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O fornecedor que sua empresa ainda não mapeou

Por Joildo Santos, fundador do Grupo CRIA e especialista em comunicação estratégica e desenvolvimento de ecossistemas. Trabalha há 18 anos conectando marcas, agências e governos com comunidades, facilitando parcerias que geram impacto real e resultado mensurável

12.348 favelas brasileiras passaram a existir oficialmente no sistema postal em outubro de 2025. CEP por logradouro em fase de implantação, agências dos Correios previstas em 100 comunidades. A meta era para o final de 2026, mas foi cumprida com um ano de antecedência. O que parece conquista de cidadania é, na prática, uma reorganização logística que vai afetar a cadeia produtiva do país inteiro.

Até pouco tempo, um morador de favela não conseguia abrir conta em banco, se cadastrar em marketplace, receber encomenda ou emitir nota fiscal com endereço válido. 16,3 milhões de pessoas fora de qualquer operação comercial estruturada. Esse cenário mudou.

Um ecossistema que opera no escuro

O Data Favela entrevistou 1 mil empreendedores de comunidades em todo o Brasil, em pesquisa publicada em fevereiro de 2026. O retrato é de um mercado que funciona, mas funciona invisível: 40% dos negócios já são formalizados como MEI, 91% aceitam Pix e 37% começaram com menos de R$1.520 de capital inicial. Mais da metade abriu as portas a partir da pandemia.

O problema é que os outros 60% seguem na informalidade. Não emitem nota, não aparecem em cadastro de fornecedores e não entram em nenhum processo de procurement corporativo. A infraestrutura que permitiria essa inclusão está chegando só agora: endereço postal válido e conectividade real. Os R$2,8 bilhões investidos pelo governo em fibra óptica e estações 4G/5G já alcançam 680 favelas e 1.223 municípios. O acesso digital combinado com endereçamento formal cria, pela primeira vez, a possibilidade concreta de colocar esses empreendedores dentro de cadeias de fornecimento organizadas.

Isso é gestão de risco

Grandes empresas no Brasil mantêm cadeias de suprimentos concentradas. Fornecedores com perfil semelhante, nas mesmas regiões, operando nos mesmos modelos. Qualquer gestor de compras sabe o que isso significa: dependência de poucos players e baixa resiliência quando vem o choque.

As periferias brasileiras movimentam R$300 bilhões por ano, segundo o Data Favela. Mais do que o PIB de 22 estados. São 17,2 milhões de pessoas em 12.348 comunidades que compram, vendem e produzem todos os dias. No primeiro semestre de 2025, 97% das empresas abertas no Brasil foram pequenos negócios, segundo o Sebrae. A maioria nasce em territórios periféricos. Ignorar essa base não é estratégia conservadora. É deixar dinheiro e resiliência na mesa.

Empresas que trazem micro e pequenos fornecedores periféricos para o seu ecossistema ganham diversificação real na cadeia de suprimentos. Acessam um mercado que já se provou resistente a crises. A pandemia não quebrou esses negócios. Criou mais da metade deles.

O que converge em 2026

O CEP por logradouro já opera em dez estados. Foram 870 novos códigos postais criados em comunidades de Salvador, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo. Empreendedores periféricos conseguem, agora, acessar cadastros de fornecedores, abrir contas bancárias e receber mercadorias com rastreamento. Parece básico. É porque sempre foi básico para quem mora no asfalto.

Na parte de conectividade, o programa FUST instalou 12 mil quilômetros de fibra óptica e 616 estações rádio base de 4G e 5G. São 479 provedores regionais atendendo territórios que até ontem estavam fora do comércio eletrônico. E no campo institucional, tanto o Sebrae quanto a Aliança Empreendedora já tratam o microempreendedor periférico como agente econômico estratégico. Com a COP30 em Belém, a demanda por fornecedores alinhados a critérios socioambientais só cresce. Quem busca compliance ESG com lastro real encontra nessa base uma oportunidade que relatório nenhum de consultoria vai entregar pronta.

O cálculo que falta na planilha

63% dos empreendedores de favela operam informalmente. Se 10% desses negócios forem formalizados e integrados a cadeias de fornecimento nos próximos 24 meses, são milhares de novos fornecedores com custo operacional competitivo e proximidade geográfica dos maiores centros consumidores do país.

O Brasil tem cerca de 15 milhões de MEIs ativos. 3,1 milhões de novos pequenos negócios foram abertos só no primeiro semestre de 2025. A infraestrutura que faltava para conectar a base periférica a esse ecossistema está sendo construída agora.

A pergunta para quem decide compras e assina relatório de sustentabilidade é uma só: sua empresa vai mapear esse fornecedor agora ou vai esperar o concorrente chegar primeiro?

Eles já existem. E agora têm endereço.

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