Há perguntas que um país não deveria precisar repetir. “Até quando?” é uma delas. Até quando vamos assistir a famílias sendo soterradas Brasil afora, crianças resgatadas na lama, bairros inteiros riscados do mapa para, alguns dias depois, voltarmos ao piloto automático institucional?
Os números do período chuvoso 2025/2026 em Minas Gerais, por exemplo, não são um acidente estatístico: é um diagnóstico. O Estado já registra o período mais letal dos últimos cinco anos, com ao menos 31 mortes confirmadas desde outubro, milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas e municípios inteiros em situação de calamidade. Na Zona da Mata, temporais que despejaram mais de 400 mm em poucas horas deixaram dezenas de mortos em Juiz de Fora e Ubá, quase todos em deslizamentos e desabamentos de áreas de encosta. Não é um evento isolado: é a repetição de um roteiro que o Brasil conhece de cor
É verdade que ninguém controla o volume exato da chuva, nem a combinação precisa de fatores climáticos que transformam um alerta em tragédia. Mas isso não pode ser usado como desculpa para o que é, sim, previsível: se chover muito em encostas ocupadas de forma irregular, em margens de rios adensadas e impermeabilizadas, em cidades que ignoram seu próprio Plano Diretor, pessoas vão morrer.
Há décadas, estudos técnicos alertam que a “forte urbanização e a redução da cobertura vegetal” tornam chuvas intensas devastadoras, ao expor populações a inundações e deslizamentos. A ocupação de encostas e várzeas, somada à impermeabilização indiscriminada, simplesmente “não deixa saída para a água”.
O problema central, portanto, não é a chuva. É o planejamento urbano – ou a falta dele. Quando planos diretores prometem “vigilância permanente das áreas de risco” e mapeamento geotécnico atualizado, mas loteamentos irregulares avançam encosta acima, não estamos diante de uma fatalidade, mas de uma escolha política continuada. Quando o Atlas de Desastres aponta mais de 4 mil mortos e 10,5 milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas por conta das chuvas em pouco mais de três décadas, estamos falando de um modelo de cidade que produz vulnerabilidade em larga escala, ano após ano.
Defender a vida, nesse contexto, não é apenas pedir mais sirenes, mais botes e mais helicópteros quando o pior já aconteceu. É exigir que prefeitos, vereadores, governadores e órgãos de controle cumpram, com rigor, o que já está escrito: mapear risco, impedir ocupação em áreas instáveis, garantir drenagem adequada, proteger vegetação que segura o solo, revisar rotineiramente encostas e margens de rio. E é também reconhecer que a responsabilidade não é só do Estado: cada construção irregular “tolerada” em área de risco, cada troca de voto por promessa de regularização a qualquer custo, cada ocupação que ignora alertas técnicos ajuda a preparar a tragédia seguinte.
Não se trata de culpabilizar quem mora onde sobra, muitas vezes sem alternativa digna de habitação. Mas de romper com o pacto tácito de omissão que atravessa governos de diferentes partidos e gerações: todos sabem onde estão as áreas críticas, todos assistem ao mesmo mapa vermelho se acendendo a cada temporada de chuvas, e ainda assim o investimento em prevenção permanece marginal, episódico, aquém do mínimo razoável.
“Até quando?”, então, precisa deixar de ser um lamento e virar um ponto de ruptura. Até quando vamos aceitar planos diretores que não saem do papel? Até quando toleraremos anistias sucessivas a ocupações em zonas de risco, sem contrapartida de obras estruturais? Até quando defensores da vida serão tratados como “exagerados” por pedir que se cumpra lei, laudo técnico e bom senso?
Em Minas e no Brasil, defender a vida em tempos de clima extremo significa assumir, de forma madura, que não há mais espaço para cidades de papel – aquelas que desmancham à primeira enxurrada. Significa exigir transparência total sobre mapeamentos de risco, cronogramas de obras, prioridades orçamentárias e responsabilidades individuais e institucionais quando um alerta conhecido é ignorado. E significa, sobretudo, reconhecer que a tragédia não começa quando a encosta cede. Ela começa muito antes, quando fechamos os olhos para o óbvio.
Até quando? A única resposta aceitável é: até aqui.