NR-01: por que saúde mental e riscos psicossociais também são tema de sustentabilidade?

Por Laura Salles, CEO e fundadora da PlurieBR

Durante muito tempo, quando falávamos em sustentabilidade corporativa, o foco recaía quase exclusivamente sobre assuntos relacionados ao meio ambiente e governança. A dimensão social, especialmente a saúde mental no trabalho, costumava ficar em segundo plano, tratada como uma pauta de bem-estar ou benefício complementar. Esse cenário vem mudando nos últimos anos. 

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-01) deixa claro que riscos psicossociais, como estresse crônico, burnout, assédio e sobrecarga de trabalho, precisam ser geridos com o mesmo rigor técnico aplicado a riscos físicos e operacionais. Não se trata apenas de cumprir uma exigência legal. Trata-se de reconhecer que a saúde mental é um pilar essencial da sustentabilidade dos negócios.

A partir de maio de 2026, com o fim do período de transição, a fiscalização passa a verificar se as empresas realmente incorporaram esses riscos à sua gestão. Isso significa ir além de iniciativas pontuais e comprovar, com dados e ações estruturadas, que o ambiente de trabalho não está adoecendo as pessoas. 

Os custos reais de negligenciar a saúde mental 

Os números ajudam a dimensionar a urgência do tema. Levantamento da Mercer Brasil, divulgado em 2025, mostra que 78% das empresas que ainda não implementaram uma gestão efetiva de saúde mental enfrentam perdas de produtividade associadas ao presenteísmo, que podem chegar a 35% em áreas críticas. Já o custo médio de reposição de profissionais afastados por burnout pode alcançar até três vezes o salário anual do cargo, considerando recrutamento, treinamento e perda de conhecimento acumulado. 

Outros estudos reforçam esse cenário. A Série SmartLab de Trabalho Decente 2025, publicada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em parceria com o Ministério Público do Trabalho, estima que os custos associados à perda de produtividade por transtornos mentais equivalem a cerca de R$ 468 bilhões por ano no Brasil, o equivalente a 4% do PIB nacional. 

O relatório aponta ainda que os afastamentos por problemas de saúde mental cresceram 134% nos últimos dois anos no país, atingindo quase meio milhão de licenças em 2024. Ambientes marcados por insegurança psicológica, onde as pessoas não se sentem seguras para errar, pedir ajuda ou expressar opiniões, alimentam diretamente esse ciclo de adoecimento e rotatividade. 

Esses dados evidenciam algo que já deveria ser óbvio: negligenciar a saúde mental não é apenas um problema humano ou reputacional, é um risco econômico direto. Empresas que adoecem suas pessoas comprometem a continuidade do negócio, perdem competitividade e fragilizam sua capacidade de inovar. 

A nova redação da NR-01 representa uma mudança profunda de mentalidade. Ela exige que os riscos psicossociais façam parte do inventário de riscos da empresa e sejam tratados de forma sistemática. Não basta oferecer ações isoladas ou benefícios simbólicos. É preciso avaliar a organização do trabalho, o ritmo das metas, a clareza de papéis, a qualidade das lideranças e as relações interpessoais.

Na prática, isso significa ouvir as pessoas, transformar percepções em diagnósticos estruturados e, a partir daí, definir planos de ação com responsáveis, prazos e indicadores claros. Sem dados, qualquer iniciativa se torna reativa e pouco eficaz. Tenho visto de perto como muitas organizações ainda tentam resolver problemas complexos com soluções superficiais. 

O discurso de que “as pessoas são o nosso maior ativo” não se sustenta sem métricas e acompanhamento contínuo. A gestão baseada em dados permite identificar, por exemplo, se o esgotamento de uma equipe está relacionado à liderança, a processos mal desenhados ou a metas irreais. 

Da conformidade à estratégia ESG 

Nenhum negócio é sustentável quando depende de equipes exaustas, adoecidas ou emocionalmente inseguras. A conformidade com a NR-01, nesse sentido, deixa de ser apenas uma obrigação legal e se torna um elemento central da estratégia ESG. 

Empresas que incorporam a saúde mental à sua gestão reduzem riscos operacionais, fortalecem sua reputação, atraem e retêm talentos e criam ambientes mais propícios à inovação. Já aquelas que ignoram essa agenda enfrentam dificuldades crescentes para acessar capital, manter equipes engajadas e responder às exigências de um mercado cada vez mais atento às práticas sociais das organizações. 

No novo contexto da NR-01, o papel das lideranças ganha ainda mais relevância. Gestores preparados para identificar sinais de sofrimento psíquico e conduzir conversas difíceis com responsabilidade tornam-se peças-chave para prevenir crises maiores. A empatia deixa de ser uma habilidade desejável e passa a ser uma competência estratégica. 

Nesse cenário, a tecnologia surge como aliada fundamental. Ferramentas que permitem monitorar o clima organizacional, analisar dados de engajamento e identificar padrões de risco ao longo do tempo ajudam as empresas a sair do improviso e adotar uma postura preventiva. Quando combinadas com uma cultura de escuta ativa e canais seguros de diálogo, essas soluções ampliam a capacidade de agir antes que o problema se torne crítico.

A NR-01 veio para consolidar uma mudança que já estava em curso. Saúde mental e riscos psicossociais não são temas periféricos. Eles fazem parte do núcleo da sustentabilidade empresarial. As organizações que compreenderem isso não estarão apenas em conformidade com a legislação. Estarão construindo negócios mais resilientes, humanos e preparados para o futuro do trabalho.

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