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Por que as montadoras chinesas estão dominando o mercado brasileiro

Por Theo Paul Santana, especialista em negócios Brasil–China e fundador do Destino China

Acompanho o mercado chinês há mais de 15 anos, e o que está acontecendo no setor automotivo brasileiro é, sem exagero, a maior transformação industrial que já presenciei. Em apenas três anos, marcas antes desconhecidas do grande público, como BYD, GWM e Chery, saíram da irrelevância para dominar cerca de 80% do mercado de veículos elétricos e ultrapassar 7% do mercado total. Isso não é movimento oportunista. É estratégia industrial executada com precisão.

O ponto central é que as montadoras tradicionais instaladas no Brasil ainda analisam esse fenômeno como concorrência de preço. Mas o que estamos vendo é uma mudança estrutural de modelo produtivo.

Por que os carros chineses conseguem ser tão competitivos

A vantagem das montadoras chinesas não vem de um único fator, mas de uma soma de vantagens estruturais ao longo de toda a cadeia.

A primeira é a escala. A China produz cerca de 31 milhões de veículos por ano, o equivalente a 35% da produção global. O Brasil produz pouco mais de 2,3 milhões. Essa diferença dilui custos fixos de forma brutal.

A segunda é a integração vertical. A BYD fabrica internamente cerca de 75% de seus componentes, incluindo baterias, semicondutores, motores elétricos e eletrônica de potência. Quando uma montadora tradicional precisa reduzir custos, negocia. A BYD simplesmente aumenta sua própria produção.

A terceira — e decisiva — é o domínio das baterias. As baterias representam de 30% a 40% do custo de um elétrico. O preço médio global é de cerca de US$ 115 por kWh. A BYD produz suas células LFP entre US$ 44 e US$ 56 por kWh, vantagem de até 60% sobre concorrentes. Sozinha, essa diferença já explica boa parte da agressividade de preços.

O custo de mão de obra é relevante, mas menos do que se imagina. A automação das fábricas chinesas é altíssima. O diferencial real está na arquitetura industrial.

Tarifas não são suficientes para frear a expansão

O Brasil está elevando gradualmente o Imposto de Importação para elétricos, que chegará a 35% em 2026. Isso afeta a competitividade? Sim. Mas menos do que se previa.

As montadoras chinesas operam com margens suficientes para absorver parte do impacto no curto prazo, enquanto aceleram a produção local. A estratégia é clara: sacrificar margem para ganhar mercado. A BYD, por exemplo, já investe bilhões na fábrica de Camaçari, projetada para se tornar uma das maiores do país.

A transição para produção local é inevitável

O padrão de entrada das empresas chinesas segue três fases:
importação → montagem local (SKD/CKD) → produção completa.

A tendência é clara: com tarifas subindo e incentivos à nacionalização, a produção local passa a ser prioridade. O Brasil deixa de ser apenas mercado consumidor e passa a integrar a estratégia global dessas empresas.

O Brasil virou peça estratégica no tabuleiro global

Com tarifas de 100% nos EUA e 45% na Europa, o Brasil surge como alternativa central para escoamento da capacidade chinesa. Mais do que isso: o país funciona como plataforma de exportação para a América do Sul via Mercosul.

Até o fim de 2025, 16 marcas chinesas devem operar no Brasil, com investimentos que ultrapassam R$ 30 bilhões. Isso não é aposta especulativa. É posicionamento de longo prazo.

Onde ainda existem gargalos

O principal ponto de atenção é o pós-venda. A rede de concessionárias cresce rápido, mas ainda não alcança a capilaridade das tradicionais. Há avanços em estoque de peças, mas o Brasil ainda carece de mão de obra especializada em veículos elétricos.

Esse é um desafio operacional, não estrutural. E tende a diminuir conforme o mercado amadurece.

O erro das montadoras tradicionais

As montadoras tradicionais cometeram três erros:

  1. Subestimaram a velocidade — enquanto discutiam o futuro da eletrificação, as chinesas já vendiam.
  2. Reagiram com lobby antes de competir.
  3. Ignoraram a demanda reprimida por elétricos acessíveis.

O consumidor brasileiro queria essa oferta. As chinesas entregaram.

O que vemos no setor automotivo é o reflexo de algo maior: a China se consolidou como potência industrial em manufatura avançada e está exportando esse modelo.

Para o consumidor, o cenário é positivo: mais concorrência, preços pressionados e maior oferta tecnológica.

Para a indústria tradicional, a mensagem é direta: adaptar-se rapidamente ou perder relevância.

A transformação já começou — e não há retorno ao modelo anterior.

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