A Amazônia, descobri, não é apenas uma floresta que tenta sobreviver ao aquecimento global. É uma casa. Uma casa com portas sempre abertas, mesas fartas e gente que olha nos olhos como quem reconhece um vizinho antigo. Fui a Belém cobrir a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a COP30. Encontrei muito mais que pauta: embarquei numa travessia humana, afetuosa e completamente inesperada.
A conferência teve seus obstáculos. Rotina exaustiva, hospedagem cara e problemas evidentes de estrutura. Duas semanas sem ar-condicionado no estande, inconsistências na energia elétrica, na internet, no fornecimento de comida e na manutenção dos banheiros. Sem falar do incêndio. Há quem pare por aí, no muro das lamentações. A verdade é que a cidade e seu povo impediram que as dificuldades ditassem o tom da experiência. Esta foi a COP mais verdadeira e transformadora que vivi, das três que carrego na bagagem, contando Dubai e Baku.
Parte do time da CNI que trabalhou na COP30; uma equipe diversa e complementar. Na foto, da esquerda para a direita: Davi Bomtempo; Tatiani Leal; Manu Santos; Pollyana Barroso; Silvia Cavichioli; Rafael Monaco; Letícia Carvalho e Erica Villarinho
Parte do time da CNI que trabalhou na COP30; uma equipe diversa e complementar. Na foto, da esquerda para a direita: Davi Bomtempo; Tatiani Leal; Manu Santos; Pollyana Barroso; Silvia Cavichioli; Rafael Monaco; Letícia Carvalho e Erica Villarinho
A essência dessa verdade estava nos sorrisos que nos encontravam em toda esquina, nas ruas, na recepção dos hoteis, nos carros de aplicativo, nos ônibus. Sobretudo, no carinho de três mulheres, Rayssa, Débora e Adriana que, para mim, passaram a representar a alma calorosa de Belém.
As anfitriãs da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA) nos apresentaram a força da cidade, suas histórias e sua gente. A folga geral da COP, um domingo em meio a duas semanas corridas de trabalho intenso, não foi descanso para as três. Foi dia de levar o time de Brasília para sentir Belém no artesanato, no sabor do guaraná gelado, nas cores da pracinha, na descoberta do açaí de verdade, no frescor tímido que a noite oferece e desaparece tão logo me vi numa roda de carimbó, no rodar das saias coloridas. A comida paraense transcende o sabor do peixe frito, do charque e do camarão porque é servida com raiz, ancestralidade e afeto.
Em Belém, o afeto não termina quando a conta chega. Quando achávamos que a noite estava encerrada, aparece Diego, marido de Rayssa. Dois empregos, uma filha de um ano e o despertador marcado para as cinco da manhã não o impediram de oferecer um tour improvisado pelos principais pontos turísticos da capital paraense. Do banco do motorista, mostrou monumentos, contou histórias, explicou que, antes de entrar nas águas e na floresta, o certo é pedir permissão. No Mercado Ver-o-Peso, quase à meia-noite, sentimos o coração comercial da cidade bater, recebendo os pescados e o açaí que alimentariam turistas e moradores no dia seguinte.
Se você passar um tempo em Belém, descobre que o paraense vincula comida a acolhimento. Depois de dias de refeições superfaturadas na Conferência, ganhamos quentinhas das amigas da Fiepa. Ao fotógrafo vegetariano, a bela surpresa de matar saudade de um bom arroz com ovo. Descobre também que os sinos de Belém tocam na cadência da aparelhagem, do brega, na potência das letras de um ritmo que transcendeu as periferias. Duas semanas não foram suficientes.
Talvez, seja por isso que, mesmo nos salões frios das negociações, em que cada palavra precisa caber dentro de colchetes e cada vírgula vira disputa, o espírito de Belém acabou entrando sem pedir licença. Não foi por acaso que vimos avanços históricos, como a definição dos indicadores de adaptação, o financiamento triplicado, a luta brasileira que garantiu o reconhecimento das populações de descendência africana e das comunidades quilombolas, e a insistência teimosa que colocou, pela primeira vez, o fim dos combustíveis fósseis na agenda oficial. Belém, com sua vocação de acolher e a coragem de existir apesar de tudo, parece ter lembrado aos negociadores que a COP não é um quebra-cabeça técnico. É sobre gente.
É a experiência humana que realmente nos conecta à causa climática. Ainda assim, houve quem passasse por Belém como quem olha um mapa de papel. Notoriamente, o chanceler alemão, Friedrich Merz, que se disse feliz de deixar a cidade, emendando uma comparação sem propósito com a beleza do próprio país.
A verdade, chanceler, é que, ao correr para voltar ao “país mais bonito do mundo”, o que fica claro é que o senhor talvez não tenha tido a chance de viver a Belém que nós vivemos. O senhor perdeu a pulsão e a beleza que não cabem em cartão-postal, perdeu a chance de sair daqui diferente de como chegou.
Eu, ao contrário, encerro minha experiência com melancólica saudade do que vivi na COP mais transformadora que presenciei.
Rayssa, Débora, Adriana e a cada belenense que me mostrou que a luta climática é, antes de tudo, uma questão de humanidade: o meu agradecimento mais sincero. Vocês me deram raízes que eu nem sabia que estavam faltando.
