O brasileiro quer tecnologia que melhore a vida real, preserve o meio ambiente e seja usada com responsabilidade — especialmente quando o assunto é inteligência artificial. É o retrato que emerge do Bosch Tech Compass 2026, estudo global realizado em sete países (Brasil, China, França, Alemanha, Índia, Reino Unido e Estados Unidos) para entender o que as pessoas esperam da inovação no dia a dia, na educação e na economia.
Qualidade de vida e meio ambiente no topo da lista
A pesquisa mostra que o Brasil olha para tecnologia com uma lente muito concreta: saúde e sustentabilidade. De acordo com o levantamento, 59% dos brasileiros dizem esperar principalmente inovações em tecnologia voltada à saúde pessoal, enquanto 42% colocam soluções sustentáveis entre as principais prioridades para os próximos anos.
Na prática, esse desejo se traduz em exemplos como:
- aplicativos e wearables que monitoram sono, pressão, glicemia e atividade física, ajudando na prevenção de doenças crônicas;
- telemedicina mais acessível, especialmente em regiões onde faltam especialistas;
- tecnologias para reduzir consumo de energia e água em casa e no trabalho, como eletrodomésticos mais eficientes, painéis solares residenciais e sistemas de reúso.
O estudo indica ainda que 71% das pessoas, na média global, acreditam que a inovação torna o mundo um lugar melhor, um leve aumento em relação aos 69% de 2025 — sinal de que o otimismo tecnológico está se recuperando, mas de forma mais cautelosa do que no pico de 75% registrado em 2023.
IA como protagonista — e motivo de cautela
Se há uma tecnologia que simboliza essa ambivalência é a inteligência artificial. Globalmente, o Bosch Tech Compass aponta a IA como a tecnologia mais influente da próxima década; no Brasil, 70% dos entrevistados acreditam que ela será a principal força tecnológica do período.
Isso aparece tanto em aplicações industriais — automação de fábricas, manutenção preditiva, IA embarcada em veículos — quanto no cotidiano: assistentes virtuais, recomendações personalizadas, ferramentas de produtividade e educação adaptativa. Ao mesmo tempo, outras pesquisas recentes mostram que 61% dos brasileiros temem perda de empregos pela IA, mas 50% também veem oportunidades que ela pode gerar, reforçando a percepção de que o país encara a tecnologia como inevitável, mas quer regras claras e uso responsável.
A própria Bosch, que encomendou o estudo, reconhece esse tensionamento: o Tech Compass “traduz esperanças e medos” em relação à tecnologia para que “ela realmente sirva às pessoas”, e não apenas a objetivos abstratos.
Onde o Brasil se vê mais competitivo
Um dado relevante para a agenda econômica é que os entrevistados apontam a agricultura como o setor em que o Brasil mais se destaca em inovação no cenário global: 33% dos brasileiros citaram o agro como área em que o país é competitivo tecnologicamente.
Isso dialoga com o avanço de soluções de agricultura inteligente, como:
- sensores e conectividade no campo para monitorar solo, umidade e clima;
- máquinas agrícolas com automação e direção assistida;
- sistemas de gestão que cruzam dados de clima, mercado e produção para apoiar decisões do produtor.
“Além disso, a Bosch já oferece ao mercado tecnologias de automação e digitalização para agricultura inteligente, que também geram benefícios diretos para a sustentabilidade no campo”, afirma Paulo Rocca, vice‑presidente de Inovação e Novos Negócios da Bosch América Latina. Segundo ele, no Brasil a empresa desenvolve soluções como sistemas híbrido‑flex e Dual Fuel (diesel‑etanol), alinhados à descarbonização da mobilidade, mostrando como o país tenta combinar vocação agrícola, biocombustíveis e inovação industrial.
Educação, burocracia e as barreiras à inovação
O estudo também explicita aquilo que o ecossistema de inovação brasileiro conhece na prática: as travas para transformar expectativas em realidade. Para 45% dos entrevistados no Brasil, a burocracia é o maior entrave à inovação. Em seguida aparece a falta de mão de obra qualificada, citada por 35%.
A percepção sobre educação é outro ponto crítico: apenas 32% dos brasileiros acreditam que as escolas incentivam o pensamento inovador — bem abaixo de China (77%) e Índia (76%). Em outras palavras, o país é otimista em relação à tecnologia, mas reconhece que não prepara, na velocidade necessária, as pessoas que deveriam criar, operar e regular essas inovações.
Como resposta, empresas começam a montar sua própria infraestrutura de formação. “Para apoiar todo esse movimento, investimos em capacitação de pessoas na Academia de Talentos Digitais, que está formando jovens para fortalecer ainda mais o ecossistema de inovação no país”, afirma Rocca. Programas corporativos desse tipo complementam a formação formal e ajudam a suprir parte do déficit de competências em áreas como software, dados, automação e IA.
Um otimismo pragmático: tecnologia para problemas concretos
A pesquisa também mostra que o brasileiro não espera “tecnologia pelo espetáculo”, mas soluções para problemas concretos: saúde sobrecarregada, cidades congestionadas, violência, clima extremo, dificuldade de acesso a serviços públicos de qualidade.
Isso se reflete em três expectativas centrais:
- que inovação torne cuidados de saúde mais acessíveis e personalizados;
- que tecnologias verdes ajudem a reduzir poluição e emissões, sem encarecer demais o custo de vida;
- que a IA seja usada para simplificar a vida (por exemplo, automatizando processos burocráticos, melhorando mobilidade urbana, apoiando aprendizagem), e não apenas para aumentar controle ou substituir pessoas sem rede de proteção.
Em resumo, o que o brasileiro espera da tecnologia e da inovação em 2026 é menos promessa abstrata e mais resultado tangível: qualidade de vida, meio ambiente preservado, serviços mais eficientes e oportunidades de trabalho em um mercado que se reconfigura rapidamente. O desafio — para governos, empresas e sistema educacional — é transformar esse otimismo pragmático em políticas, produtos e modelos de negócio que coloquem as pessoas de fato no centro da próxima onda tecnológica.