[AGÊNCIA DE NOTÍCIAS DC NEWS]
A escassez de mão de obra já se consolidou como um dos principais gargalos estruturais do varejo brasileiro e começa a comprometer a operação de empresas em diferentes regiões do país. Estudo da Confederação Nacional do Comércio (CNC) mostra que 57% das principais ocupações do comércio apresentam sinais de falta de trabalhadores, com impacto mais intenso nas funções operacionais. Nesse contexto, Ricardo Basaglia, CEO da Michael Page, referência em recrutamento no mundo, afirma que enfrentar o apagão passa por uma mudança de foco na gestão de pessoas. “Mapeie quem fica e porque fica”, disse durante palestra no evento Reward Connect, promovido pelo iFood.
Segundo o executivo, o cenário atual é inédito do ponto de vista da disputa por profissionais. “Talvez ao longo da história nunca tenha sido tão difícil contratar”, afirmou. Para Basaglia, há 20 anos no escritório da companhia no Brasil, hoje o varejo concorre não apenas com empresas do mesmo setor, mas também com aplicativos, novos formatos de trabalho e até benefícios governamentais, o que amplia a pressão especialmente sobre a base da pirâmide.
Na avaliação do CEO da Michael Page, um dos principais erros das empresas é agir apenas quando o problema já está instalado. “O pipeline de pessoas precisa estar sempre sendo construído”, afirmou. “Não dá para procurar talento só quando alguém sai.” O alerta dialoga com os dados da CNC, que indicam a necessidade de dezenas de milhares de contratações adicionais apenas para neutralizar o déficit atual de trabalhadores no setor. “Contratação hoje é estratégia, não urgência pontual”, afirmou o CEO.
RETENÇÃO – Ao tratar de retenção, Basaglia destacou que o papel da liderança se tornou central em um cenário de escassez prolongada. Segundo ele, gestores mal preparados aceleram o turnover ao reproduzir modelos antigos de comando em um mercado que mudou radicalmente. “Hoje, o líder precisa entender gente antes de entender processo”, afirmou, ao defender que a escuta ativa, a previsibilidade de rotina e a clareza de expectativas passaram a pesar tanto quanto salário.
Para o executivo, enfrentar o apagão de mão de obra exige revisão constante de liderança e cultura organizacional. “Esse é um tema que precisa ser revisitado o tempo todo. Tudo muda muito rápido”, afirmou. “Quem não entender agora o que sustenta permanência e engajamento vai continuar perdendo gente e competitividade.”
MAIS AFETADOS – Os dados da CNC mostram que a escassez de mão de obra atinge de forma mais intensa os segmentos de supermercados, atacarejo, farmácias, vestuário e serviços essenciais, onde a rotatividade é estruturalmente elevada e a reposição de trabalhadores se tornou mais lenta.
Nessas atividades, funções operacionais como vendedores, operadores de caixa, repositores e atendentes concentram os maiores níveis de déficit, pressionando custos, jornadas e a qualidade do atendimento. Segundo a CNC, o descompasso entre oferta e demanda de profissionais é mais agudo justamente nos setores de maior capilaridade e contato direto com o consumidor, ampliando os impactos operacionais do apagão de mão de obra no varejo.