Segundo a Organização Mundial da Saúde, o envelhecimento acelerado da população é um dos maiores desafios globais deste século. No Brasil, esse movimento é ainda mais acentuado: em 2050, seremos um país majoritariamente idoso. Essa transformação demográfica altera profundamente a geografia social e as cidades, onde a vida cotidiana acontece, são o primeiro território a sentir seus efeitos.
Nas últimas décadas, surgiram conceitos como Cidades Inteligentes, Cidades Criativas, Cidades Sustentáveis e Cidades Humanas. Apesar do avanço teórico, a prática revela outra realidade: ainda vivemos em cidades hostis para o envelhecimento, com mobilidade precária, serviços não amigáveis, infraestrutura desigual e baixa oferta de ambientes que favoreçam convivência, autonomia e bem-estar para a população sênior.
O Guia da Colaboração Multissetorial para o Desenvolvimento Sustentável, de Tomás de Lara – expert em cultura colaborativa e economia sustentável – lembra que desafios complexos só podem ser enfrentados por meio da cooperação entre governo, setor privado, sociedade civil e academia, integrando saberes, competências e responsabilidades. São setores que compartilham interesses essenciais — saúde, educação, inclusão, bem-estar, justiça e infraestrutura — pilares indispensáveis para que as cidades acolham pessoas todas as idades.
Repensar as cidades sob a ótica da longevidade significa abandonar o modelo tradicional, centrado no adulto jovem produtivo, e migrar para uma perspectiva verdadeiramente inclusiva. Exige compreender que o envelhecimento não é exceção, mas sim o destino comum de todos nós. Ambientes urbanos bem planejados podem ampliar autonomia, reduzir dependência, prevenir doenças, fortalecer vínculos comunitários e impulsionar a economia da longevidade, cujo potencial de consumo cresce exponencialmente.
Nesse sentido, políticas públicas devem incorporar abordagens colaborativas e multissetoriais, que é uma das recomendações do guia. Governos devem ser os indutores das mudanças e convocar empresas, universidades, organizações sociais e a própria população idosa para cocriar soluções que vão desde mobilidade acessível e moradia adaptada até programas de saúde preventiva, educação ao longo da vida e centros de convivência intergeracional.
O documento destaca ainda a importância de liderança distribuída, tomada de decisão compartilhada e processos contínuos de aprendizagem, exatamente o que falta no modelo tradicional de gestão pública. Construir a “cidade da longevidade” exige quebrar paradigmas, fortalecer a confiança entre setores e desenvolver mecanismos de governança que garantam continuidade, propósito e impacto coletivo.
Se queremos um futuro sustentável, inclusivo e economicamente vibrante, precisamos transformar nossas cidades em lugares onde as pessoas desejem — e possam — viver bem durante todos os ciclos de vida. Isso passa por rever o status de praças, calçadas, transportes, serviços públicos, tecnologias urbanas, habitação e o próprio desenho da vida comunitária.
A longevidade não é uma ameaça, é uma conquista da humanidade no século 21. Mas, cidades despreparadas se tornam problema: social, econômico e de saúde pública. Por isso, a urgência: o futuro do Brasil passa pela qualidade de vida nas cidades, e o futuro das cidades depende de como tratamos a população idosa.
É hora de desenhar cidades que celebrem o envelhecer com dignidade, participação, cuidado e prosperidade distribuída. O tempo de agir é agora.
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