A crise estrutural do futebol italiano

Por Felipe Araujo, Diretor Executivo e Estratégia no Futebol

A eliminação da Seleção Italiana de Futebol, desta vez nos pênaltis para a Seleção da Bósnia e Herzegovina, não é um acidente. É consequência direta de um processo de decadência que se arrasta há mais de uma década. A Itália, tetracampeã mundial, não está apenas falhando esportivamente. Está perdendo relevância econômica no ecossistema global do futebol.

O INÍCIO DA QUEDA: GOVERNANÇA E ATRASO ESTRUTURAL

Após o auge na Copa do Mundo FIFA de 2006, o futebol italiano falhou em se modernizar. Enquanto ligas europeias buscaram elementos como direitos internacionais, experiência global, branding e governança centralizada, a Itália manteve exatamente o oposto: estádios antigos, clubes politicamente fragmentados, dirigentes em páginas policiais e, o pior, a baixa capacidade de internacionalização.

O EFEITO DOMINÓ NA BASE E NO TALENTO

A crise também é de formação. A Itália deixou de ser uma fábrica consistente de talentos de elite. O modelo ficou menos eficiente em comparação com: França (formação centralizada e exportadora), Inglaterra (investimento massivo pós-2010) e Alemanha (reforma estrutural após 2000).

Consequência direta: menor qualidade média da seleção e dependência de ciclos curtos. Vocês se lembram da última vez que um craque italiano ganhou repercussão mundial?

O IMPACTO FINANCEIRO DE FICAR FORA DA COPA

Ficar fora de uma Copa do Mundo não é apenas uma derrota esportiva. É uma perda direta de receita.

Estimativa de perdas por edição:

  • Premiação FIFA potencial: US$ 10M a US$ 40M
  • Direitos comerciais e patrocínios: US$ 20M a US$ 50M
  • Ativações de marca + exposição global: difícil mensurar, mas relevante

Considerando três ausências consecutivas: US$ 150M a US$ 300M (R$ 750M a R$ 1,5 bilhão). Além disso, você acaba vendo seleções como as do Brasil e da Argentina que fecham contratos com patrocinadores a peso de ouro, multiplicam suas receitas e ainda geram maior visibilidade para seus atletas.

O IMPACTO DENTRO DO MERCADO NACIONAL

Enquanto no Brasil você tem jogadores que acabam precisando se naturalizar por outros países para terem a chance de ir ao mundial, como é o caso recente de Maurício, do Palmeiras, que vai jogar pelo Paraguai, ou os casos de Liedson, Pepe e Deco, que no passado precisaram se naturalizar portugueses para terem a chance de disputar uma Copa do Mundo, na Itália esse fenômeno não ocorre justamente pela escassez de atletas de ponta dentro da liga nacional. Da mesma forma que você não deve lembrar de nenhum craque italiano da atualidade, você apenas está vivendo o reflexo de uma crise de identidade nacional.

O CUSTO INVISÍVEL: MARCA ITÁLIA É APENAS SAUDOSA

Nesse novo contexto, a marca Itália sumiu do mercado; ela é apenas uma saudosa lembrança de um momento de ouro, uma história de outra era, assim como a Hungria e a Bulgária já marcaram época, ou a própria Holanda, que teve grandes gerações e nunca venceu uma Copa. O momento é outro no futebol: países menores, porém com processos melhores, passaram a jogar com frequência a Copa do Mundo. É o caso do Marrocos, que já foi sensação na Copa de 2022 e vai para 2026 no grupo do Brasil, ou a Croácia, que vem Copa após Copa desde 1998, ficando fora apenas de 2010 (lembrando que ela foi vice-campeã em 2018).

O problema não é apenas financeiro; hoje o futebol italiano tem um problema estrutural: ou muda, ou vai ser como um museu, vivendo do passado.

E você, se lembra quem foi o último grande jogador da Seleção Italiana?

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