O avanço dos veículos elétricos (EVs) deixou de ser um fenômeno localizado em alguns mercados e passou a ser uma tendência global com números difíceis de ignorar. Em 2026, a frota mundial de carros, ônibus, vans e caminhões elétricos deverá atingir 116 milhões de unidades em circulação, um salto de 30% em relação a 2025, segundo projeção da Gartner. A fotografia global ajuda a enquadrar a pergunta que interessa cada vez mais a investidores, montadoras, governos locais e consumidores brasileiros: qual é a real trajetória de expansão dos elétricos nas ruas do Brasil?
Um mundo com 116 milhões de veículos elétricos
O novo relatório da Gartner projeta que, mesmo com o recuo de subsídios em vários países e tarifas adicionais sobre importação de veículos, como as adotadas pelos Estados Unidos, a frota elétrica global seguirá acelerando em 2026. A estimativa é que o número de EVs em uso suba de cerca de 89,6 milhões em 2025 para 116 milhões em 2026, um crescimento de 30% em apenas um ano.
China continuará como epicentro dessa transformação: o país deve responder por 61% de toda a base instalada de veículos elétricos do planeta em 2026, consolidando sua liderança tanto em produção quanto em adoção. A consultoria destaca também a força dos híbridos plug‑in (PHEVs): a posse global desses veículos deve aumentar 32% ano a ano, atingindo quase 40 milhões de unidades, à medida que consumidores valorizam a “segurança psicológica” de ter um motor a combustão como reserva em viagens mais longas.
Mesmo assim, os veículos totalmente elétricos a bateria (BEVs) seguirão representando bem mais da metade da frota mundial de EVs, com previsão de 76,3 milhões de unidades em circulação em 2026, frente a 59,5 milhões em 2025. Em outras palavras, a eletrificação avança por duas frentes complementares: BEVs nos mercados e usos com boa infraestrutura de recarga, PHEVs onde a rede ainda é limitada ou há maior ansiedade de autonomia.
Onde o Brasil está nessa curva
No Brasil, o movimento parte de uma base menor, mas acelera rapidamente. Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE) indicam que o mercado de leves eletrificados encerrou 2025 com 223.912 unidades vendidas no ano, um recorde e alta de 26% em relação a 2024. Com isso, os eletrificados (somando híbridos convencionais, híbridos plug‑in e 100% elétricos) alcançaram 13% das vendas de veículos leves no país, em um mercado total de 2,55 milhões de unidades, um patamar inédito nas séries históricas da entidade.
Dentro desse grupo, os plug‑in (PHEVs) lideraram as vendas de 2025, com 101.364 unidades e crescimento de 58% sobre o ano anterior, enquanto os BEVs somaram 80.178 unidades, ampliando em 30% as vendas de 2024 e respondendo por cerca de 36% de todos os eletrificados comercializados. Em termos de frota, estimativas independentes apontam que o Brasil tinha algo em torno de 177 mil veículos elétricos (somando puros e híbridos) em circulação em 2024, ante 41 mil em 2019, e poderia chegar a 300 mil em 2029 caso mantenha o ritmo de expansão atual.
Consultorias como a Bright Energy projetam um salto ainda mais agressivo no curto prazo: as vendas de EVs no Brasil devem fechar 2025 em 275 mil unidades, alta de 55% sobre 2024, e podem mais que dobrar em 2026, alcançando 600 mil unidades e cerca de 23% de participação de mercado — impulsionadas pela entrada de fábricas de montadoras chinesas e pela reação de concorrentes tradicionais com novos modelos locais.
O contraste com China, Europa e EUA
No cenário global, o Brasil ainda está atrás dos líderes, mas avança mais rápido do que muitos mercados emergentes. Em 2025, analistas estimam que cerca de 1 em cada 4 carros novos vendidos no mundo será elétrico, com projeção de 22 a 24 milhões de unidades (entre BEVs e PHEVs). A China responde por aproximadamente dois terços das vendas globais e já se aproxima de um cenário em que 1 a cada 2 carros novos é elétrico, com previsão de atingir 75% de participação em 2030.
Na Europa, a participação dos EVs nas vendas deve crescer em torno de 30% a 35% em 2025, com forte apoio regulatório e metas de banimento de motores a combustão em vários países a partir de 2035. Já os Estados Unidos avançam mais devagar: pesquisas recentes indicam desaceleração das vendas em 2025, com queda de cerca de 1% na América do Norte, refletindo incertezas regulatórias, gaps de infraestrutura de recarga e preços ainda mais altos em relação a carros tradicionais.
Nesse contexto, o Brasil se posiciona como um “segundo pelotão” com potencial de acelerar. A combinação de aumento rápido de vendas, melhora da infraestrutura de recarga, entrada de novos fabricantes e políticas de estímulo — ainda que mais modestas do que na Europa — pode fazer com que o país se aproxime, em poucos anos, das taxas de adoção observadas em mercados médios europeus, mesmo mantendo protagonismo dos biocombustíveis e motores flex no restante da frota.
O que impulsiona (e o que limita) a expansão no Brasil
No lado dos motores de crescimento, três fatores se destacam:
- Oferta e preço: a chegada de montadoras chinesas com modelos elétricos competitivos e a resposta de fabricantes estabelecidos com linhas flex‑elétricas e híbridas plug‑in adaptadas ao mercado local reduzem o “prêmio de preço” em relação a modelos a combustão.
- Política industrial e infraestrutura: programas de incentivo à industrialização de veículos de baixas emissões, expansão de corredores de recarga em rodovias e crescimento da malha de carregadores em shoppings, condomínios e empresas começam a criar uma base mínima para uso mais massivo.
- Pressão climática e corporativa: compromissos ESG de frotistas, locadoras, empresas de logística e grandes grupos varejistas impulsionam compras em volume de veículos elétricos, mesmo antes da massificação no varejo pessoa física.
Do lado das limitações, pesam:
- Custo ainda elevado para o consumidor médio, mesmo com queda gradual de preços;
- Infraestrutura de recarga desigual, muito mais concentrada em grandes centros e corredores específicos;
- Incerteza regulatória, incluindo mudanças em IPI, imposto de importação e programas de incentivo à produção local, que podem acelerar ou frear investimentos.
O que essa trajetória projeta para as ruas brasileiras
O quadro combinado — aceleração global com liderança chinesa, Europa mantendo metas ambiciosas, EUA hesitando e Brasil subindo a ladeira — sugere que os próximos três a cinco anos serão decisivos para definir qual lugar o país terá no mapa da eletromobilidade. Se as projeções se confirmarem, o Brasil pode chegar ao fim de 2026 com algo entre 500 mil e 600 mil veículos eletrificados em circulação, contando vendas acumuladas dos últimos anos, e participação próxima a um quarto das vendas anuais de leves.
Isso não significa que as ruas serão dominadas por carros elétricos em tão pouco tempo: a frota brasileira total ultrapassa 60 milhões de veículos, e a renovação ocorre de forma lenta. Mas o ritmo atual indica que, em cidades grandes e corredores logísticos, os elétricos deixarão de ser exceção para se tornar parte visível do tráfego diário, especialmente em frotas corporativas, serviços de entrega, transporte por aplicativo e segmentos de maior renda.
Para investidores e formuladores de políticas públicas, a mensagem combinada da Gartner e dos dados de mercado é clara: a expansão dos carros elétricos não é mais uma hipótese distante, mas um eixo concreto de transformação da indústria, da infraestrutura e da política energética. A questão, no caso brasileiro, não é se eles vão ocupar as ruas — mas quão rápido, em que nichos e com qual combinação de tecnologia (BEV, PHEV, híbridos flex) isso acontecerá. E, principalmente, se o país conseguirá capturar o valor dessa transição na forma de indústria local, empregos qualificados e matriz de transporte mais limpa, ou ficará restrito ao papel de importador tardio de soluções desenvolvidas em outros lugares.