Carregando...

A obsessão pelo pitch perfeito pode matar empresas promissoras

Paulo Motta, que também lidera a holding The Networkers, com centralização em frentes de negócios em agenciamento artístico, inteligência comercial, experiências de alto padrão e networking corporativo
Paulo Motta, empresário, investidor e especialista em gestão de ativos com trajetória marcada por visão estratégica e capacidade de execução. Sócio da IMvester, atua na estruturação e operação de investimentos imobiliários com presença no Brasil, Portugal e Estados Unidos

Tenho acompanhado o ecossistema de startups brasileiro de perto, seja investindo, apoiando empreendedores ou participando de eventos e rodadas de negócios. Confesso que me preocupa ver como o brilho do palco tem, muitas vezes, ofuscado aquilo que realmente sustenta uma marca — a execução consistente, a entrega de valor e a capacidade de crescer de forma sustentável.

O pitch é importante, claro. Comunicação é essencial e uma boa apresentação pode abrir portas, gerar conversas estratégicas e encurtar distâncias entre ideias e capital. Mas, nos últimos anos, ele parece ter se tornado o ‘tudo’ das empresas. Vejo empreendedores investindo muito tempo, planejando falas impactantes, posando para a foto perfeita para o telão, copiando frases de impacto. O problema é que, muitas vezes, essa energia não está indo para onde deveria: produto, equipe, clientes e, evidentemente, bons resultados.

Segundo levantamento da Associação Brasileira de Startups (Abstartups), só em 2024 foram realizados mais de 1.500 pitches em eventos e demodays no país. Apenas cerca de 15% resultaram em investimentos relevantes. E, destes, muitos negócios não resistiram mais que dois anos. É um número preocupante que revela casos onde se valoriza mais a performance das palavras do que a solidez do modelo de negócios.

Já testemunhei empresas que conquistaram atenção e prêmios, mas não sobreviveram por falta de viabilidade financeira, consistência operacional e capacidade de adaptação. Também vi negócios que levantaram cifras milionárias com um discurso envolvente, mas sucumbiram diante de atrasos crônicos, falhas logísticas e questões jurídicas. Nessas histórias, o pitch foi brilhante, mas a realidade não acompanhou o discurso.

Por outro lado, também conheço empreendedores que preferem ficar longe dos holofotes. Eles focam em construir, melhorar, atender bem. Investem sim em comunicação e sabem o valor da informação, mas têm clareza sobre seu produto, mercado e métricas, apresentando retorno de crescimento saudável e duradouro.

O que aprendi ao longo dos anos é simples: o pitch deve refletir a verdade da empresa, e não encobrir fragilidades. Investidores atentos procuram substância: produto validado, tração real, equipe competente, cases reais e visão de longo prazo. O desempenho positivo não nasce do espetáculo, mas sim da coerência entre discurso e prática.

Se continuarmos tratando o pitch como o ápice da jornada empreendedora, vamos continuar perdendo negócios que poderiam ter sido grandes histórias de sucesso. Prefiro acreditar que é possível inverter essa lógica. Menos discurso, mais execução. Menos frases ensaiadas, mais resultados concretos. Menos fotos posadas e mais informações coerentes. O aplauso de cinco minutos pode até ser gratificante, mas é a construção de longo prazo que deixa marcas de verdade.

Compartilhe nas redes:

Boletim por E-mail

GZM NEWS

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos e promoções.

publicidade

Recentes da GZM

Mais sessões