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Lição que vem do mar

Editorial da GZM de 17 de dezembro de 2025 sobre o desafio de estruturar o setor pesqueiro no Brasil

O Brasil aprendeu, com o agronegócio, que vocação natural não basta: é preciso instituição, crédito, tecnologia, logística e estratégia de longo prazo para transformar solo fértil em potência econômica. A pesca mostra o avesso dessa história. Em vez de plano, o país ofereceu ao setor um laboratório de improviso institucional, zigue-zague político e desatenção estatística – e o resultado é um “gigante adormecido”, para usar a expressão consagrada por pesquisadores que descrevem o setor pesqueiro brasileiro.

Poucos casos revelam tão bem o custo de não planejar quanto a trajetória da pesca desde o início dos anos 2000. Enquanto a soja ganhava fronteiras, a pecuária se tecnificava e o milho se tornava insumo estratégico para ração e biocombustível, a gestão da pesca saltava de secretaria especial a ministério, voltava a secretaria, era anexada à Agricultura, à Indústria, à Presidência – sempre sem tempo suficiente para consolidar políticas, quadros técnicos e sistemas de informação. Em 2019, um trabalho sobre estatísticas pesqueiras no país já alertava que o “apagão de dados” decorrente da extinção do Ministério da Pesca em 2015 inviabilizou o monitoramento adequado e o cumprimento de metas da Agenda 2030 ligadas aos oceanos. A lição é simples e incômoda: não se governa o que não se mede.

Esse abandono não se deu por falta de potencial, mas por falta de prioridade. Em 2024, a aquicultura brasileira alcançou recorde de 968,7 mil toneladas de peixes cultivados, crescendo 9,2% em um ano, puxada pela tilápia, que sozinha respondeu por mais de 68% do total. Em 2025, as exportações de pescado deram um salto de 112% no primeiro trimestre, com US$ 18,5 milhões em vendas externas, consolidando o Brasil como fornecedor competitivo de proteína aquícola para mercados exigentes. Esses números mostram o que acontece quando cooperativas, produtores e indústrias têm um mínimo de estabilidade regulatória e acesso a ciência aplicada – o modelo do Paraná, líder nacional, não deixa dúvida sobre o poder da combinação entre organização coletiva e apoio técnico.

O contraste com a pesca extrativa e com a base artesanal é eloquente. Estudos recentes documentam um setor marcado por conflitos de uso, sensação de abandono, insegurança jurídica e monitoramento precário, em que menos de 7% das principais espécies costeiras têm status de estoque conhecido e planos de manejo robustos. Em auditoria independente, a especialista Ana Paula Prates resumiu o desequilíbrio: “Podemos dizer que a gestão brasileira sobre a pesca está olhando apenas para um lado: o econômico e industrial. O restante está sendo ignorado”. A ausência de rumo claro – de cotas a períodos de defeso bem desenhados, de zoneamento a crédito orientado – não protege o meio ambiente nem garante renda estável aos pescadores; apenas empurra o setor para a informalidade, para disputas territoriais e para uma lenta erosão da confiança nas instituições.

Paradoxalmente, é justamente por ter sido tão negligenciada que a pesca se tornou um caso de referência para pensar desenvolvimento no Brasil. O artigo “A sleeping giant: the historically neglected Brazilian fishing sector” mostra como a combinação de inação governamental, desorganização institucional e falta de dados corroeu oportunidades econômicas e comprometeu a sustentabilidade de estoques em águas vastas e riquíssimas. Em paralelo, relatórios sobre a aquicultura revelam o outro lado da moeda: quando há continuidade de política, coordenação entre produtores, pesquisa e Estado, o país consegue, em poucos anos, ganhar escala, agregar valor e disputar mercados globais de forma competitiva.

A “lição que vem do mar” não é, portanto, um apelo romântico a olhar mais para os peixes, mas um espelho incômodo da nossa capacidade – ou incapacidade – de planejar à altura do território que temos. Em um momento em que o Brasil tenta se recolocar no centro dos debates sobre clima, segurança alimentar e bioeconomia, o destino da pesca dirá muito sobre o rumo do país: se continuará repetindo o padrão de abandonar potenciais até que virem problemas, ou se aprenderá a transformar vocação natural em estratégia de Estado. O mar está lembrando, com atraso, que não basta ter água; é preciso ter projeto.

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