A segurança alimentar e nutricional foi o centro das atenções no painel realizado em 14 de novembro na AgriZone — a Casa da Agricultura Sustentável da Embrapa na COP30. O evento marcou o lançamento da versão em inglês do livro “Segurança Alimentar e Nutricional: O Papel da Ciência Brasileira no Combate à Fome”, organizado pela pesquisadora da Embrapa Soja, Mariangela Hungria.
A publicação, que pode ser baixada gratuitamente neste link, reúne 18 capítulos assinados por 41 autores de 23 instituições, e oferece um panorama abrangente sobre os desafios e soluções para a fome no Brasil, com base em evidências científicas e experiências práticas.
Reconhecimento à trajetória científica
Na abertura do painel, a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, homenageou Mariangela Hungria com a medalha Doutora Johanna Döbereiner — honraria concedida a cientistas de destaque nacional e internacional. Silvia destacou a relevância da trajetória de Hungria, que recentemente recebeu o Prêmio Mundial da Alimentação (World Food Prize), e celebrou seus 40 anos de dedicação à pesquisa.
“Como mulher, mãe e pesquisadora, você inspira a Embrapa e eleva o patamar da ciência brasileira”, afirmou Silvia.
Emocionada, Mariangela agradeceu o reconhecimento e reforçou que o prêmio é fruto de um esforço coletivo entre pesquisadores e agricultores. Ela também defendeu maior visibilidade para a ciência nacional e destacou a importância do livro como ferramenta de conscientização e ação.
Diagnóstico e soluções para um paradoxo brasileiro
Apesar de o Brasil ter capacidade agrícola para alimentar até 1 bilhão de pessoas, milhões ainda enfrentam a fome. “Saíamos às ruas e víamos pessoas passando fome”, relembrou Hungria, explicando a motivação para organizar a obra.
O livro aborda temas como ESG, saúde única, meio ambiente, políticas públicas e o papel das mulheres na cadeia alimentar — das hortas comunitárias às merendeiras escolares. Um dos pontos centrais é a defesa da complementaridade entre agricultura familiar e agronegócio, ambos essenciais para a segurança alimentar e a economia do país.
Hungria também alertou para o impacto das mudanças climáticas na produção de alimentos e defendeu investimentos contínuos em ciência e inovação. “Se não reduzirmos emissões e não criarmos plantas mais tolerantes, podemos entrar num cenário de insegurança alimentar global”, afirmou.
Comunicação como chave para o futuro
Para a pesquisadora, comunicar ciência de forma clara e confiável é fundamental. “Precisamos aprender como comunicar ciência de forma que a sociedade confie em dados e não em fake news”, disse. Segundo ela, nenhuma das soluções propostas terá impacto real sem o apoio e compreensão da população.
Cooperação entre setores é essencial
O painel contou ainda com a participação de Cláudia Retti de Calais, da Fundação Bunge, que destacou o papel do setor privado no combate à fome, e de João Meirelles Filho e Flora Bittencourt, do Instituto Peabiru, que atua há mais de 25 anos na Amazônia fortalecendo sistemas agroalimentares comunitários.
Todos os participantes reforçaram a necessidade de integração entre governo, setor privado e terceiro setor. A mensagem foi clara: segurança alimentar só será alcançada com cooperação, ciência, inovação e governança pública.