O que mudou: classe C atinge recorde histórico
O Brasil entrou em 2026 com a maior classe C de sua história recente. Estimativas do FGV Social mostram que, em 2024, a classe C (renda familiar entre cerca de 2.525 e 10.885 reais) passou a representar 60%–61% da população, o equivalente a aproximadamente 130 milhões de brasileiros. Em paralelo, a parcela nas classes D e E caiu para algo em torno de 22% em 2025, o menor patamar já registrado, com cerca de 46 milhões de pessoas na base da pirâmide.
Entre 2022 e 2024, 17,4 milhões de brasileiros deixaram a pobreza e subiram de classe, num ritmo de mobilidade 70%–75% mais acelerado do que o observado no ciclo 2003–2014, segundo o economista Marcelo Neri, do FGV Social. A expansão recente não é apenas numérica: consolidou-se uma geração que já nasceu na classe C, mais escolarizada, hiperconectada e menos conformada com serviços públicos precários e baixa qualidade de vida.
O que e como a Classe C consome
A nova classe C é, de longe, o maior mercado do país – e o perfil de consumo ajuda a entender por que ela é tratada como “motor” da economia.
Por setores, produtos e serviços, o padrão é o seguinte:
- Alimentos, higiene e limpeza: Continuam sendo a base do orçamento, mas com mudança de mix: maior peso de marcas próprias, embalagens econômicas e compras em atacarejos, combinados com indulgências ocasionais (snacks, bebidas, prontos para consumo) em datas especiais.
- Varejo de moda e bens não duráveis: Estudos da Serasa Experian e da GS1 indicam que a maioria dos consumidores de marketplaces pertence à classe C e tem forte afinidade com produtos “fashion” (roupas, calçados, acessórios), adquiridos em canais digitais com foco intenso em promoções, cashback e fretes competitivos.
- Eletrodomésticos e eletrônicos: A renovação de linha branca (geladeira, fogão, máquina de lavar) e de smartphones permanece central. A classe C busca tecnologia “boa o suficiente” com bom custo‑benefício, financiada via cartão de crédito, crediário, carteiras digitais e “compre agora, pague depois”.
- Serviços digitais e conectividade: Streaming de vídeo e música, pacotes de internet móvel e fixa e jogos online estão no centro da cesta aspiracional. A presença massiva da classe C em canais digitais (apps de banco, e‑commerce, redes sociais) transforma esse público em alvo prioritário de serviços financeiros, educação à distância e saúde digital.
- Serviços financeiros: Bancos digitais, cartões sem anuidade, contas de pagamento e crédito pessoal com onboarding 100% online ganharam tração junto à classe C e ao estrato imediatamente abaixo; pesquisas da Serasa mostram que, no grupo com capacidade de pagamento até 2 mil reais, mais de 80% compram online e usam intensamente cartão de crédito, ainda que com maior vulnerabilidade a endividamento.
No diagnóstico da PwC e do Instituto Locomotiva, esse consumidor “encara o consumo como questão de conquista e esforço individual”, tornando‑se mais seletivo, informado e exigente: “São pessoas ainda mais seletivas, com mais experiência e acesso à informação e mais opções de compras e canais. É um contexto que está impulsionando uma abordagem mais criteriosa na avaliação do custo-benefício, combinando uma exigência de qualidade e preço acessível, com uma atenção especial aos aspectos ESG”, diz Renato Meirelles, presidente do Locomotiva.
Perfil da nova Classe C
Os estudos recentes desenham um retrato relativamente consistente da nova classe média brasileira:
- Renda e estrutura familiar: Renda domiciliar entre 2.525 e 10.885 reais, com forte peso de famílias em que mais de uma pessoa contribui para o orçamento (casais com dupla renda, arranjos multigeracionais).
- Trabalho e escolaridade: Predominância de ocupações em serviços, comércio, logística, teleatendimento, administração e funções técnicas; escolaridade média superior à das gerações anteriores, com crescimento da proporção de pessoas com ensino médio completo e ensino superior em andamento ou concluído.
- Digitalização: Altíssima penetração de smartphones e uso intensivo de redes sociais, aplicativos de mensagem, e‑commerce e serviços financeiros digitais. Entre consumidores com renda até 2 mil reais, 93,7% dos que compram em marketplaces têm afinidade com o canal digital.
- Atitude em relação ao consumo: Mais foco em controle de gastos e planejamento de curto prazo após repetidos choques econômicos; consumo visto como conquista, mas com maior sensibilidade a preço, endividamento e qualidade percebida.
- Sensibilidade a temas sociais e ambientais: Estudos apontam aumento da atenção a questões ESG, sobretudo quando conectadas diretamente ao cotidiano (tratamento de pessoas, condições de trabalho, impacto local), ainda que preço siga sendo o filtro dominante.
Impactos sobre negócios e economia
O crescimento da classe C tem efeitos diretos sobre a dinâmica da economia brasileira:
- Demanda interna mais robusta: Uma maioria de 130 milhões de pessoas na faixa intermediária de renda sustenta o consumo massivo que responde por quase dois terços do PIB. Esse colchão ajuda a suavizar choques externos, desde que emprego e renda se mantenham.
- Reconfiguração do varejo e dos serviços: Empresas de bens de consumo, serviços financeiros, telecom, educação e saúde ajustam portfólios para capturar o “meio da pirâmide”: produtos modulares, planos acessíveis, combos família e modelos de assinatura com ticket médio compatível com o orçamento da classe C.
- Aceleração do digital: A afinidade da classe C com canais digitais acelera a bancarização, a digitalização de pagamentos e a expansão do e‑commerce para além das capitais, exigindo infraestrutura logística e regulatória à altura.
- Pressão por serviços públicos melhores: Uma classe C mais escolarizada e conectada tende a cobrar mais de serviços como transporte, saúde, educação e segurança – o que se traduz em pressão sobre governos e em oportunidades para parcerias público‑privadas e soluções privadas de baixo custo (clínicas populares, escolas e cursos acessíveis, mobilidade compartilhada).
Ao mesmo tempo, há riscos claros: a “armadilha da renda média”, citada por Neri e outros economistas, continua posta. A mobilidade da classe C para a classe B segue lenta (A e B somam apenas cerca de 17% da população), e o país corre o risco de manter um grande contingente travado em patamar intermediário, sem ganhos de produtividade que sustentem renda mais alta de forma estrutural.
O que empresas e formuladores de política precisam enxergar
Para empresas, o recado é direto: ignorar a classe C é ignorar o mercado. Mas tratá‑la como bloco homogêneo também é erro. Estratégias vencedoras tendem a combinar:
- segmentação fina por renda, região, ciclo de vida e comportamento digital;
- oferta de produtos e serviços com custo‑benefício claro, transparência em condições de crédito e experiência amigável em canais físicos e digitais;
- atenção real (não apenas de marketing) a temas de confiança, respeito e inclusão, que pesam na escolha de marcas e prestadores.
Para a política econômica, o crescimento da classe C é um sinal positivo – 17,4 milhões de pessoas saindo da pobreza em dois anos não é trivial –, mas não pode mascarar a urgência de uma agenda de produtividade, educação de qualidade, infraestrutura e ambiente de negócios que permita a esse contingente continuar subindo degraus.
Em síntese, a nova classe C brasileira é, ao mesmo tempo, resultado e condição da fase atual da economia. Se o país conseguir transformar esse recorde histórico em trampolim – e não em teto –, ganha um mercado interno vibrante, mais estabilidade social e mais fôlego para competir em um mundo que continua testando, todos os dias, a capacidade das economias emergentes de fugir da armadilha da renda média.
Impacto do Bolsa Família
Segundo a FGV Social, o Bolsa Família teve papel relevante – mas indireto – na ascensão recente para a classe C. Entre 2022 e 2024, 17,4 milhões de pessoas saíram da pobreza e passaram às classes A, B e C, no maior movimento de mobilidade social desde 1976. Nesse período, a participação dessas classes na população cresceu 8,44 pontos percentuais, e entre 13 e 14 pontos percentuais desse avanço são compostos por beneficiários do Bolsa Família e do BPC, o que mostra o peso das políticas de transferência de renda na porta de entrada para a classe média.
Marcelo Neri, diretor da FGV Social e autor do estudo, destaca, porém, que o principal motor da ascensão foi a renda do trabalho: “O ganho de renda do trabalho foi o principal motor de ascensão social da chamada classe média. A regra de proteção do Bolsa Família impulsiona a geração de carteiras de trabalho, que talvez seja o principal símbolo da nova classe média vinda da base da distribuição de renda”.
Essa “regra de proteção” – que permite ao beneficiário conseguir emprego formal e manter, por um período, parte do benefício – reduz o medo de perder o auxílio ao entrar no mercado formal e facilita a transição para patamares de renda compatíveis com a classe C.
Na síntese da própria FGV e do MDS, o Bolsa Família funciona como alavanca inicial: é o dinheiro nas mãos dos mais pobres que, combinado com crescimento econômico e oportunidades de emprego e pequenos negócios, abre caminho para a ascensão e sustenta a nova classe média.