Por todos os ângulos técnicos, o acordo Mercosul–União Europeia seguirá sendo objeto de controvérsias: impactos setoriais, efeitos ambientais, assimetrias de poder regulatório, espaço para políticas industriais de longo prazo. Nada disso desaparece com a decisão dos europeus de autorizarem a assinatura de um tratado negociado ao longo de mais de 25 anos.
Mas, em 2026, talvez o dado politicamente mais relevante não esteja no miolo tarifário do texto, e sim no gesto: em um mundo em que conflitos, tarifas punitivas e chantagem comercial voltaram a ser usados como ferramentas corriqueiras de imposição unilateral, duas grandes regiões decidiram dizer em voz alta que ainda acreditam em cooperação estruturada como forma legítima de organizar interesses.
Em um cenário descrito por analistas como “ordem comercial fragmentada”, com três caminhos à frente — comércio sem regras, blocos concorrentes e uma tentativa de reconstrução de um sistema baseado em normas —, acordos amplos entre coalizões de países funcionam como linhas de defesa contra a lógica do cada um por si.
Não se trata de ingenuidade: nenhum tratado elimina o poder de barganha assimétrico, e o histórico de negociações mostra que, muitas vezes, a mão mais forte dita os termos. Mas há uma diferença crucial entre submeter‑se a decisões unilaterais travestidas de “proteção nacional” e aceitar, com todas as tensões do processo, negociar regras, mecanismos de solução de controvérsias e compromissos políticos em mesas compartilhadas.
O Mercosul–UE, nesse sentido, é mais do que um pacote de concessões recíprocas; é sinal de que ainda existe vontade política de manter vivo um pedaço da arquitetura de cooperação que sustentou boa parte do comércio e do crescimento global desde o pós‑guerra.
Em um momento em que tarifas proliferam como retaliação geopolítica, cadeias de suprimentos são redesenhadas com base em alinhamentos estratégicos e a tentação do “comércio gerido” em acordos bilaterais opacos ganha terreno, um tratado que explicita compromissos em temas como desenvolvimento sustentável, diálogo político e convergência regulatória é, por si só, um lembrete de que nem tudo precisa ser resolvido na base da pressão.
É evidente que o acordo não é neutro, muito menos perfeito. Haverá ganhos e perdas para setores agrícolas, industriais e de serviços, tanto na América do Sul quanto na Europa, e o debate sobre salvaguardas ambientais e trabalhistas está longe de se encerrar. Mas insistir apenas na contabilidade de curto prazo — tarifa a tarifa, cota a cota — é perder de vista o contexto em que esse tratado chega: uma década em que a regra tem sido bloquear painéis na OMC, desacreditar organismos multilaterais, instrumentalizar interdependências econômicas como armas de coerção e usar medidas comerciais como extensão quase automática de disputas políticas.
Ao aceitar sentar à mesa, ajustar textos e chegar a um entendimento, Mercosul e União Europeia enviam uma mensagem que interessa diretamente a economias médias como a brasileira: ainda é possível construir zonas de previsibilidade, espaços de diálogo e coalizões em torno de regras, mesmo num mundo mais duro e fragmentado.
Isso não resolve o dilema de como conciliar competitividade industrial, proteção ambiental e inclusão social dentro de cada bloco. Não dispensa a necessidade de políticas internas robustas para evitar que os custos do ajuste recaiam sempre sobre os mesmos. Mas cria um ambiente em que essas discussões se dão sob um guarda‑chuva de cooperação, e não de confronto permanente.
Por fim, vale registrar: em tempos em que manchetes se acostumaram a anunciar novas barreiras, sanções e rupturas, um acordo com o Mercosul–UE é uma anomalia positiva. Não porque garantirá, por si só, desenvolvimento equilibrado ou transição verde exemplar — isso dependerá das escolhas que Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e parceiros europeus fizerem daqui para frente.
Mas porque, num tabuleiro em que a estratégia de conflitos vem sendo usada para impor desejos unilaterais, ver dois blocos apostando em regras e cooperação é, sim, algo a se comemorar. Às vezes, em geopolítica, o maior valor de um tratado é lembrar ao sistema internacional que ainda existe alternativa à lógica do choque como método padrão de negociação.