Nascido de um sonho e de uma necessidade muito concreta do empreendedor brasileiro, o Clube de Permutas transformou uma prática ancestral – o escambo – em infraestrutura moderna de negócios para pequenas e médias empresas. Fundado em 2012, em Belo Horizonte, por Leonardo Bortoletto, o negócio cresceu de rede local a maior plataforma de permuta multilateral da América Latina, com operações em 20 cidades de 5 países, mais de 2.000 associados e mais de R$ 500 milhões em transações acumuladas.
A proposta é simples na superfície e sofisticada na operação: empresas associadas trocam produtos e serviços entre si de forma multilateral, usando créditos de permuta em vez de dinheiro, em um sistema que funciona como uma espécie de internet banking próprio.
Uma clínica odontológica pode vender para um restaurante, que vende para uma gráfica, que contrata uma agência de marketing, e todos se acertam em criptomoeda interna de créditos e débitos, sem depender da coincidência de interesses típica do escambo tradicional. A lógica atende a dores clássicas das PMEs brasileiras: falta de caixa, ociosidade de capacidade, dificuldade para conquistar novos clientes e pouca estrutura de gestão financeira.
A trajetória do Clube de Permutas foi marcada por três viradas estratégicas. A primeira foi a consolidação tecnológica da plataforma, que passou a registrar e auditar todas as transações, com extratos, limites de crédito, regras claras e certificação da International Reciprocal Trade Association (IRTA), o que deu transparência e legitimidade ao modelo.
A segunda foi a expansão via franquias para outras cidades e estados, como Montes Claros, Natal, Campinas, Petrópolis e Foz do Iguaçu, comprovando que o modelo não era apenas regional, mas escalável em diferentes mercados e setores. A terceira foi a profissionalização da gestão, com processos, cultura e governança bem definidos, consolidando o clube como plataforma estratégica de geração de valor, e não apenas um canal informal de trocas.

Esse movimento se apoia em uma cultura explicitamente baseada em ética, transparência, colaboração, responsabilidade e foco em resultado real para os membros da rede, pilares considerados essenciais para um sistema cujo ativo central é a confiança. Todas as ofertas devem respeitar os mesmos preços praticados em dinheiro, as transações são registradas em sistema auditado e as franquias seguem critérios rígidos de seleção e acompanhamento, numa tentativa de reduzir comportamentos oportunistas em um mercado baseado em crédito recíproco.
Eventos de relacionamento – como encontros de networking e premiações para empresas que atingem marcos de R$ 500 mil ou R$ 1 milhão em permutas – reforçam o senso de comunidade e transformam a rede em ativo de negócios e não apenas em ferramenta transacional.
O avanço do Clube dialoga diretamente com a macroeconomia brasileira das últimas décadas, marcada por hiperinflação, ciclos de crédito farto e depois restrito, juros elevados e volatilidade cambial – um ambiente em que a ideia de “se financiar com o próprio estoque e capacidade instalada” sempre seduziu o empresário. Ao conectar a lógica do barter corporativo global com a criatividade e resiliência típicas do empreendedor brasileiro, a empresa surfa a expansão da economia colaborativa e de plataformas B2B que monetizam ativos ociosos, reduzem descontos agressivos e preservam caixa.
Para Bortoletto, um dos maiores desafios ainda é educar o mercado, que muitas vezes confunde permuta multilateral com trocas simples, enquanto as oportunidades crescem em momentos de incerteza e aperto de liquidez.
Na prática, o modelo promete quatro efeitos centrais para a produtividade das empresas: conservação de caixa, ao direcionar despesas não essenciais para créditos de permuta; escoamento de estoque e redução de ociosidade, ao vender produtos e serviços que ficariam parados; acesso a novos clientes, via exposição qualificada dentro da rede; e fortalecimento de relacionamentos empresariais, impulsionados pela curadoria e pelos eventos promovidos pelas franquias.
O fundador resume sua principal contribuição como o reposicionamento do Clube de Permutas em “ecossistema de negócios”, com maior alcance digital, expansão franqueada estruturada e oferta de conteúdo e educação empreendedora.
O futuro projetado pela empresa combina mais tecnologia e mais colaboração. A plataforma investe em ferramentas digitais e em inteligência artificial para facilitar a busca de ofertas, a gestão de créditos e a geração de relatórios, além de sugerir conexões e oportunidades de negócios com base em padrões de consumo e oferta entre associados.
A expectativa é de digitalização completa das negociações, maior transparência via dados, integração entre sistemas de diferentes unidades e países, e maior densidade da economia colaborativa, à medida que empresários buscam redes confiáveis para reduzir custos e ampliar oportunidades.
Ao olhar para trás, o Clube de Permutas sintetiza uma tese simples: há ganhos de produtividade escondidos em ativos e capacidades já existentes nas empresas, mas subutilizados por falta de mecanismos de coordenação. Ao olhar para frente, Bortoletto declara querer deixar como legado a prova de que é possível construir grandes negócios com simplicidade, ética e colaboração genuína, numa economia “mais humana e inteligente”, em que liderança se mede menos por poder e mais por impacto na vida das pessoas, no mercado e na sociedade.
Confira a seguir uma conversa de Leonardo Bortoletto, fundador do Clube de Permuta, com Marcos Koenigkan, presidente do Mercado & Opinião, preparada para o projeto Brasil Produtivo, um projeto desenvolvido em parceria com a Gazeta Mercantil.
Marcos Koenigkan: Qual é a origem da empresa e como você chegou à liderança do negócio?
Leonardo Bortoletto: O Clube de Permuta nasceu literalmente de um sonho dado por Deus e da necessidade de criar um ambiente mais inteligente e colaborativo para que empresas pudessem gerar fluxo de caixa, economizar recursos e impulsionar vendas sem depender exclusivamente da moeda tradicional. A lógica da permuta multilateral já existia no mundo, mas ainda era pouco explorada no Brasil — especialmente de forma estruturada, ética e escalável.
Eu fundei o negócio de forma orientada e com propósito. Sempre acreditei que o empreendedor brasileiro precisa de ferramentas que reduzam desperdícios, ampliem oportunidades e fortaleçam relacionamentos.
Marcos Koenigkan: Quais foram os momentos mais decisivos na construção ou transformação da companhia ao longo dos anos?
Leonardo Bortoletto: Três momentos foram decisivos:
a) A consolidação da plataforma multilateral, quando passamos a operar com tecnologia capaz de registrar, auditar e dar transparência a todas as trocas.
b) A expansão para novos estados e unidades franqueadas, que provou que nosso modelo não apenas funcionava regionalmente, mas tinha capacidade de escala nacional.
c) A profissionalização da gestão, com processos, governança e cultura bem definidos, permitindo que o crescimento fosse sustentável.
Esses marcos transformaram o Clube de Permuta em referência na América Latina.
Marcos Koenigkan: Qual foi a sua principal contribuição para o fortalecimento ou evolução do negócio desde que assumiu?
Leonardo Bortoletto: Minha principal contribuição foi posicionar o Clube de Permuta como uma plataforma estratégica de geração de valor, e não apenas como um canal de trocas.
Transformei o modelo em um ecossistema de negócios, fortalecendo a cultura de relacionamento, ampliando o alcance digital, profissionalizando a expansão franqueada e trazendo modernidade para a operação.
Trouxe ainda uma visão de educação empreendedora, conteúdo e presença institucional — algo que elevou a percepção do mercado sobre o potencial econômico da permuta multilateral.
Marcos Koenigkan: Quais valores definem a cultura da empresa e como eles atravessam diferentes gerações?
Leonardo Bortoletto: Nossa cultura é baseada em ética, transparência, colaboração, responsabilidade e foco em resultado real para os membros da rede.
Esses valores atravessam gerações porque não são modismos; são princípios que sustentam qualquer relação humana ou comercial.
A permuta multilateral só existe com confiança — e confiança se constrói com coerência ao longo do tempo.
Marcos Koenigkan: Na sua visão, o que significa liderar um grande grupo empresarial no Brasil de hoje?
Leonardo Bortoletto: Liderar no Brasil hoje significa unir resiliência e estratégia.
É navegar em um ambiente instável, burocrático e, ao mesmo tempo, cheio de oportunidades únicas.
Significa inspirar pessoas, desenvolver equipes, promover inovação contínua e, sobretudo, agir com responsabilidade para criar valor não apenas para o negócio, mas para toda a cadeia que o cerca.
Liderar é servir, direcionar e garantir que o propósito não se perca no meio do crescimento.
Marcos Koenigkan: Quais são hoje os maiores desafios e oportunidades do seu setor no ambiente econômico brasileiro?
Leonardo Bortoletto: O grande desafio ainda é educar o mercado sobre o poder da permuta multilateral, que muitos empresários desconhecem ou confundem com trocas simples.
Outro desafio é a necessidade de profissionalização das PMEs, que muitas vezes operam com pouca gestão e visão de fluxo de caixa.
Por outro lado, as oportunidades são enormes:
* capacidade de reduzir custos sem comprometer liquidez;
* potencial de combater ociosidade de forma inteligente;
* fortalecimento de redes colaborativas;
* aderência natural a momentos de incerteza econômica.
O Brasil, por sua criatividade e resiliência, é um terreno fértil para modelos econômicos colaborativos.
Marcos Koenigkan: O que o Brasil faz bem na economia produtiva, mas ainda recebe pouco reconhecimento?
Leonardo Bortoletto: O Brasil é extremamente competente em inovação prática — especialmente aquela que nasce do improviso inteligente, da criatividade diante da escassez.
O empresário brasileiro sabe sobreviver, adaptar-se e transformar problemas em solução.
Esse talento, que não se aprende em livro nenhum, é pouco reconhecido globalmente.
Somos, na prática, um dos países mais empreendedores e resilientes do mundo.
Marcos Koenigkan: Como sua empresa está incorporando inovação e tecnologia para se manter competitiva?
Leonardo Bortoletto: Estamos investindo em tecnologia para tornar a experiência do associado mais fluida, segura e orientada por dados.
Do uso de inteligência artificial à melhoria da nossa plataforma, tudo é pensado para aumentar a eficiência das trocas e gerar mais valor real para a rede.
Além disso, inovamos também na gestão de relacionamento, no modelo franqueado e nas ferramentas educativas que oferecemos — pois inovação não é só tecnologia; é cultura, processo e mentalidade.
Marcos Koenigkan: Que movimentos de futuro você considera inevitáveis para o seu setor nos próximos anos?
Leonardo Bortoletto: Vejo três movimentos inevitáveis:
– Digitalização completa das negociações e aumento da transparência por meio de dados.
– Crescimento da economia colaborativa, com empresários buscando redes confiáveis para reduzir custos e ampliar oportunidades.
– Integração de plataformas, permitindo que sistemas conversem entre si e ampliem o alcance e a eficiência das trocas multilaterais.
O futuro do setor é mais conectado, mais ágil e mais baseado em inteligência de mercado.
Marcos Koenigkan: Que legado você deseja deixar para sua empresa, sua família ou para as próximas gerações de líderes?
Leonardo Bortoletto: Quero deixar o legado de que é possível construir grandes negócios com simplicidade, ética e colaboração genuína.
Desejo que minha família e as próximas gerações vejam no Clube de Permuta não apenas uma empresa, mas um exemplo de como a economia pode ser mais humana e inteligente. De que é possível crer em sonhos quando estes vem de Deus.
E, para os líderes que virão, quero deixar a mensagem de que liderança não é sobre poder — é sobre impacto. Impacto na vida das pessoas, no mercado e na sociedade.