O Conselho Nacional de Educação (CNE) anunciou uma proposta que pode transformar radicalmente o cenário educacional brasileiro: a obrigatoriedade do ensino de Inteligência Artificial (IA) nos cursos de Pedagogia e Licenciaturas. A medida, que ainda aguarda homologação pelo Ministério da Educação (MEC), visa preparar os futuros professores para os desafios e oportunidades trazidos pela IA nas salas de aula.
A proposta surge em um momento de crescente adoção de tecnologias educacionais no país. Redes públicas e privadas já utilizam soluções baseadas em IA para personalização do ensino, correção automatizada de provas e apoio à gestão escolar. A nova diretriz pretende institucionalizar esse movimento, garantindo que os educadores estejam capacitados para atuar como mediadores críticos e éticos no uso dessas ferramentas.
“A IA não será tratada como uma ameaça, mas como uma oportunidade. Vamos destacar seu potencial para reduzir a sobrecarga docente, personalizar a aprendizagem e promover inclusão”, afirmou Celso Niskier, relator do parecer do CNE.
Impactos esperados
A proposta prevê que as instituições de ensino superior incluam a IA como disciplina obrigatória ou como conteúdo transversal ao longo da formação docente. Além disso, será exigido um plano de implementação com diretrizes éticas, de privacidade e de uso responsável da tecnologia.
Especialistas apontam que a medida pode acelerar a modernização do sistema educacional brasileiro, mas também alertam para os desafios estruturais. A desigualdade de infraestrutura entre escolas públicas e privadas pode dificultar a adoção plena da IA na educação básica.
Embora o foco inicial seja a formação de professores, o debate sobre a inclusão da IA na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino médio já está em pauta. Parte dos conselheiros defende que, sem essa obrigatoriedade, o avanço da IA na educação pode ocorrer de forma desigual e desorganizada.
Brasil no radar global
Com essa iniciativa, o Brasil se alinha a tendências internacionais de integração da IA à educação, como já ocorre em países como Coreia do Sul, Finlândia e Estônia. Dessa forma, a proposta do CNE pode posicionar o país como referência na formação de educadores para a era digital.
A equipe da GZM foi buscar referências sobre a medida em outros países que já adotaram o ensino da IA como uma ferramenta ou como um apoio na aprendizagem. As adaptações também são sempre necessárias e devem ser consideradas para cada país:
| País | Medida Adotada | Destaques |
| China | Currículo nacional com foco em IA desde o ensino fundamental | Lançou livros didáticos de IA para alunos do ensino médio e investe em capacitação de professores |
| Coreia do Sul | IA como disciplina obrigatória no ensino médio técnico | Foco em ética, programação e aplicações práticas; forte apoio governamental |
| Finlândia | Curso gratuito de IA para toda a população, incluindo escolas | O curso “Elements of AI” foi adaptado para o ensino básico e médio |
| Reino Unido | Reformulação do currículo de computação para incluir IA e ética digital | Parcerias com universidades e empresas de tecnologia para formação docente |
| Singapura | Programa nacional “AI for Everyone” e “AI for Students” | Ensina fundamentos de IA e pensamento computacional desde o ensino básico |
| Estados Unidos | Iniciativas estaduais e locais, como na Califórnia e Nova York | Currículos experimentais com foco em justiça algorítmica e aplicações sociais |
Essas iniciativas mostram que o Brasil está se alinhando a uma tendência global ao propor a obrigatoriedade do ensino de IA na formação de professores. A proposta do CNE pode ser um passo estratégico para garantir que o país não apenas consuma tecnologia, mas também forme cidadãos capazes de compreender, criticar e criar com IA.
E para saber mais sobre essa medida, seus impactos e entender melhor como o uso da IA tem sido utilizado hoje, a GZM conversou com uma referência em políticas educacionais e defensor da inovação na formação docente, Wilson Victorio Rodrigues, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e diretor-geral da Faculdade do Comércio. Confira:
GZM: Como o senhor avalia a proposta do CNE de incluir obrigatoriamente o ensino de Inteligência Artificial nos cursos de formação docente?
Wilson: O avanço da Inteligência Artificial já está impactando diretamente o ambiente escolar, tanto no comportamento dos alunos quanto nas práticas dos professores. A proposta do CNE representa mais do que uma atualização curricular e sim uma necessidade de preparar educadores para lidar com as transformações que já estão em curso. É um passo importante para que a escola brasileira assuma protagonismo, em vez de apenas reagir a essas mudanças.
GZM: Quais são os principais ganhos esperados para o ambiente escolar?
Wilson: Com professores mais preparados, o ambiente escolar tende a ganhar em qualidade, autonomia e segurança no uso da tecnologia. Espera-se um ensino mais personalizado, com uso consciente da IA como ferramenta de apoio à aprendizagem, e não como substituto do professor. Além disso, com formação adequada, será possível combater a desinformação, evitar dependência intelectual e promover um uso mais ético e crítico das tecnologias em sala de aula.
GZM: Na sua visão, quais competências os futuros professores precisam desenvolver para lidar com tecnologias como IA de forma ética, crítica e pedagógica?
Wilson: É preciso ir além do domínio técnico. Os professores precisam desenvolver competências críticas, como a capacidade de avaliar conteúdos gerados por IA, identificar possíveis vieses de algorítmicos, entender princípios de ética digital e segurança de dados. Pedagogicamente, é essencial saber como integrar essas ferramentas ao processo de ensino-aprendizagem sem abrir mão da mediação humana e da função social da educação: ensinar a pensar.
GZM: A formação docente atual está preparada para incorporar conteúdos de IA?
Wilson: De modo geral, não. A formação docente no Brasil ainda é, em muitos casos, defasada em relação às transformações tecnológicas. Poucas universidades oferecem disciplinas específicas sobre Inteligência Artificial, ética digital ou segurança de dados. Há um descompasso entre o que os futuros professores aprendem na graduação e o que enfrentam no cotidiano escolar.
GZM: Quais seriam os principais desafios para as instituições de ensino superior nessa transição?
Wilson: O primeiro desafio é estrutural: atualizar currículos, capacitar docentes formadores e investir em recursos tecnológicos adequados. Além disso, há o desafio de vencer a resistência cultural, tanto por parte de professores quanto de gestores, que ainda veem a IA com receio ou desconhecimento. Outro ponto crítico é garantir que essa transição não se restrinja a instituições com mais recursos, aprofundando ainda mais as desigualdades.
GZM: Como a Faculdade do Comércio tem se posicionado frente à transformação digital na educação? Há iniciativas concretas envolvendo IA na formação de professores ou gestores escolares?
Wilson: A Faculdade do Comércio da Associação Comercial de São Paulo já incorporou o tema da Inteligência Artificial à sua grade, com foco não apenas no uso das ferramentas, mas na compreensão crítica de seu impacto nas dinâmicas econômicas, sociais e educacionais. Nossa proposta é formar profissionais preparados para atuar estrategicamente em um cenário digital, incluindo gestores e professores que lidam diretamente com os desafios da transformação digital nas escolas.
GZM: Que tipo de políticas públicas e investimentos o Brasil precisa para garantir que a inclusão da IA na formação docente não aprofunde desigualdades educacionais entre regiões e instituições?
Wilson: É preciso garantir equidade de acesso, com políticas públicas que levem infraestrutura tecnológica, capacitação e conectividade às regiões mais vulneráveis. Também são fundamentais programas de formação continuada para professores da rede pública, parcerias com universidades e financiamento adequado para que todas as instituições de ensino superior possam implementar as diretrizes do CNE de maneira efetiva. Sem isso, corremos o risco de criar um abismo ainda maior entre quem tem acesso à educação de qualidade e quem não tem.
