Há algum tempo venho observando um fenômeno que deixou de ser pontual e passou a assumir características de padrão. Uma espécie de epidemia comportamental que se manifesta de forma cada vez mais explícita. Refiro-me aos chamados “sem-noção”. Foi justamente ao me deparar com situações recentes desse tipo que me lembrei de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, um clássico publicado em 1936 que, curiosamente, dialoga com esse cenário de forma bastante atual.
O termo “sem-noção” é coloquial, mas descreve com precisão um tipo de comportamento que dispensa maiores formalizações. O “sem-noção” não é apenas quem erra. É quem não percebe que errou. Não se trata apenas de falta de educação no sentido clássico. É algo mais estrutural. É a ausência de leitura de contexto. É a incapacidade de avaliar o impacto do próprio comportamento sobre terceiros. É agir como se o espaço coletivo fosse uma extensão do espaço individual.
Os exemplos recentes são conhecidos. Pessoas que assistem vídeos em volume alto em ambientes compartilhados, que transformam qualquer espaço coletivo em uma extensão da própria conversa, como se ninguém mais estivesse ali, que ocupam áreas comuns para atividades individuais sem qualquer preocupação com o entorno, ou que interrompem interações formais com comentários deslocados, sem qualquer leitura do momento ou do propósito do que está acontecendo.
Isso deixou de ser um comportamento periférico.
O que começa a chamar atenção é a expansão desse comportamento para ambientes onde, em tese, ele deveria ser naturalmente filtrado. Empresas e universidades passaram a conviver com manifestações semelhantes. Reuniões interrompidas por atitudes fora de contexto, interações profissionais conduzidas sem qualquer percepção de hierarquia, propósito ou consequência, e, no ambiente universitário, episódios em áreas comuns do campus que desconsideram completamente a dinâmica coletiva, seja pelo uso inadequado de espaços compartilhados, seja por comportamentos que ignoram a presença e a circulação de outras pessoas.
Há algumas hipóteses para esse fenômeno. A dificuldade crescente de oferecer um retorno direto sobre comportamentos inadequados é uma delas. O risco de interpretações equivocadas, de acusações desproporcionais ou simplesmente de desgaste desnecessário faz com que muitos optem por evitar o confronto. Ao fazer isso, elimina-se a oportunidade de ajuste. Com o tempo, comportamentos inadequados deixam de ser percebidos como tais. O resultado é um ambiente em que o comportamento deixa de ser calibrado pelo coletivo.
Independentemente das causas, o fato é que o problema existe. E conviver com ele passou a exigir algum tipo de resposta prática.
É aqui que o livro de Carnegie deixa de ser apenas atual e passa a ser necessário. O que ele oferece não é um conjunto de truques, nem uma coleção de frases prontas. Ele resgata fundamentos claros de comportamento em ambientes coletivos, justamente o que parece ter se perdido. Em grande medida, o que hoje chamamos de “sem-noção” é apenas a ausência desses princípios básicos.
Demonstrar interesse genuíno pelo outro, evitar a exposição pública desnecessária, reconhecer méritos com sinceridade, saber ajustar a forma de comunicação ao contexto. Esses elementos, que poderiam ser considerados básicos, passaram a ser diferenciais. E é justamente esse conjunto de fundamentos que o livro organiza de forma acessível e aplicável.
Tenho recomendado esse livro aos meus alunos de Engenharia com mais frequência do que recomendaria em outros momentos. Não como uma leitura complementar, mas como parte da formação. Engenharia, no limite, é uma atividade coletiva. Projetos não são desenvolvidos em isolamento. Decisões são discutidas, defendidas, ajustadas. A qualidade técnica é indispensável, mas não é suficiente.
Saber se posicionar sem desconsiderar o outro, saber discordar sem romper, saber perceber o ambiente antes de agir, são competências que não aparecem em planilhas, mas definem resultados.
O livro também oferece um caminho para quem precisa conviver com esse tipo de comportamento. A reação mais comum diante do “sem-noção” é o confronto direto ou o afastamento. Nenhuma das duas alternativas resolve o problema de forma consistente. Carnegie sugere outra abordagem. Influenciar pelo exemplo, ajustar pelo diálogo, criar condições para que o próprio indivíduo perceba, gradualmente, o descompasso entre sua atitude e o ambiente em que está inserido.
Isso exige mais esforço. Exige disciplina. E nem sempre funciona de imediato. Ainda assim, parece ser uma alternativa mais eficaz do que simplesmente aceitar ou reagir de forma impulsiva.
O fato é que a convivência social, seja em empresas, universidades ou espaços públicos, continua baseada em princípios que não mudaram. O respeito ao outro, a percepção de contexto, a capacidade de ajustar o próprio comportamento em função do ambiente são elementos básicos. Quando esses elementos falham, o sistema como um todo perde eficiência.
Um livro de 1936 não resolve um problema de 2026. E não se propõe a isso. O que ele faz é lembrar que, antes de qualquer discussão mais sofisticada sobre comportamento, há fundamentos que não podem ser ignorados.
Se existe uma forma de lidar com essa epidemia, ela provavelmente não virá de novas regras ou de maior controle. Virá da recuperação de algo que nunca deveria ter deixado de ser essencial. A capacidade de perceber que o outro existe, algo que não deveria precisar ser reaprendido.
Marcelo Massarani é Professor Doutor da Escola Politécnica da USP, Diretor Acadêmico da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva, membro do Conselho Diretor do Instituto da Qualidade Automotiva e Conselheiro consultivo