A ACX (AirCarbon Exchange) Brasil apresentou, durante a COP30, uma iniciativa que pretende alterar de forma estrutural o financiamento de projetos climáticos no país. Parceira da B3 na negociação de créditos de carbono, a empresa lançou uma moeda digital desenhada para ampliar liquidez, reduzir riscos e acelerar a viabilidade de projetos de mitigação e remoção de emissões — um movimento considerado crucial para que o Brasil avance no cumprimento de suas metas climáticas no âmbito do Acordo de Paris.
A ferramenta surge em um momento em que o país se prepara para implementar novas obrigações regulatórias, entre elas as previstas no Artigo 56 da Lei nº 15.042/2024, que instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). A expectativa é que o instrumento ajude a preencher lacunas históricas de financiamento e previsibilidade no setor.
Carlos Martins Junior, CEO da ACX Brasil, explicou para nossa reportagem que a proposta nasce da vocação original da empresa como uma plataforma de financiamento climático. “Desde o início, nossa missão foi criar mecanismos que conectassem capital a projetos de impacto real. Somos, essencialmente, uma empresa de financiamento climático, e a moeda digital é uma evolução natural dessa trajetória”, afirmou.
Ele destaca que a parceria com a B3 foi decisiva para estruturar a solução. “A colaboração com a B3 nos permitiu unir infraestrutura de mercado tradicional com a agilidade de uma bolsa digital. O Grupo ACX, que opera globalmente como uma plataforma de negociação de ativos ambientais, é a base tecnológica que sustenta essa inovação”, complementou.
Segundo Junior, o carbono funciona como métrica e lastro para destravar novos ciclos de investimento. “Quando tratamos o carbono como um ativo financeiro com regras claras, previsibilidade e liquidez, abrimos espaço para financiar infraestrutura climática em escala. É isso que o Brasil precisa para transformar potencial em entrega”.
Um mecanismo para dar fluidez ao mercado
A solução da ACX utiliza um ativo digital que permite fracionar contratos de compra futura de reduções de emissões e transformá‑los em unidades negociáveis. Esse modelo facilita a formação de curvas a termo em projetos de longo prazo, antecipando liquidez para empreendedores e acelerando a tomada de decisão dos investidores.
Segundo a empresa, o mecanismo reduz custos operacionais, diminui riscos de execução e amplia a capacidade de investimento em infraestrutura climática — um dos principais gargalos para projetos de grande escala no país.
A ACX afirma que o foco da moeda digital é impulsionar projetos que atendam aos critérios de alta integridade: adicionalidade, mensurabilidade, verificabilidade e permanência. Com acesso antecipado ao capital, iniciativas desse perfil podem acelerar cronogramas, expandir operações e chegar ao mercado com maior robustez, tanto no ambiente voluntário quanto no regulado.
Apoio institucional e potencial de escala
O lançamento reuniu representantes de destaque do setor financeiro e energético, incluindo Anbima, Petrobras, ANP, ABiogás, IBP, CCS Brasil, SLB, Elo, Itaú, Itausa, Mombak, Fortune Group, Yvy Capital e Climate Ventures. Especialistas presentes destacaram que a solução não se restringe a um tipo específico de projeto e pode ampliar a oferta de créditos de carbono — condição essencial para que o Brasil transforme seu potencial em escala real.
Martins Junior afirmou que o país carecia de um mecanismo integrado de redução de risco. “Temos capital, infraestrutura pronta e muito potencial. Mas faltava um mecanismo que combinasse garantias e instrumentos financeiros. Agora, essa peça está no tabuleiro”, disse.
Ao comentar a presença de representantes de diferentes segmentos no anúncio da nova ferramenta, O executivo ressaltou a diversidade do grupo. “Reunimos instituições do setor financeiro, de energia, de tecnologia, de biogás, de petróleo e gás, além de fundos de investimento e organizações dedicadas à inovação climática. Essa pluralidade mostra que o mercado entende a urgência de criar instrumentos que reduzam risco e ampliem liquidez”, afirmou.
Ele acrescentou que o engajamento de entidades importantes e diversos fundos demonstra que a solução tem potencial de uso transversal. “Não estamos falando de um produto para um nicho específico. É uma ferramenta que pode beneficiar desde projetos de captura de carbono até iniciativas de restauração florestal e bioeconomia”.
Previsibilidade e novos ciclos de financiamento
A lógica da curva a termo — na qual o valor do ativo cresce conforme se aproxima a entrega do crédito performado — deve trazer maior previsibilidade aos projetos e atrair novos investidores. A expectativa é que a moeda digital seja especialmente relevante para iniciativas de longo prazo, como projetos de captura e armazenamento de carbono (CCS), que exigem grandes volumes de capital e maturação prolongada.
Para Martins, ampliar a oferta de créditos de alta integridade é fundamental tanto para o cumprimento das NDCs brasileiras quanto para atender às futuras obrigações reguladas.
Ele também detalhou como a lógica da curva a termo influencia o valor dos ativos climáticos. “Quando você estrutura um ativo climático com uma curva a termo, cria previsibilidade de preço ao longo do tempo. Isso significa que o valor do crédito aumenta conforme o projeto avança e se aproxima da entrega do ativo performado”, explicou.
Segundo Martins Junior, essa dinâmica reduz incertezas e atrai novos perfis de investidores. “A curva a termo transforma um projeto climático em um ativo financeiro com comportamento conhecido. Isso reduz risco, melhora a capacidade de planejamento e permite que o desenvolvedor acesse capital antes mesmo da geração final do crédito. É um divisor de águas para projetos de longo prazo, como CCS, reflorestamento e infraestrutura de captura”.
Em um cenário em que a transição climática depende de escala, previsibilidade e confiança, buscar alternativas que viabilizem operações com créditos de carbono deixa de ser uma escolha e se torna um desafio global inadiável.