A prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e as buscas da Polícia Federal no Banco de Brasília (BRB) — que culminaram no afastamento do presidente da instituição — colocaram em evidência fragilidades nos mecanismos de governança, compliance e supervisão do sistema financeiro brasileiro. A operação foi deflagrada após o Banco Central identificar irregularidades no Master, meses depois de ter rejeitado a tentativa de aquisição do banco pelo BRB — movimento que agora ganha novos contornos.
O episódio lança luz sobre os riscos de decisões estratégicas concentradas, potenciais conflitos de interesse e estruturas de controle que falham em impedir práticas irregulares. Também reacende a discussão sobre a responsabilidade das instituições financeiras — públicas e privadas — em garantir processos transparentes, auditorias independentes e estruturas de governança robustas.
Investidores expostos e confiança em xeque
A operação trouxe à tona a exposição de investidores ao Banco Master e os possíveis impactos da investigação sobre os recursos aplicados. A prisão de Vorcaro e os indícios levantados pelo Banco Central levantam dúvidas sobre a transparência da gestão e a segurança dos aportes realizados.
“O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) protege o investidor até o limite de R$ 250 mil. Quem investiu abaixo disso poderá reaver os recursos. Mas quem ultrapassou esse valor corre o risco de perdas”, alerta Igor Lucena, economista e CEO da Amero Consulting. “O maior risco da liquidação do Banco Master não é para o investidor médio, mas para fundos de previdência, pensão e investimento que precisarão remarcar ativos.”
Lucena também aponta para a necessidade de maior controle sobre a emissão de CDBs. “Não é razoável que uma única instituição emita CDBs em volume tão grande que comprometa metade do FGC. É preciso acompanhar essas emissões com base no patrimônio líquido dos bancos.”
Sinais de falhas e medidas imediatas
Para Marcello Marin, contador e mestre em Governança Corporativa, os sinais de falhas em governança costumam surgir antes da crise. “Alertas de compliance ignorados, comitês de risco pouco atuantes, falhas em KYC e due diligence, conflitos de interesse não geridos e estruturas de controle interno frágeis são indicativos claros”, afirma.
Segundo Marin, quando uma instituição é envolvida em investigação, medidas imediatas devem ser adotadas. “É preciso ativar um comitê de crise, contratar auditoria independente, revisar políticas de AML e KYC, e garantir comunicação transparente com clientes e reguladores. Em casos graves, pode ser necessária a reestruturação de conselhos e comitês.”
Fundos de pensão e governança pública
A exposição de fundos de pensão ao Banco Master levanta questionamentos sobre a diligência desses investidores institucionais. “Quando fundos de pensão entram em estruturas opacas sem questionar emissor, concentração e lastro, o problema é institucional”, afirma um analista do setor. “Esses fundos deveriam ser o filtro mais técnico do mercado. Se mesmo eles falharam, há uma grave falha de governança pública.”
Compliance: estrutura sem autonomia
Apesar do arcabouço regulatório robusto do Banco Central, o caso evidencia que normas não bastam quando a cultura interna das instituições não prioriza o cumprimento das regras.
“No português claro: regra não substitui caráter”, resume um executivo. “Muitos bancos médios tratam compliance como requisito formal, não como função estratégica. Quando o time de controles não tem poder de veto e processos são ignorados para ‘fechar negócio’, nenhuma resolução do BC compensa isso”.
Lucena concorda: “O compliance no Banco Master falhou. Não por falta de regulação, mas talvez pela ausência de troca de informações entre instituições. Ainda assim, o sistema brasileiro tem índice de quebra menor que o de países como os EUA”.
Impacto no crédito privado e reprecificação de risco
A liquidação do Banco Master pode provocar, no curto prazo, uma abertura de spreads e maior aversão ao risco no mercado de crédito privado. “É um efeito higienizador: os bons emissores continuam, os ruins pagam mais caro ou saem do jogo”, avalia um gestor. “O que estamos notando é reprecificação, não colapso”.
Lucena destaca que muitos investidores assumiram risco consciente. “Títulos estavam sendo vendidos a taxas como CDI +30%. Isso mostra que o mercado já desconfiava da credibilidade. Parte dos investidores olhou só para o prêmio, não para o emissor”.
Bancos sólidos devem atrair mais recursos
Em momentos de instabilidade, a tendência é que os recursos migrem para instituições com histórico de solidez. “O fluxo natural é para quem já provou estabilidade ao longo do tempo. Volatilidade não combina com instituições frágeis”, afirma um analista.
Lucena acrescenta que os bancos digitais também precisam reforçar sua credibilidade. “À medida que crescem, devem incorporar os mesmos pilares de gestão de risco e governança dos bancões. O investidor não busca o moderno, busca o confiável”.
Alta renda: sofisticação exige diligência
Para investidores de alta renda e do segmento private, o episódio serve como alerta. “Retorno sempre vem com três perguntas básicas: quem é o emissor, qual é o lastro e como é a governança”, diz um consultor ouvido pela GZM. “Sofisticação não é quantidade de produtos na carteira. É evitar concentração excessiva e entender que, sem governança sólida, o spread ‘atrativo’ é só o preço do risco que ninguém mais quis assumir”.
Lucena reforça: “Investidores institucionais devem fazer análise criteriosa. O FGC existe para proteger o pequeno investidor e fomentar o mercado, mas essa é uma lição que todos os agentes devem aprender”.
O cenário global e a amplificação do risco
A crise do Banco Master ocorre em um momento de maior sensibilidade nos mercados globais. Com os EUA passando por correções, o Bitcoin em queda e investidores realizando lucros no fim do ano, o ambiente favorece a aversão ao risco.
“Esse movimento causado pela aversão ao risco é que pode impactar o mercado”, explica um economista. “Mas é essencial separar as camadas. O cenário global é macroeconômico. O caso do Banco Master é de outra natureza: práticas internas, supervisão, qualidade de lastro e governança”.
Lucena conclui: “Não se pode afirmar que o sistema está quebrado, mas ele precisa de ajustes. O caso do Banco Master foi uma exceção à regra e demorou muito para ser resolvido. A forma como o mercado reage agora será decisiva para restaurar a confiança”.