A captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos abriu uma série de discussões sobre os impactos econômicos para os parceiros estratégicos da Venezuela, em especial a China, que ao longo dos últimos anos financiou projetos de infraestrutura e absorveu grande parte do petróleo venezuelano exportado.
A leitura do mercado internacional, porém, aponta que o risco para a atividade econômica chinesa é limitado — ainda que o episódio tenha implicações relevantes em termos de influência regional e retorno financeiro.
A China está entre os maiores consumidores de energia do mundo e depende do exterior para cerca de 72% do petróleo que utiliza — percentual que deve se manter em torno de 70% até 2030, segundo projeções da CNPC. À primeira vista, isso sugere fragilidade. Mas a participação venezuelana nessa conta é modesta: mesmo comprando aproximadamente 76% dos 800 mil barris diários exportados pela Venezuela, esse volume representa cerca de 4% a 5% das importações totais de petróleo da China — um nível facilmente substituível por outros fornecedores.
Além disso, a China dispõe de múltiplas alternativas de fornecimento, incluindo Rússia, Irã, Arábia Saudita e até o próprio Brasil. Em termos práticos, a substituição logística é possível sem ruptura significativa.
O petróleo venezuelano é relevante, mas não sistêmico para a China.
Da dependência fóssil à eletrificação
Outro fator reduz a vulnerabilidade estrutural chinesa: a rápida transição energética no setor de transportes.
A China lidera globalmente a produção e o consumo de veículos elétricos e híbridos plug-in há dez anos consecutivos. Em 2024, o país produziu 12,4 milhões de veículos elétricos — mais de 70% da produção mundial — e atingiu um marco histórico: metade de todos os carros novos vendidos no país já são elétricos ou híbridos. A política industrial chinesa incentiva a eletrificação não apenas por razões ambientais, mas principalmente por segurança energética.
Barris de petróleo estão sendo gradualmente substituídos por kilowatts
Isso significa que:
- a demanda futura por petróleo no transporte tende a perder tração
- a dependência de rotas e produtores específicos diminui
- a China amplia sua autonomia estratégica no médio prazo
Logo, choques regionais como o venezuelano encontram uma economia mais resiliente do que no passado.
Impactos financeiros e geopolíticos
Se o risco energético é limitado, os impactos financeiros e estratégicos são mais relevantes.
Desde 2007, a China concedeu mais de US$ 60 bilhões em empréstimos à Venezuela — o equivalente a 52% de todo o financiamento chinês destinado à América Latina no período. Desse total, estima-se que entre US$ 19 e US$ 23 bilhões ainda estejam pendentes de pagamento, com muitos contratos atrelados ao petróleo como garantia. A incerteza política amplia o risco de inadimplência ou renegociação forçada.
Ao mesmo tempo, a Venezuela fazia parte de um grupo de países latino-americanos alinhados economicamente à China e não aos EUA. A eventual mudança de alinhamento geopolítico reduz a profundidade da presença chinesa na região.
Assim, os principais pontos de atenção para Pequim são:
- recuperação do capital emprestado
- preservação de influência estratégica na América Latina
- continuidade operacional dos contratos de energia
Mais do que um choque de oferta, trata-se de gestão de risco político e financeiro.
Brasil ganha peso
Hoje, o Brasil exporta cerca de US$ 116 bilhões para a China e importa aproximadamente US$ 72 bilhões, gerando um superávit de US$ 44 bilhões na balança comercial bilateral. O Brasil é um dos poucos países do mundo que mantém superávit expressivo com a China — sustentado por commodities como minério de ferro, soja e proteína animal.
Nos últimos 20 anos, as exportações brasileiras para a China cresceram em média 15% ao ano, consolidando o país asiático como nosso principal parceiro comercial.
Além do volume, há um fator intangível decisivo: confiabilidade. Os chineses valorizam profundamente previsibilidade, cumprimento de contratos e entrega consistente. O Brasil construiu essa reputação.
Em um ambiente global mais volátil, parceiros estáveis tendem a ganhar relevância estratégica.
Padrão chinês de gestão de risco
O caso venezuelano reforça um traço recorrente do modelo chinês de negócios internacionais:
- pragmatismo
- horizonte de longo prazo
- negociação contínua
- baixa retórica pública
- renegociação em vez de ruptura
Diferentemente de atores ocidentais, a China evita respostas abruptas. Crise, para Pequim, é antes um elemento de recalibração do que de retirada.
O que isso significa para o empresário brasileiro
Para quem opera no comércio Brasil-China, o caso venezuelano oferece alguns ensinamentos práticos.
A renegociação é sempre preferida à ruptura. Mesmo em situações de inadimplência, a tendência é buscar novos termos, prazos estendidos ou garantias alternativas — não o encerramento da relação.
A visão de longo prazo prevalece. Uma perda pontual é aceitável se a relação estratégica de longo prazo for preservada. Isso explica por que a China continua investindo em países que, no curto prazo, representam risco elevado.
Para o empresário brasileiro, entender essa lógica é fundamental. A negociação com parceiros chineses não segue o ritmo ocidental de decisões rápidas e contratos fechados em semanas. Segue um ritmo próprio, onde a construção de confiança — o famoso guanxi — é pré-requisito para qualquer avanço comercial.
Brasil como porto seguro
Em um ambiente global mais volátil, parceiros estáveis ganham relevância estratégica. E o Brasil está bem posicionado nesse contexto.
Somos o maior produtor de soja, café, suco de laranja e proteína animal. Detemos 90% da produção mundial de nióbio. Temos uma base industrial diversificada e, apesar dos desafios, mantemos instituições relativamente estáveis.
Para a China, que busca reduzir dependência de fornecedores em regiões geopoliticamente instáveis, o Brasil oferece exatamente o que ela procura: volume, qualidade e previsibilidade.
A questão é: estamos aproveitando essa posição? Ou estamos deixando a janela passar enquanto discutimos internamente?
Conclusão
A captura de Maduro não é apenas notícia de política internacional. É um lembrete de que eventos geopolíticos têm consequências diretas sobre cadeias de suprimentos, decisões de investimento e estratégias comerciais.
A China, com sua postura pragmática e visão de longo prazo, oferece um modelo de como navegar esse tipo de turbulência. Não com reações emocionais ou rupturas abruptas, mas com diversificação, paciência e foco em relacionamentos duradouros.
Para o empresário brasileiro, a lição é dupla. Primeiro, não colocar todos os ovos na mesma cesta — seja ela os Estados Unidos, a China ou qualquer outro mercado. Segundo, entender que, no jogo do comércio internacional, ganha quem tem visão de longo prazo, capacidade de adaptação e reputação construída ao longo do tempo.
A crise venezuelana vai passar. As oportunidades para quem não souber ler o momento, não.
Sobre o autor
Theo Paul Santana é consultor em negócios internacionais, especialista em mercado chinês e fundador da Destino China, iniciativa que conecta empresários brasileiros a oportunidades reais no maior centro de produção do mundo.
Residente na China há mais de 15 anos, atua como ponte entre fabricantes locais e empresas brasileiras que desejam importar ou exportar com segurança e estratégia. Reconhecido como referência em negociações com indústrias chinesas, já integrou comitivas empresariais organizadas pelo Governo Brasileiro e pela FIESP, contribuindo como especialista local em relações comerciais e parcerias estratégicas.
Theo possui MBA em Gestão de Negócios pela Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim, Beijing Institute of Technology, e é doutorando em Comércio Internacional pela Shanghai Jiao Tong University, uma das universidades mais prestigiadas da Ásia.