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Quais as perspectivas globais para a geopolítica em 2026 e por que isso é importante para todos

Da Venezuela à Ásia, um mundo em “zona de perigo” para governos, empresas e cidadãos

A captura do presidente da Venezuela por tropas americanas, em uma operação relâmpago que derrubou o líder em Caracas e levou Donald Trump a declarar que os Estados Unidos estão “no comando” do país, é um lembrete brutal de que geopolítica não é assunto restrito a diplomatas. Decisões tomadas em gabinetes militares e salas de negociação, como a promessa de que companhias americanas vão “reconstruir” a infraestrutura de petróleo venezuelana, afetam preços de energia, cadeias de suprimentos, risco financeiro e, no limite, a vida cotidiana de consumidores e empresas em qualquer lugar do mundo.

É nesse contexto que o professor Hal Brands, da Universidade Johns Hopkins e do American Enterprise Institute, traçou no “World Knowledge Forum” um mapa das tensões que devem moldar 2026 – da guerra na Ucrânia ao reposicionamento da Índia, da escalada no Indo‑Pacífico à cooperação entre Rússia, China e Coreia do Norte. A GZM acompanhou o evento, realizado em Seul, na Coreia do Sul, de forma online e na íntegra para captar as principais informações, que estão a seguir:

Um mundo de “grandes potências em disputa”

Para Brands, a chave para entender 2026 é a volta explícita da competição entre grandes potências em um cenário “multi‑polar e contestado”, no qual instituições tradicionais como G7, G20 e até a OTAN são questionadas, ao mesmo tempo em que blocos como BRICS e Organização de Cooperação de Xangai mostram mais fissuras internas do que coesão. Ele ressalta que, mesmo com a retórica de “America First” e dúvidas sobre compromissos de segurança, “é difícil imaginar uma ordem internacional estável se os Estados Unidos não desempenharem um papel construtivo e de ancoragem”.

Esse paradoxo – um hegemonia politicamente volátil, mas ainda indispensável – permeia todas as frentes analisadas: Rússia testa os limites da OTAN, China expande capacidade militar e econômica, e diferentes potências médias tentam extrair vantagem da disputa, às vezes “jogando dos dois lados da cerca”, como ele descreve o comportamento da Índia entre Washington, Moscou e Pequim.

Ucrânia: guerra longa, paz distante

Ao falar da guerra da Rússia na Ucrânia, Brands é direto: “as perspectivas de um acordo de paz hoje são bastante limitadas”. Apesar do encontro recente entre Trump e Vladimir Putin no Alasca, ele observa que “não há muita evidência de que os objetivos russos tenham mudado”, que seguem sendo não apenas a conquista de território, mas “destruir a Ucrânia como entidade política independente”.

Com drones russos já testando defesas da OTAN ao cruzar o espaço aéreo da Polônia, o risco de transbordamento aumenta quanto mais o conflito se arrasta. Na avaliação de Brands, a guerra deve persistir pelo menos até o fim do ano e o desfecho dependerá de “se é o exército ucraniano ou a economia russa que cede primeiro” – um cálculo que investidores, exportadores europeus de energia e empresas com exposição à Europa Oriental não podem ignorar.

Índia, China e o reposicionamento asiático

Um dos pontos que mais surpreenderam observadores, segundo Brands, é o desgaste nas relações entre Estados Unidos e Índia no segundo mandato de Trump. Apesar da afinidade pessoal entre Trump e Narendra Modi e de duas décadas de esforço bipartidário em Washington para aproximar Nova Délhi como contrapeso à China, tarifas americanas sobre a compra de petróleo russo pela Índia e atritos comerciais abriram fissuras inesperadas.

Ainda assim, Brands afasta a hipótese de uma guinada indiana para o lado chinês: “seria quase suicida do ponto de vista da segurança e dos interesses econômicos indianos”. O que ele vê é uma “reposição tática”, em que Modi explora margens de manobra entre Pequim e Washington, sem romper o alinhamento estratégico com os EUA – movimento que afeta decisões de empresas globais sobre realocação de cadeias de valor, semicondutores e investimentos industriais no subcontinente.

No caso da China, ele lembra que Trump alterna “tarifas altíssimas e pressão máxima” com tentativas de um “grande acordo econômico” com Xi Jinping, incluindo compras de commodities e abertura seletiva de mercado. Mas alerta que, qualquer que seja o desfecho dessas negociações, “a relação EUA–China continuará fundamentalmente antagônica”, por choque estrutural de modelos econômicos, sobrecapacidade industrial chinesa e rivalidade militar no Pacífico.

Indo‑Pacífico: o risco de crises acidentais

Brands detalha como a região do Mar do Sul da China e o Estreito de Taiwan concentram talvez o maior risco de escalada não planejada em 2026. Ele cita o episódio recente em que embarcações chinesas colidiram enquanto perseguiam um navio filipino próximo ao recife de Second Thomas Shoal como exemplo de “jogo de gato e rato” que pode, de um momento para outro, matar militares filipinos e acionar o tratado de defesa mútua com os EUA.

Sobre Taiwan, Brands chama atenção para a combinação “perigosa” de uma China militarmente mais capaz e uma ilha “politicamente se afastando do continente”, especialmente após a posse de William Lai em 2024. Exercícios militares chineses em torno de Taiwan, que em 2022 eram excepcionais, tornaram‑se rotineiros, sinalizando capacidade de impor bloqueios ou quarentenas “em curto prazo” – cenário que preocupa de fabricantes de chips a armadores de contêineres.

Coreia do Norte, Rússia e o novo eixo autoritário

Na Península Coreana, Brands destaca dois fatores que agravam o quadro: o avanço dos programas nuclear e de mísseis de Pyongyang e a formalização de uma aliança de defesa com a Rússia. O envio de tropas norte‑coreanas para a guerra terrestre na Europa, em apoio a Putin, e o provável acesso a tecnologia militar russa “turbinam” a capacidade de dissuasão de Kim Jong‑un.

Ele projeta um ponto de inflexão ainda nesta década: a capacidade intercontinental da Coreia do Norte deve superar as defesas antimísseis do território americano, o que passa a expor diretamente qualquer presidente dos EUA ao risco de retaliação nuclear em caso de conflito na península. Isso coloca em xeque a credibilidade da dissuasão estendida sobre a Coreia do Sul e obriga Seul, Tóquio e Washington a construir mecanismos mais robustos de consulta e cooperação, como o triângulo estratégico consolidado em Camp David, em 2023.

EUA: eleições de meio de mandato e o “tabuleiro maior”

Questionado sobre as eleições de meio de mandato de 2026, Brands afirma que o resultado “não deve provocar mudanças dramáticas diretas” na política externa, já que o poder de decisão permanece concentrado no Executivo. Mesmo que democratas conquistem uma das Casas, a margem estreita dificultaria impor uma guinada em tarifas, alianças ou compromissos militares.

Mas o impacto indireto é relevante: se democratas retomarem espaço no Congresso, o mundo pode enxergar “alguma vitalidade residual” no partido e apostar em alternância de poder em 2029. Se republicanos mantiverem controle, a leitura será de que a agenda de Trump – com seu misto de intervencionismo militar e ceticismo em relação a alianças tradicionais – permanecerá como referência dominante, com implicações para qualquer decisão de investimento de longo prazo em setores expostos a tarifas, sanções ou rupturas de cadeia de suprimentos.

O que isso significa para empresas e cidadãos

Ao costurar esses focos de tensão, Brands argumenta que o grande risco de 2026 não é apenas o surgimento de uma nova guerra, mas a convivência simultânea de múltiplas crises em estágios diferentes – “hot wars” e “cold wars” interligadas – pressionando energia, alimentos, tecnologia e finanças ao mesmo tempo. Para empresas, isso se traduz em necessidade de planos robustos de continuidade de negócios, diversificação de fornecedores, leitura fina de riscos políticos em mercados‑chave e uma aproximação mais estruturada com temas de defesa, segurança cibernética e regulação de dados.

Para cidadãos e formuladores de políticas, o recado é incômodo: em um mundo de “zona de perigo”, a distância entre uma decisão de guerra e a conta paga no supermercado, na bomba de combustível ou na fatura de energia nunca foi tão curta. O ataque à Venezuela abre 2026 com um lembrete prático desse novo normal – e sugere que acompanhar geopolítica, daqui em diante, será tão necessário quanto acompanhar inflação ou taxa de juros.

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