo próximo da metade do que seria necessário para transformar o setor de gargalo em alavanca de desenvolvimento.

A composição desse investimento revela uma mudança estrutural: a infraestrutura brasileira se tornou majoritariamente privada. A Abdib estima que cerca de 84% dos R$ 280 bilhões previstos para 2025 virão do capital privado, percentual confirmado por análises independentes que apontam participação de 83,9% do setor privado no total investido – o maior nível desde o início da série do Livro Azul, em 2010. 

Concessões e PPPs federais, estaduais e municipais respondem por boa parte desse movimento: levantamento do Livro Azul 2024 indica que o setor privado deverá investir cerca de R$ 372 bilhões entre 2025 e 2029 em projetos de rodovias, ferrovias, portos, saneamento e infraestrutura social, enquanto consultorias especializadas projetam algo em torno de R$ 250 bilhões em investimentos privados apenas em 2025, impulsionados por mais de 110 leilões de concessões e parcerias.

Papel público no setor

Esse protagonismo privado, porém, convive com um dado incômodo: o investimento público em infraestrutura segue baixo e, em alguns anos, cresceu menos que a própria depreciação dos ativos existentes. O Raio‑X do Setor de Infraestrutura Brasileiro, elaborado por entidades industriais, mostra que, em 2024, o país investiu 2,22% do PIB em infraestrutura, ligeiramente abaixo da depreciação estimada em 2,27% do PIB, o que significa que, na prática, o estoque líquido de ativos continuou caindo. 

A Abdib atribui a desaceleração do ritmo de crescimento em 2025 – de 19,5% em 2023 e 15,3% em 2024 para cerca de 3% neste ano – à combinação de base de comparação elevada, redução de investimentos públicos e recuo em setores como telecomunicações e energia elétrica, ainda que o patamar siga recorde. Em termos práticos, o país avança graças ao esforço de empresas e consórcios privados em setores com modelo de negócio mais claro, enquanto o Estado continua com pouca capacidade de investir em áreas onde a tarifa, sozinha, não fecha a conta.

A leitura por segmento reforça essa lógica. O hiato mais expressivo está em transportes: para atingir, em 20 anos, o estoque de capital considerado adequado, a Inter.B estima que seria necessário elevar o investimento anual do patamar projetado de 0,71% do PIB em 2025 para cerca de 2,2% do PIB, o que implicaria triplicar o esforço atual, algo como R$ 264 bilhões por ano apenas para repor depreciação e atender à demanda no setor, sem contar os R$ 325 bilhões adicionais estimados para modernizar a mobilidade urbana nas 15 principais regiões metropolitanas. 

No saneamento ampliado (água, esgoto, resíduos e drenagem), o desafio é semelhante: o investimento anual teria de subir de 0,51% para 0,62% do PIB ao longo de 20 anos; o “buraco” para universalizar água e esgoto até 2033 é da ordem de R$ 985 bilhões, sem considerar os R$ 41 bilhões necessários até 2040 para resíduos sólidos e R$ 176 bilhões até 2033 para drenagem, hoje incipiente na maioria dos municípios. 

Em telecomunicações, a necessidade é de reverter a queda recente: o setor deve investir apenas 0,23% do PIB em 2025, quando o ideal seria algo em torno de 0,42% para sustentar expansão de redes, 5G e conectividade em áreas menos atendidas.

Abdib Experience 2025

Esse quadro ajuda a explicar por que a infraestrutura voltou a frequentar o centro do debate econômico e político. No evento Abdib Experience 2025, por exemplo, a apresentação do Livro Azul funcionou como síntese dessas tendências: recorde de investimentos, forte peso do capital privado, mas hiatos persistentes em transporte, saneamento e mobilidade urbana, especialmente em cidades médias e regiões periféricas. 

O evento também jogou luz sobre a dimensão institucional do problema. Especialistas reforçaram que, em um contexto em que 84% do investimento vem do setor privado, segurança jurídica, qualidade dos contratos, maturidade regulatória e capacidade de estruturação de projetos se tornam tão importantes quanto a disponibilidade de recursos. 

O esforço de órgãos como o BNDES – que dobrou aprovações em infraestrutura e transição energética nos últimos anos atuando mais como estruturador e âncora de financiamento do que como único financiador – e o avanço de modelos de concessões e PPPs em estados como São Paulo, Minas, Paraná e Rio Grande do Sul ilustram essa mudança de papel.

Ao mesmo tempo, análises de entidades como Firjan, Sinicon e Banco Mundial convergem na necessidade de tratar a infraestrutura como política de Estado, com metas de longo prazo e governança capaz de atravessar ciclos políticos. Isso significa, entre outros pontos, priorizar projetos com base em análises de custo‑benefício e taxa social de retorno, reforçar a autonomia técnica e financeira das agências reguladoras, acelerar a revisão de decisões judiciais com foco nas consequências econômicas (“consequencialismo”) e fortalecer o papel do BNDES e de bancos regionais como estruturadores de projetos complexos, especialmente em estados e municípios que não dispõem de capacidade técnica própria. 

Em paralelo, cresce a pressão para que a agenda de infraestrutura incorpore de forma mais sistemática os riscos climáticos: enchentes no Sul, secas prolongadas e eventos extremos em grandes centros mostraram que drenagem, saneamento, contenção de encostas, resiliência de redes elétricas e de transporte não são “obras acessórias”, mas partes centrais da proteção da vida, da produtividade e do patrimônio.

A fotografia do ano no setor

O cenário de 2025, portanto, é ambivalente. De um lado, há evidências claras de que o Brasil superou o período de paralisia que marcou a segunda metade da década passada: investimentos em infraestrutura cresceram em sequência, o setor privado assumiu papel de protagonista, a carteira de concessões e PPPs se diversificou e instrumentos como debêntures incentivadas, project finance e fundos de investimento em infraestrutura entraram de vez no repertório. 

De outro, persiste um descompasso entre o que se investe e o que seria necessário para reduzir gargalos históricos, modernizar ativos envelhecidos e preparar o país para uma economia mais verde, digital e resiliente. O diagnóstico de que o Brasil precisa, em duas décadas, praticamente dobrar o esforço de investimento anual em infraestrutura – de algo em torno de 2,3% para 4,6% do PIB – traduz, em um número, a magnitude do desafio.

A lição que emerge dos dados e dos debates é que o país não parte do zero, mas ainda está longe da linha de chegada. O avanço dos investimentos privados é um ativo importante, mas não substitui a necessidade de um Estado capaz de planejar, priorizar, cofinanciar e regular com qualidade. 

A agenda de infraestrutura, vista de forma analítica em 2025, deixa de ser apenas uma discussão sobre quantos bilhões serão investidos em determinada obra e passa a ser um teste da capacidade brasileira de construir um ambiente institucional estável, tecnicamente qualificado e voltado a resultados de longo prazo. Sem isso, mesmo ciclos de alta, como o atual, correm o risco de se perder no tempo, deixando para trás mais uma rodada de promessas não cumpridas e um estoque de ativos ainda aquém do que a população e a economia exigem.

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