O caso do Banco Master reacendeu um debate que vai além do porte da instituição. Embora não esteja entre os maiores bancos do país, o episódio gerou forte repercussão no mercado. Em evento realizado no início de fevereiro de 2026, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a reação foi desproporcional ao tamanho do banco. A provocação sintetizou o incômodo: “A pergunta dos meus pares é: por que um time da terceira divisão está causando esse tipo de comoção?” A resposta parte de um ponto essencial: bancos são estruturalmente diferentes das demais empresas.
A primeira diferença está no tamanho dos balanços. Mesmo bancos considerados pequenos operam com dezenas de bilhões de reais em ativos. Em 2024, só o Master possuía cerca de R$ 63 bilhões (não considerados o Will e o banco de investimento). A Vale, uma das maiores empresas do país, possuía aproximadamente R$ 500 bilhões em ativos. Já o Itaú, utilizado aqui apenas como referência, registrava aproximadamente R$ 3 trilhões em ativos, sendo cerca de seis vezes maior que a Vale e quase 48 vezes maior que o Master. A hierarquia, portanto, muda conforme o setor: pequeno dentro do sistema bancário pode não gerar uma crise sistêmica, mas está longe de ser irrelevante quando comparado a grandes empresas de outros segmentos.
A segunda diferença está na composição do balanço. Empresas como a Vale concentram ativos em bens físicos e possuem dívidas com prazos definidos, que não podem ser exigidas de forma imediata. Já os bancos financiam seus ativos com passivos formados por milhares ou milhões de depositantes, cujos recursos, geralmente resgatáveis a qualquer momento, criam uma fragilidade estrutural. No caso do Banco Master, entretanto, parte relevante das fontes de recursos estava vinculada a instrumentos com cláusulas de não antecipação, limitando o resgate imediato. Ainda assim, a instituição enfrentava dificuldades para honrar os pagamentos no vencimento desses passivos, dado o baixo nível de caixa.
A terceira diferença é a alavancagem. Utilizando novamente o Itaú como exemplo, seus cerca de R$ 3 trilhões em ativos eram sustentados por aproximadamente R$ 210 bilhões em patrimônio líquido, o que implicava alavancagem próxima de 15 vezes. Em termos práticos, para cada R$ 15 emprestados a clientes, cerca de R$ 14 vinham de depositantes e credores, e apenas R$ 1 correspondia a capital próprio. Já a Vale, com aproximadamente R$ 500 bilhões em ativos e R$ 214 bilhões em patrimônio líquido, apresentava alavancagem em torno de 2,3 vezes, financiando parcela muito maior de suas operações com recursos próprios. No caso do Banco Master, a alavancagem era de aproximadamente 13,3 vezes, patamar próximo ao observado em grandes bancos, como o Itaú. A sensibilidade ao risco no sistema bancário, portanto, é significativamente maior do que em outros setores.
No caso do Master, soma-se a isso uma série de irregularidades, e a comoção foi ampliada pelos laços de influência atribuídos ao controlador. Ainda assim, a reação não decorre apenas desses fatores, mas também da própria natureza da atividade bancária. A escala dos balanços, a estrutura típica de depósitos e a elevada alavancagem tornam o sistema bancário mais sensível a riscos, de modo que mesmo instituições pequenas podem gerar efeitos devastadores.
Embora parte relevante dos passivos estivesse sujeita a restrições de resgate, a fragilidade permaneceu, diante de níveis de caixa praticamente inexistentes. O caso mostra que, no sistema bancário, mesmo instituições consideradas de “terceira divisão” podem gerar impactos relevantes, inclusive consumir parcela significativa dos recursos do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e reacender debates que, em geral, só avançam após as crises.