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Até quando?

Editorial da GZM do dia 25 de fevereiro de 2026 sobre as consequências das chuvas em Minas Gerais

Há perguntas que um país não deveria precisar repetir. “Até quando?” é uma delas. Até quando vamos assistir a famílias sendo soterradas Brasil afora, crianças resgatadas na lama, bairros inteiros riscados do mapa para, alguns dias depois, voltarmos ao piloto automático institucional?

Os números do período chuvoso 2025/2026 em Minas Gerais, por exemplo, não são um acidente estatístico: é um diagnóstico. O Estado já registra o período mais letal dos últimos cinco anos, com ao menos 31 mortes confirmadas desde outubro, milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas e municípios inteiros em situação de calamidade. Na Zona da Mata, temporais que despejaram mais de 400 mm em poucas horas deixaram dezenas de mortos em Juiz de Fora e Ubá, quase todos em deslizamentos e desabamentos de áreas de encosta. Não é um evento isolado: é a repetição de um roteiro que o Brasil conhece de cor

É verdade que ninguém controla o volume exato da chuva, nem a combinação precisa de fatores climáticos que transformam um alerta em tragédia. Mas isso não pode ser usado como desculpa para o que é, sim, previsível: se chover muito em encostas ocupadas de forma irregular, em margens de rios adensadas e impermeabilizadas, em cidades que ignoram seu próprio Plano Diretor, pessoas vão morrer.

Há décadas, estudos técnicos alertam que a “forte urbanização e a redução da cobertura vegetal” tornam chuvas intensas devastadoras, ao expor populações a inundações e deslizamentos. A ocupação de encostas e várzeas, somada à impermeabilização indiscriminada, simplesmente “não deixa saída para a água”.

O problema central, portanto, não é a chuva. É o planejamento urbano – ou a falta dele. Quando planos diretores prometem “vigilância permanente das áreas de risco” e mapeamento geotécnico atualizado, mas loteamentos irregulares avançam encosta acima, não estamos diante de uma fatalidade, mas de uma escolha política continuada. Quando o Atlas de Desastres aponta mais de 4 mil mortos e 10,5 milhões de pessoas obrigadas a deixar suas casas por conta das chuvas em pouco mais de três décadas, estamos falando de um modelo de cidade que produz vulnerabilidade em larga escala, ano após ano.

Defender a vida, nesse contexto, não é apenas pedir mais sirenes, mais botes e mais helicópteros quando o pior já aconteceu. É exigir que prefeitos, vereadores, governadores e órgãos de controle cumpram, com rigor, o que já está escrito: mapear risco, impedir ocupação em áreas instáveis, garantir drenagem adequada, proteger vegetação que segura o solo, revisar rotineiramente encostas e margens de rio. E é também reconhecer que a responsabilidade não é só do Estado: cada construção irregular “tolerada” em área de risco, cada troca de voto por promessa de regularização a qualquer custo, cada ocupação que ignora alertas técnicos ajuda a preparar a tragédia seguinte.

Não se trata de culpabilizar quem mora onde sobra, muitas vezes sem alternativa digna de habitação. Mas de romper com o pacto tácito de omissão que atravessa governos de diferentes partidos e gerações: todos sabem onde estão as áreas críticas, todos assistem ao mesmo mapa vermelho se acendendo a cada temporada de chuvas, e ainda assim o investimento em prevenção permanece marginal, episódico, aquém do mínimo razoável.

“Até quando?”, então, precisa deixar de ser um lamento e virar um ponto de ruptura. Até quando vamos aceitar planos diretores que não saem do papel? Até quando toleraremos anistias sucessivas a ocupações em zonas de risco, sem contrapartida de obras estruturais? Até quando defensores da vida serão tratados como “exagerados” por pedir que se cumpra lei, laudo técnico e bom senso?

Em Minas e no Brasil, defender a vida em tempos de clima extremo significa assumir, de forma madura, que não há mais espaço para cidades de papel – aquelas que desmancham à primeira enxurrada. Significa exigir transparência total sobre mapeamentos de risco, cronogramas de obras, prioridades orçamentárias e responsabilidades individuais e institucionais quando um alerta conhecido é ignorado. E significa, sobretudo, reconhecer que a tragédia não começa quando a encosta cede. Ela começa muito antes, quando fechamos os olhos para o óbvio.

Até quando? A única resposta aceitável é: até aqui.

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