Carregando...

A era da indignação fabricada

Como transformamos irritação em estratégia e opinião em produto. Por Diego Rondon, CEO e cofundador da e-volve.one – consultoria especializada em estratégia de crescimento com foco em RH

Há algo profundamente revelador na palavra escolhida pelo dicionário Oxford para representar 2025. Não é apenas um termo da moda, mas um diagnóstico social que descreve, com precisão desconfortável, o tipo de conteúdo que domina o nosso tempo: aquilo que é criado intencionalmente para irritar, provocar, desestabilizar e arrastar as pessoas para dentro de debates que elas nem estavam procurando. A lógica por trás dessa dinâmica é simples, quase primitiva, mas de eficácia impecável em um mundo guiado por algoritmos que recompensam impulsos: se desperta raiva, engaja; se engaja, viraliza; se viraliza, monetiza.

O curioso é que fingimos surpresa, como se já não convivêssemos com esse fenômeno diariamente. A indústria da provocação está por todo lado — nos creators, nas marcas, na imprensa, nos políticos e até nos cidadãos comuns que descobriram que um toque de irritação rende mais atenção do que qualquer argumento bem construído. Transformou-se indignação em ferramenta, reação em produto, opinião em gatilho emocional. De forma silenciosa, porém contínua, fomos substituindo o diálogo pela disputa, a reflexão pelo impulso, o argumento pela necessidade frenética de responder imediatamente a tudo.

O problema não é a provocação em si. Provocar sempre foi necessário. A provocação genuína tensiona ideias, abre caminhos de pensamento, desperta curiosidade e dá profundidade às conversas que importam. O problema surge quando a provocação perde propósito e passa a existir apenas como estratégia, um ruído calculado para nos manter presos a discussões vazias, projetadas não para esclarecer, mas para exaurir. O resultado é uma sociedade que responde a tudo e compreende quase nada, permanentemente estimulada e simultaneamente cansada, saturada por um fluxo interminável de conflitos artificiais.

E estamos cansados. Muito mais do que admitimos. Há um esgotamento nítido na forma como consumimos informação, uma fadiga que se acumula a cada polêmica desnecessária, a cada opinião extremada, a cada tema transformado em batalha campal apenas porque o algoritmo descobriu que a raiva é mais eficiente que a razão. As pessoas anseiam por profundidade, mas recebem espuma; desejam clareza, mas encontram confusão; esperam conversa, mas tropeçam em confrontos fabricados.

É justamente por isso que 2026 tem potencial para marcar uma virada. A comunicação que prosperará não será aquela construída para inflamar, mas a que consegue iluminar; não será a que grita, mas a que sustenta; não a que divide, mas a que explica. Não se trata de suavizar opiniões ou abandonar a coragem de tensionar temas difíceis, e sim de recuperar a capacidade de provocar com propósito, elegância e inteligência, sem depender do truque emocional da irritação constante. Num ambiente saturado de estímulos artificiais, autenticidade voltará a ter valor de mercado — talvez mais do que qualquer outro recurso.

A escolha do Oxford, portanto, não é apenas um registro semântico, mas um espelho. Ele devolve para nós a foto exata de quem nos tornamos e do quanto precisamos resgatar a qualidade do debate público antes que o próprio debate se torne irrelevante. Se 2025 consolidou a era da irritação como estratégia, 2026 pode ser o ano em que aprendemos a filtrar o barulho, valorizar quem entrega substância e, principalmente, recusar o convite diário para entrar em guerras que não constroem nada.

Entre conteúdos inteligentes e conteúdos inflamáveis, seguimos tentando identificar o que é um verdadeiro convite ao pensamento e o que é apenas isca emocional travestida de opinião. E talvez o grande desafio dos próximos anos seja exatamente esse: aprender a proteger nossa atenção — o bem mais disputado do planeta — e entregá-la apenas a quem a trata com respeito, profundidade e verdade.

Compartilhe nas redes:

Boletim por E-mail

GZM NEWS

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos e promoções.

publicidade

Recentes da GZM

Mais sessões