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Co-criar com a periferia: por que a inteligência da favela muitas vezes vale mais que qualquer focus group

Por Joildo Santos, fundador do Grupo CRIA e especialista em comunicação estratégica e desenvolvimento de ecossistemas. Trabalha há 18 anos conectando marcas, agências e governos com comunidades, facilitando parcerias que geram impacto real e resultado mensurável

Co-criar com a favela não é “perguntar opinião”, é trazer a inteligência de quem vive o corre diário para dentro da estratégia de produto, comunicação e preço da empresa. Quando a periferia entra na mesa de decisão, ela entrega nuances que nenhum focus group em sala espelhada consegue capturar.​

A favela já é laboratório, você querendo ou não

Hoje, mais de 17 milhões de brasileiros vivem em favelas e periferias, movimentando algo em torno de centenas de bilhões de reais por ano em consumo. É um mercado que já testa marcas, formatos, embalagens, combos, tickets médios e prazos de pagamento na vida real, todos os dias. Quando a empresa ignora essa inteligência de base, ela continua decidindo a partir do olhar de quem não pega ônibus lotado, não parcela no crediário da quebrada e não sente o peso de cada real gasto no fim do mês.​

Em vez de olhar para a periferia como “território a ser pesquisado”, a empresa precisa reconhecê-la como laboratório vivo de comportamento de consumo, logística, inovação e risco. O que funciona na favela sob pressão de renda, tempo e infraestrutura tende a funcionar em outros mercados quando a economia aperta.​

Por que o focus group não dá conta

O focus group tradicional é, quase sempre, uma experiência fora de contexto: ar-condicionado, coffee break, vale-presente no final. É útil para levantar percepções gerais, mas limita a fala ao que cabe em duas horas de roteiro, com um moderador conduzindo a conversa. A periferia decide no calor do dia a dia, com variáveis que não entram na sala, relação com o dono do mercado, confiança na entrega, risco de circular com determinados itens, influência da igreja, da escola, da quebrada.​

Além disso, há um desequilíbrio de poder: muitas pessoas não se sentem à vontade para contrariar a marca na frente de um representante “de gravata”, ainda mais quando essa relação é marcada por anos de ausência ou comunicação estereotipada. O resultado é um dado aparentemente organizado, mas que não fala das gambiarras, atalhos e estratégias reais que sustentam o consumo nas bordas do sistema.​

Inteligência de base: o que as lideranças locais entregam

Quando a empresa co-cria com lideranças, coletivos, empreendedores, organizações locais, comunicadores periféricos, ela passa a ter acesso a três camadas de inteligência que a pesquisa tradicional não entrega.​

  • Insight de produto: líderes comunitários sabem quais dores são prioritárias, que atributos realmente fazem diferença (durabilidade, rendimento, facilidade de reparo, possibilidade de “desmontar/reusar”) e que formatos encaixam no cotidiano.​
  • Insight de linguagem: entendem quais palavras aproximam e quais afastam, o que soa arrogante, o que é piada interna, o que é código de respeito na quebrada.​
  • Insight de preço e condição: conhecem o limite do bolso, o timing de renda (dia de pagamento, dia do benefício), o peso do frete, o papel do fiado, do cashback e do desconto à vista.​

É essa inteligência que explica, por exemplo, por que certas marcas “queridinhas” de classe média não pegam na favela, enquanto outras, sem campanha premiada, viram padrão de consumo em poucas semanas.​

Como co-criar na prática (sem fazer tokenismo)

Co-criar com a quebrada não é chamar uma liderança para tirar foto na campanha de lançamento. É trazer essas pessoas para o desenho do problema, para a priorização de soluções e para a validação de cada etapa do processo. Isso inclui discutir contrato, remuneração, propriedade intelectual e reconhecimento público, não é voluntariado, é consultoria estratégica.​

Na prática, isso significa montar conselhos consultivos periféricos, rodadas de cocriação no território, testes de protótipo em pontos de venda locais e canais permanentes de escuta, não só “projetinhos” pontuais. A empresa precisa estar disposta a ser contrariada, a ajustar portfólio, a mudar plano de mídia, a rever roteiro de campanha e a redesenhar jornadas de atendimento a partir do que a quebrada devolve.​

O que isso muda para o seu negócio

Quando você substitui o focus group como único farol e passa a trabalhar com inteligência de base, três coisas acontecem: o erro fica mais barato, o produto fica mais aderente e a marca ganha licença social para operar onde antes só aparecia em época de campanha. Você reduz a distância entre a sala de reunião e a viela, e descobre que, no fim das contas, quem mora na quebrada não quer ser “alvo”, quer ser parceiro de construção.​

Do ponto de vista de negócio, isso se traduz em inovação mais rápida, comunicação mais crível e melhor uso de verba de marketing e ESG. E do ponto de vista de futuro, em algo ainda mais valioso: construir, agora, as pontes que seus concorrentes vão demorar anos para perceber que precisavam existir.

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