O crescimento das bicicletas elétricas no Brasil é, ao mesmo tempo, uma boa notícia e um alerta. De um lado, o país finalmente começa a adotar uma forma de mobilidade mais leve, eficiente e barata. De outro, faz isso sem planejamento, sem regras claras e sem a infraestrutura necessária para absorver, com segurança, esse novo volume de veículos.
Para quem acompanhou de dentro a evolução da mobilidade elétrica na China ao longo dos últimos 15 anos, há uma sensação incômoda de déjà vu: o Brasil está repetindo, quase passo a passo, o mesmo caminho caótico que a China viveu mais de uma década atrás, antes de organizar o setor.
Explosão de vendas, ausência de estrutura
Dados apresentados recentemente em rede nacional mostram que o mercado de bicicletas elétricas no Brasil simplesmente explodiu. Em 2016, eram cerca de 7,6 mil unidades vendidas. Em 2024, esse número saltou para 284 mil.
Trata-se de um aumento de quase 40 vezes em menos de dez anos.
Essa curva não surpreende quem está em contato com fabricantes chineses e com feiras como a Feira de Cantão, onde clientes brasileiros vêm buscando cada vez mais bicicletas elétricas, kits de adaptação e baterias. Era previsível que esse volume chegaria ao Brasil.
O problema é que, junto com o produto, não vieram na mesma velocidade a educação, a fiscalização e a regulamentação.
Só no Rio de Janeiro, as ocorrências registradas pelo Corpo de Bombeiros envolvendo acidentes e incêndios de baterias em bicicletas e motos elétricas passaram de 102 casos nos nove primeiros meses de 2024 para 215 no mesmo período de 2025. Praticamente o dobro.
Ao mesmo tempo, se multiplicam relatos de:
- atropelamentos em alta velocidade em ciclovias
- colisões entre bicicletas, pedestres e outros veículos
- uso de equipamentos sem qualquer noção de categoria (pedal assistido, acelerado, ciclomotor)
O cenário está longe de ser um “acidente isolado”. Ele é resultado direto de uma adoção em massa sem regras.
A China já passou por isso – e pagou caro
Quando as scooters elétricas começaram a se espalhar pela China, o país também viveu anos de desorganização:
- gente circulando rápido demais em áreas compartilhadas
- colisões frequentes em cruzamentos e ciclovias
- zero educação de trânsito voltada a veículos elétricos leves
- explosão de vendas sem estrutura pública compatível
O governo chinês demorou a reagir. Mas, depois de anos de caos, tomou decisões firmes e relativamente simples que mudaram o jogo.
Entre elas, três foram decisivas.
1. Criação de categorias claras
A China passou a dividir os veículos em três grupos principais:
- bicicleta com pedal assistido
- veículo autopropelido (com aceleração, mas ainda de baixa potência)
- ciclomotor (já com características mais próximas de uma moto leve)
Cada categoria recebeu:
- limite de velocidade rígido
- regras específicas de circulação
- exigências de equipamento de segurança
2. Regras de circulação e fiscalização
Com as categorias definidas, vieram as restrições:
- ciclomotores foram proibidos em ciclovias
- surgiram faixas específicas para bicicletas e veículos elétricos leves
- foram implantadas multas pesadas para excesso de velocidade e uso irregular
- houve intensificação de operações de fiscalização nas ruas
Em paralelo, a exigência de placa e cadastro passou a ser regra, permitindo identificar condutores e responsabilizar infratores.
3. Certificação de baterias e combate a modelos inseguros
Outro ponto crítico na China foram os incêndios de baterias, inclusive dentro de elevadores e prédios residenciais. A resposta foi dura:
- normas rígidas para certificação de baterias
- proibição de modelos de baixa qualidade ou inseguros
- campanhas visuais fortes, com vídeos de acidentes exibidos em metrôs, elevadores e espaços públicos, para educar e assustar a população quanto ao risco de manuseio incorreto
Os resultados não eliminaram completamente os problemas, mas reduziram de forma significativa a frequência e a gravidade dos incidentes.
O Brasil está no mesmo ponto – mas sem organização
O Código de Trânsito Brasileiro já prevê três categorias: bicicleta elétrica, veículo autopropelido e ciclomotor. Porém, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) empurrou a regulamentação dos ciclomotores para o fim deste ano.
Na prática, isso significa que:
- municípios ficam sem diretrizes claras
- estados adotam interpretações diferentes
- falta padrão nacional para fiscalização
Em São Paulo, por exemplo, bicicletas em calçadas são proibidas. No Rio de Janeiro, algumas áreas permitem, outras não. Em diversas cidades do país, ninguém sabe exatamente o que é permitido, o que é proibido e como fiscalizar.
Enquanto isso, o fluxo de bicicletas elétricas, kits de adaptação e baterias importados da China — muitas vezes sem certificação adequada — não para de crescer.
É a receita perfeita para repetir os erros que a China já cometeu e corrigiu.
O problema não é a bicicleta elétrica
É importante deixar claro: o problema não é a bicicleta elétrica em si. Pelo contrário, trata se de uma das melhores soluções de mobilidade urbana para curtas e médias distâncias.
Na China, na Europa e nos Estados Unidos, a bicicleta elétrica já se consolidou como um elemento-chave da transição para cidades mais sustentáveis. Ela reduz congestionamentos, diminui emissões e amplia o acesso a deslocamentos baratos.
O que transforma uma solução em problema é a combinação de:
- ausência de regras
- falta de fiscalização
- inexistência de educação específica para o novo modal
- produtos inseguros circulando livremente
Um veículo leve e silencioso, sem controle algum, pode virar uma arma em espaços urbanos densos.
O que a experiência chinesa ensina ao Brasil
O caminho para reduzir acidentes, evitar tragédias e, ao mesmo tempo, aproveitar o potencial da bicicleta elétrica como solução de mobilidade passa, necessariamente, por um conjunto de medidas que a China já testou:
- Definir e aplicar categorias claras com base em velocidade e potência.
- Estabelecer vias e espaços específicos para cada tipo de veículo, evitando misturar ciclomotores com ciclistas e pedestres.
- Tornar obrigatórios o cadastro e a placa para veículos que passam de determinada faixa de velocidade.
- Exigir certificação de baterias e equipamentos, coibindo importação e venda de produtos inseguros.
- Investir em campanhas educativas massivas, utilizando escolas, mídia e espaços públicos para explicar regras, riscos e boas práticas.
- Criar infraestrutura adequada, incluindo ciclovias bem desenhadas, pontos de estacionamento, recarga e integração com outros modais.
A diferença é que o Brasil tem a vantagem de poder aprender com o erro dos outros, em vez de repetir o mesmo roteiro até o fim.
Ainda há tempo para escolher o caminho certo
A bicicleta elétrica já domina o mercado mundial e não vai desaparecer. No Brasil, o volume deve continuar crescendo nos próximos anos, independentemente de qualquer debate ideológico. Trata se de uma mudança estrutural no jeito de se deslocar nas cidades.
A verdadeira escolha que o país precisa fazer não é entre ter ou não bicicletas elétricas, mas entre:
- integrá-las de maneira organizada, segura e regulada
ou - deixar que o mercado avance sozinho, acumulando acidentes, conflitos e tragédias evitáveis
A China mostrou que é possível organizar o caos, desde que haja decisões firmes, normas claras e fiscalização efetiva. O Brasil está, hoje, exatamente no ponto em que a China esteve anos atrás, mas tem a vantagem de já conhecer o final da história.
A questão é se vai usar essa informação a favor da segurança da população ou se vai esperar que os números de acidentes e incêndios cresçam ainda mais para, só então, reagir.
Acompanhe mais detalhes neste vídeo exclusivo feito pelo correspondente Theo Santana direto da China: