O Brasil pode estar prestes a se tornar um protagonista no mercado global de Elementos Terras Raras (ETRs), um grupo de 17 minerais considerados estratégicos para a economia mundial.
Esses minerais são essenciais para o funcionamento de tecnologias modernas e estão presentes em uma ampla gama de indústrias, utilizados na fabricação de ímãs superpotentes para turbinas eólicas e motores de veículos elétricos, em telas de smartphones e televisores, em sistemas de som, em catalisadores automotivos, em equipamentos médicos de imagem, além de serem fundamentais para aplicações militares e aeroespaciais, como radares e sistemas de orientação.
Apesar do nome, esses elementos não são exatamente raros, mas sua extração e processamento são complexos e ambientalmente desafiadores, o que os torna estratégicos para países que buscam autonomia tecnológica e energética.
Por tudo isso a descoberta anunciada pela Cabo Verde Mineração de novas áreas com alto potencial de mineralização de ETRs no sul de Minas Gerais e na divisa com São Paulo é algo que pode ser comemorado pela indústria nacional.
As pesquisas iniciais, inclusive, apontam para uma reserva que pode superar 500 milhões de toneladas de argilas iônicas, uma tipologia valorizada por seu baixo impacto ambiental e alta eficiência de extração. De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, o país já detém a segunda maior reserva conhecida de Terras Raras no mundo, atrás apenas da China, que atualmente domina a produção e o refino desses minerais.
A dependência global da China, que controla cerca de 90% da produção, tem gerado preocupação geopolítica e impulsionado a busca por novas fontes de fornecimento. Nesse contexto, a descoberta da Cabo Verde Mineração pode fortalecer a posição do Brasil e diversificar a oferta global.
“A confirmação dessas reservas permitirá ao Brasil fortalecer sua relevância geopolítica e econômica no mercado global de Terras Raras, reduzindo a dependência externa e impulsionando diretamente a transição energética e tecnológica”, afirma Túlio Rivadávia Amaral, CEO da Cabo Verde Mineração.
Já Antonio Henriques Mendes, CFO da empresa, destaca que a confirmação de reservas dessa magnitude é estratégica “não apenas para o Brasil, mas para o mundo”.
Para garantir o rigor técnico e a credibilidade do projeto, a Cabo Verde Mineração informou que estabeleceu uma parceria com o CIT SENAI e o CIT SENAI ITR para aprimorar os métodos metalúrgicos de extração.
Resultados preliminares de testes de lixiviação iônica realizados pela empresa e informados à reportagem mostraram uma eficiência acima de 80%, o que indica um potencial promissor para a produção de óxidos individuais e ímãs permanentes.
A empresa, no entanto, informou que continuará investindo em pesquisas e buscará certificações internacionais como JORC e equivalentes para assegurar a transparência dos dados.

Para saber mais detalhes sobre o projeto, a GZM conversou com Túlio Rivadávia, CEO da Cabo Verde Mineração. Confira:
GZM: A China detém o domínio global na produção e refino de Terras Raras. Quais os desafios e as oportunidades para o Brasil entrar nesse mercado como um player competitivo, considerando a maturidade da cadeia produtiva chinesa?
Túlio: Antes de tudo, é fundamental reconhecer o potencial do Brasil. Quando falamos em potencial, não é apenas sobre a abundância geológica, mas sobre a capacidade de transformar esse patrimônio em riqueza efetiva para o país.
E isso só será possível com investimento consistente em pesquisa mineral, para que nossas reservas sejam devidamente mapeadas, certificadas e se tornem recursos estratégicos reconhecidos internacionalmente. Só assim o Brasil poderá se posicionar de fato ao lado de países como a própria China, que construiu sua liderança mundial em terras raras tanto pela dimensão das reservas quanto pelo domínio da cadeia produtiva.
Hoje, o Brasil ainda engatinha na questão tecnológica. Temos apenas uma operação que chega ao carbonato misto, mas contamos também com centros de excelência como o CIT SENAI-ITR, que já desenvolve tecnologia aplicada à produção de ímãs permanentes.
O grande desafio está justamente nesse “meio do caminho”: a separação dos elementos, o refino do carbonato e a obtenção de ligas especiais e outros produtos finais, como os de aplicações em baterias, em alta tecnologia e, claro, na produção de ímãs.
Quando olhamos para a China, vemos que a força deles não está apenas na mineração, mas principalmente no domínio de toda a cadeia produtiva, do recurso básico ao produto de altíssimo valor agregado. Esse deve ser o norte do Brasil. Já temos algumas iniciativas recentes, como investimentos do BNDES em parceria com a FINEP e outros editais em andamento, mas ainda é muito pouco diante do tamanho da necessidade.
Mais do que perceber o valor, precisamos criar valor. Isso significa deixar de ser apenas exportadores de commodities e avançar para um modelo em que aplicamos essas matérias-primas dentro do país, gerando inovação, tecnologia e desenvolvimento econômico. Assim, o Brasil pode ocupar uma posição estratégica e competitiva no cenário global das terras raras, não apenas como detentor de grandes reservas, mas como protagonista em toda a cadeia de valor.
GZM: O relatório menciona o potencial de 500 milhões de toneladas de argilas iônicas. Qual é o cronograma para a certificação dessas reservas e como a empresa pretende obter a credibilidade necessária junto ao mercado internacional?
Túlio: Nós estamos trabalhando continuamente na pesquisa. O nosso projeto é muito extenso territorialmente, compreende 57 direitos minerários, somando aproximadamente 91 mil hectares. O foco inicial foi mapear todas essas áreas, por meio de amostras superficiais, cortes de barranco em estradas e, posteriormente, furos exploratórios de trado. Com isso, conseguimos identificar as áreas de maior potencial, aquelas com teores mais anômalos e, a partir daí avançar para uma segunda etapa de detalhamento.
Dessa primeira triagem, elegemos quatro áreas-alvo. Em uma delas, já iniciamos a campanha de detalhamento, que é o passo necessário para avançarmos até a certificação da reserva. Desde o início da pesquisa, trabalhamos com boas práticas internacionais, seguindo as guidelines globais, tanto em termos de parâmetros de amostragem quanto na organização de todo o banco de dados em padrão internacional.
Também realizamos duplicatas em laboratórios e contamos com instituições certificadas internacionalmente, como a SGS Geosol. Ou seja, toda a nossa pesquisa já é conduzida pensando na certificação.
O próximo passo, agora, é justamente o detalhamento, fechando a malha de furos para entender o tamanho e a continuidade da zona intemperizada portadora das ETRs, ou seja, das argilas iônicas. Como estamos falando de depósitos em ppm, precisamos desse volume bem definido para justificar o investimento em uma UTM.
Nessa etapa de detalhamento, já vamos trabalhar em conjunto com certificadores internacionais, visando atender padrões como o JORC e o NI 43-101. É importante destacar que a pesquisa é coordenada por profissionais reconhecidos internacionalmente como a Maria Schumacher que é especialista em certificação de projetos e o geólogo Oscar Yokoi, membro do Australian Institute e reconhecido como Qualified Person (QP), o que garante credibilidade internacional ao processo.
Assim, a nossa estratégia é clara: primeiro certificar as reservas em potencial e, em seguida, evoluir para a definição dos recursos medidos e indicados, que darão base sólida para o desenvolvimento do projeto e para a credibilidade junto ao mercado internacional.
GZM: Além da produção de óxidos individuais, o projeto também mira a fabricação de ímãs permanentes. Qual é a importância dessa verticalização para o valor final do produto e para o posicionamento do Brasil na cadeia de valor tecnológica?
Túlio: O ponto central é a necessidade de criar valor. Quando falamos em produção de ímãs permanentes, não se trata apenas de mais um elo da cadeia, mas de consolidar um supply chain nacional, garantindo que as fábricas de ímãs permanentes no Brasil tenham acesso a matérias-primas de qualidade, seguras e produzidas localmente. Isso dá solidez à indústria brasileira e reduz a dependência externa em um segmento altamente estratégico.
A verticalização é fundamental porque amplia o valor agregado do recurso. Em vez de exportarmos apenas o óxido ou o carbonato misto, podemos avançar para produtos finais de altíssima relevância tecnológica, como ímãs permanentes, que são essenciais em turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos médicos e sistemas de defesa.
Ou seja, quanto mais avançamos na cadeia produtiva, maior é o impacto sobre a economia nacional: atraímos investimentos, fortalecemos a indústria local, geramos empregos de alta qualificação e colocamos o Brasil em uma posição diferenciada no cenário global. A verticalização é, portanto, um motor essencial não apenas para o setor mineral, mas para a economia brasileira como um todo.
Para explorar os requisitos e detalhes técnicos do projeto, a GZM também conversou com Maria do Carmo Schumacher, especialista em certificação de projetos. Confira:
GZM: O projeto se concentra em argilas iônicas. Quais são as vantagens ambientais e econômicas dessa tipologia de depósito em comparação com outras, como as de rocha dura, e como isso se alinha com as práticas de mineração moderna?
Schumacher: Os depósitos de argilas iônicas são formados a partir do intemperismo de rochas sãs, fonte de minerais de terras raras. O intemperismo causa a decomposição dessas rochas, liberando os íons de terras raras. Nesse tipo de depósito, os óxidos de terras raras formam ligações iônicas com os minerais de argila, como a caulinita e a montmorilonita.
Esses depósitos são vantajosos técnica e economicamente em relação aos de rochas duras, por diversos aspectos. Primeiramente, pela facilidade e pelo menor custo de extração por lixiviação, em função das ligações químicas fracas entre os ETRs e as argilas.
Em segundo lugar, pelo custo de lavra, já que se tratam de rochas intemperizadas, que não necessitam de detonações, e de depósitos superficiais, com nenhuma ou pequena cobertura (baixa relação estéril/minério). E, por último, pelo enriquecimento natural dos ETRs pelo intemperismo, que normalmente resulta em concentrações maiores do que em outros tipos de depósitos.
GZM: O estudo geológico identificou corredores hidrotermais que enriqueceram o entorno do complexo de Poços de Caldas. Qual a relevância dessa descoberta para o potencial total da reserva e para futuras prospecções na região?
Schumacher: A descoberta da presença de terras raras em concentrações relevantes na borda externa da Caldeira Vulcânica de Poços de Caldas representa uma nova fronteira metalogenética para tais depósitos. Isso amplia significativamente as possíveis áreas de prospecção mineral para ETRs, o que naturalmente também aumenta de forma expressiva o potencial de reservas regionais.
GZM: A parceria com o CIT SENAI é um ponto central no desenvolvimento tecnológico. Qual o objetivo principal dos testes de lixiviação iônica e como essa colaboração pode acelerar a viabilidade técnica e econômica do projeto?
Schumacher: Os testes de lixiviação são primordiais para a viabilidade técnico-econômica dos projetos de terras raras. Eles indicam a quantidade de ETRs que efetivamente pode ser recuperada a partir dos minérios.
Também apontam o tipo de lixiviação — produtos químicos, quantidades, tempo e se haverá necessidade de uso de temperatura e pressão além das condições naturais. Todos esses critérios influenciam diretamente a viabilidade técnica e, especialmente, a econômica do projeto.
A otimização do fluxo de lixiviação, adequada a cada jazida mineral, é, portanto, fator preponderante para a viabilidade do projeto. Apesar de os primeiros testes de lixiviação realizados nas amostras do projeto terem apresentado resultados muito bons, sua otimização, levando em conta as características próprias dos depósitos e conduzida por centros de pesquisa de excelência em terras raras, garantirá o melhor aproveitamento das reservas.
