Quando pensamos nos grandes temas da humanidade, seja a paz, a justiça ou o clima, é natural que esperemos dos diplomatas e estadistas, antes de tudo, competência. Por isso, incomoda – e muito – a declaração do chanceler alemão de que a delegação ficou “feliz em deixar aquele lugar”, referindo-se à Amazônia durante a COP30.
O papel de um diplomata é ser, precisamente, um “artista” do entendimento, da convivência e do respeito mútuo. Um diplomata que não sabe fazer diplomacia é como um pintor que não sabe pintar, um cozinheiro que não sabe cozinhar, ou um burro que não sabe zurrar. Falta-lhe a essência, e mais, falta-lhe respeito ao público, ao tema e à própria missão.
Seria tolerável discordar das delícias do calor amazônico, da chuva repentina, do céu carregado ou da exuberância sonora da floresta. Todos temos direito a ter nossas opiniões pessoais – algumas inclusive nos fazem humanos, tropeçamos, erramos. O problema aqui não foi uma preferência pessoal, mas a expressão pública de desprezo, disfarçada de sinceridade diplomática – exatamente o tipo de gesto que não se espera de quem investe a própria função na busca de diálogo, cooperação e construção de pontes.
Há, claro, uma opção ainda pior: o confronto e a agressão explícita. Felizmente, nesse caso, ficamos “apenas” com a incompetência colossal. Oxalá brasileiros e alemães se incomodem, pois a pior coisa para a humanidade é que, em lugares e momentos de grande seriedade, como uma conferência global sobre o clima, tenhamos um incompetente – algo como um “burro que não sabe zurrar” – conduzindo conversas fundamentais ao nosso futuro coletivo. A incompetência é tóxica, rebaixa a relevância do debate e pode ofuscar o real objetivo: discutir o futuro da Terra e dos seus habitantes.
Na contralinha deste lamentável episódio, cabe celebrar e valorizar “aquele lugar”: a Amazônia, palco da COP30 e uma das regiões mais biologicamente indispensáveis do planeta. Belém, com seus picos de calor estonteantes, chuvas torrenciais e todos os caprichos climáticos, nos lembra que tudo ali está em seu devido lugar, nada falta e nada sobra. É complexo porque precisa ser: só um burro de verdade não percebe que a exuberância, o ciclo, o caos aparente e a vitalidade são essenciais para que o planeta exista e funcione.
Queria saber muitas línguas para explicar ao chanceler alemão – e a quem compartilha desse sentir equivocado – a beleza de cada detalhe amazônico. Se a COP foi realizada ali é porque não se discute clima sem dialogar com quem vive a floresta todos os dias, com quem entende seus ritmos, com quem compreende que cada parte daquela “desordem” é fundamento do equilíbrio terrestre. Um diplomata que não aprecia essa realidade não é só incompetente, é ignaro do papel que deveria exercer.
Tal incompetência – e a falta de empatia e cultura que a acompanha – nos deve incomodar. Mas, por justiça, deixemos os verdadeiros burros fora desta conversa. Eles sabem muito bem zurrar e encontram seu valor no mundo de modo exemplar. Viva os burros! Abaixo os incompetentes!
E, aos que possam ler este texto em qualquer parte do mundo, lembrem-se que a Amazônia não é para ser comparada, mas compreendida. Não se trata apenas de gostar ou não gostar, mas de reconhecer sua importância absoluta. Que a COP30 e suas discussões não sejam jamais ofuscadas por trapalhadas diplomáticas, por incultos ou incompetentes, tão danosos quanto a ignorância, pois só a incompetência pode, de fato, bloquear os caminhos para um futuro melhor.
Que todos, especialmente os brasileiros e os alemães, estejam atentos e incômodos frente à incompetência. Que sejam sempre burros de verdade – aqueles que zurram, vivem e cumprem sua função com dignidade – e nunca “trapalhões” no comando do que é sério.