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Às vésperas da COP30: da retórica à coerência global

Por Carla Elage, Head de Editoria e Eventos da GZM

Vamos à história que nos trouxe até aqui?

O marco inicial de um movimento com foco em sustentabilidade para nosso planeta, foi a Conferência de Estocolmo, em 1972. Mas a lentidão de ações nas décadas seguintes, tornou urgente a adoção de mecanismos mais eficazes e compromissos políticos sérios para a implementação de metas ambientais.

Na década de 1980, a percepção de que o modelo de desenvolvimento sócio econômico estava se tornando insustentável a longo prazo, mostrou a necessidade de se criar um movimento global com foco em sustentabilidade que culminou com a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a ECO-92, realizada no Rio de janeiro.

Naquela época, já haviam problemas ambientais globais que transcendem as fronteiras, como mudança climática, perda de biodiversidade e poluição em larga escala. Havia uma pressão crescente da sociedade civil e de ONGs sobre os governos a se posicionarem em relação ao meio ambiente, uma vez que o uso contínuo e acelerado de recursos naturais finitos tinham que ser conciliados com a conservação ambiental.

Em dezembro de 1997 foi realizada a COP 3 em Kyoto, no Japão. Foi um marco histórico para a sustentabilidade e para as negociações climáticas internacionais. Foi adotado o Protocolo de Kyoto, estabelecendo as primeiras metas de redução de emissões de gases de efeito estufa para os países desenvolvidos. 

Por esse acordo, o carbono foi transformado em ativo econômico.

Nascia então o conceito de créditos de carbono e o primeiro sistema global de metas para redução de emissões — ainda restrito aos países desenvolvidos.

E porque o Protocolo de Kyoto somente entrou em vigor em 2005?

A Rússia foi o país-chave para a ratificação do acordo, necessária para atender aos requisitos de entrada em vigor do tratado. Para se tornar lei, o protocolo precisava ser ratificado por pelo menos 55 países, que, juntos, fossem responsáveis por 55% das emissões globais de CO2 em 1990. Uma vez que os Estados Unidos (o maior emissor de efeito estufa da época) se recusou a ratificar o acordo alegando que isso prejudicaria sua economia, o que atrasou significativamente o processo de implementação do tratado. 

Quando entrou em vigor, em 2005, Kyoto inaugurou a era dos mecanismos de mercado, como o MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), que permitia a países ricos compensarem emissões financiando projetos sustentáveis em nações em desenvolvimento.

Foi o embrião da nova economia climática — e também o início de seus dilemas éticos e estruturais.

COP21: de Paris ao presente

Dezoito anos depois da COP 3, em 2015, o Acordo de Paris redesenhou o jogo. Foi o primeiro pacto global juridicamente vinculativo sobre o clima, e estabeleceu metas e diretrizes para combater as mudanças climáticas. 

Pela primeira vez, todas as nações assumiram compromissos climáticos — as NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas).

A ideia era poderosa: não deixar ninguém de fora.

O Artigo 6 abriu caminho para um mercado global de carbono interconectado e transparente. Esse artigo prevê mecanismos de cooperação internacional para que os países atinjam suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) de forma mais eficiente. Também permite a criação de um mercado global de carbono e desbloqueia apoio financeiro para nações em desenvolvimento. 

Mas agora, dez anos depois, o debate ainda esbarra em rastreabilidade, integridade e credibilidade.

E enquanto isso, as emissões seguem crescendo — e 2024 já foi o ano mais quente da história.

E diante dessa dificuldade em manter a temperatura em até 1,5°C acima, as discussões se intensificam sobre a necessidade de uma ação de mitigação ainda mais ambiciosa com foco em limitar o quanto a temperatura pode ultrapassar esse limite (por exemplo, a 2°C ou pouco mais) e, em paralelo, a urgência de medidas de adaptação aos impactos que já são inevitáveis por conta da mudança climática. 

O Brasil e o desafio da liderança

O Brasil tem uma oportunidade histórica para liderar o novo ciclo da transição climática.

Com a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), podemos nos consolidar entre os protagonistas da economia verde global,  um mercado regulado de carbono e instituído pela Lei nº 15.042/2024, que define limites máximos de emissões de gases de efeito estufa para setores específicos da economia. 

É um modelo de “cap and trade”, onde empresas com emissões de carbono abaixo de um teto podem comercializar permissões de emissão e certificados de redução, incentivando a redução de emissões e o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono. 

Seus objetivos

  • Reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
  • Estimular a inovação tecnológica de baixo carbono.
  • Promover a transição para um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
  • Cumprir as metas climáticas do Brasil, como a neutralidade de carbono até 2050. 

Nossa riqueza natural, matriz energética limpa e capital ambiental oferecem vantagens únicas — mas a liderança exige coerência.

Precisamos agir para reduzir o desmatamento, fortalecer a rastreabilidade dos créditos e garantir integridade aos projetos. Esses são os passos que convertem potencial em credibilidade internacional.

COP30: Belém e o balanço global

Esse mês, Belém sediará a COP30, o maior evento climático da década — e o primeiro em território amazônico.

Mais do que uma conferência, será o momento do Global Stocktake, ou seja, o balanço das promessas feitas em Paris e quais foram os resultados efetivos entregues até o momento.

Belém simboliza a encruzilhada de onde estamos: a Amazônia é o epicentro da biodiversidade, mas também da vulnerabilidade.

E é nesse palco que o Brasil poderá provar que é, de fato, uma potência verde global — não por discurso, mas por ação.

De promessas à maturidade

Se Kyoto foi o nascimento do mercado de carbono, e Paris sua consolidação política, Belém precisa ser o marco da maturidade prática.

O planeta não pode mais esperar.

Chegou a hora de transformar compromissos em resultados mensuráveis, com métricas claras e com impacto real.

Porque, no fim, o carbono só tem valor quando deixa de ser emitido.

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