O que o novo estudo revela sobre o Brasil campeão de agrotóxicos
O Brasil consolidou-se como o maior consumidor de agrotóxicos do mundo e o consumo segue em alta. Entre 2003 e 2023, o volume anual comercializado saltou de cerca de 180 mil para 800 mil toneladas, enquanto a intensidade de uso atingiu 10,9 kg por hectare em 2021, colocando o país à frente de Estados Unidos (2,85 kg/ha) e China (1,9 kg/ha).
Mas o que aparentemente são dados positivos, traz também um lado preocupante. É o que foi levantando no artigo “Sobreuso de agrotóxicos no Brasil”, de autoria dos pesquisadores José Féres (Ipea) e Loredany Rodrigues (Universidade Federal de Viçosa), mostrando que essa intensificação é generalizada, com destaque para Centro-Oeste, Sul e Sudeste, onde se concentram soja, milho e cana, responsáveis por 76% do consumo nacional. O ritmo de liberação de produtos também disparou: entre 2005 e 2019 foram registrados 3.151 novos agrotóxicos e, só em 2024, o país aprovou 663 novos defensivos químicos e biológicos, recorde histórico.
Como o mau uso de agrotóxicos ameaça a saúde dos brasileiros
Os pesquisadores lembram que, embora os agrotóxicos tenham contribuído para a produtividade agrícola, o uso indiscriminado está associado a uma lista extensa de danos à saúde humana. Com base em muitos estudos científicos reconhecidos, os autores destacam que os efeitos podem ser:
- Agudos: irritações na pele, alergias, problemas respiratórios, intoxicações de curto prazo.
- Crônicos: câncer, desregulação hormonal, problemas reprodutivos, malformações e danos ao sistema nervoso que se manifestam após anos de exposição.
E o risco não se limita ao trabalhador rural diretamente exposto. A contaminação de água, solo e ar aumenta a possibilidade de exposição de comunidades inteiras, inclusive por meio de alimentos e da água potável. A má gestão de embalagens vazias agrava o quadro, assim como o uso de substâncias que podem gerar poluentes orgânicos persistentes — compostos que se acumulam no ambiente e na cadeia alimentar e são difíceis de eliminar.
Do ponto de vista de política pública, os autores citam o Dossiê Abrasco, que já alertava desde 2015 para os impactos dos agrotóxicos sobre a saúde coletiva e a necessidade de enxergar o tema também como problema de vigilância em saúde, e não apenas como insumo produtivo.
O custo escondido: quando mais veneno significa menos resultado
O estudo mostra também que o problema não é apenas sanitário e ambiental: o sobreuso de agrotóxicos está começando a comprometer o próprio desempenho econômico do agronegócio brasileiro. A literatura internacional já documentava a queda da produtividade marginal desses insumos em regiões agrícolas dos Estados Unidos, Bangladesh e China, com reduções anuais relevantes na eficiência dos pesticidas.
No caso brasileiro, dados de Moraes (2019) apontam que, entre 2001 e 2016, a receita gerada por cada unidade adicional de agrotóxico vem caindo, sugerindo perda de produtividade desse insumo. Féres e Rodrigues chegam à mesma conclusão por outro caminho: eles estimam a “receita marginal adicional” dos agrotóxicos (RMA) em nível municipal usando dados dos Censos Agropecuários de 2006 e 2017.
Pelo critério econômico clássico, o uso ótimo acontece quando RMA = 1, isto é, cada unidade monetária extra gasta em agrotóxico gera exatamente uma unidade monetária extra de receita. Quando RMA < 1, o produtor está sobreutilizando o insumo: a receita adicional é menor que o custo extra, e reduzir a quantidade aplicada aumentaria o lucro.
E, nesse caso, os resultados são contundentes:
- Em 2017, mais de 80% dos municípios brasileiros apresentavam evidências de sobreuso de agrotóxicos (RMA < 1), ante um nível já elevado em 2006.
- Nas regiões Sul e Centro-Oeste, onde o agronegócio é mais intenso, cerca de 90% dos municípios apresentavam uso excessivo.
Nos municípios mais intensivos em soja, por exemplo, um aumento de 10 reais em gastos com agrotóxicos gera apenas 3,20 reais em receita adicional, em média. Em outras palavras: o produtor está literalmente gastando mais do que recebe quando decide “reforçar” a dose na tentativa de proteger a lavoura.
O foco na soja e nas sementes transgênicas: quando o modelo produtivo vira armadilha
O artigo mostra ainda que o sobreuso é particularmente crítico em regiões onde predominam soja e sementes geneticamente modificadas resistentes ao glifosato. O pacote tecnológico — semente resistente + herbicida aplicado em larga escala — cria um incentivo econômico para usar o produto de forma intensiva, já que a cultura suporta doses mais altas sem morrer
Ao separar municípios conforme a intensidade da produção de soja e do uso de sementes transgênicas, os autores encontram RMAs muito abaixo de 1 nos grupos mais intensivos em todo o país, indicando sobreuso sistemático. Isso significa que o modelo de expansão baseado em mais área, mais insumo químico e mais safras por ano começa a bater em limites econômicos, além de ambientais.
O problema tende a se retroalimentar: o uso intensivo e contínuo afeta microrganismos do solo, reduzindo a fertilidade, e favorece o desenvolvimento de resistência em pragas e patógenos, o que exige doses maiores e aplicações mais frequentes. O resultado é um ciclo de dependência crescente de defensivos, custos em alta e eficácia em queda.
Duplo prejuízo: saúde em risco e dinheiro jogado fora
Para Féres e Rodrigues, o quadro configura uma situação de “duplo prejuízo”: de um lado, externalidades negativas relevantes — doenças, contaminação ambiental, perda de biodiversidade —; de outro, ineficiência econômica pura e simples. Em um cenário de sobreuso generalizado, o país paga duas vezes: em gastos públicos com saúde e em perda de renda no campo.
A boa notícia é que o mesmo raciocínio permite vislumbrar um “duplo ganho”: reduzir ineficiências na aplicação de agrotóxicos pode cortar custos, melhorar a rentabilidade das atividades agrícolas e, ao mesmo tempo, diminuir danos à saúde e ao meio ambiente. Essa convergência é central para um agronegócio que queira manter competitividade em mercados que elevam exigências ambientais e sanitárias.
Caminhos para um agronegócio produtivo e menos dependente de veneno
Os autores defendem que reduzir a ineficiência no uso de agrotóxicos deve ser prioridade na agenda de sustentabilidade do setor. O eixo central é a adoção ampliada do manejo integrado de pragas (MIP), que combina métodos biológicos, culturais, físicos e químicos, com defensivos usados como último recurso e sempre com base em monitoramento e limiares de dano econômico.
O controle biológico aparece como peça-chave: por atacar as pragas com menor risco de desenvolvimento de resistência, não atingir organismos benéficos e não gerar resíduos tóxicos, ele se ajusta melhor às exigências de mercados que valorizam baixa carga química e rastreabilidade.
Os autores também sugerem mudar a lógica do crédito rural: hoje, o foco é reduzir custo financeiro e estimular produção, sem contrapartidas em termos de práticas sustentáveis. Condicionar parte do crédito subsidiado à adoção de manejo integrado, redução do controle químico e outras práticas que gerem benefícios públicos poderia ser um instrumento eficaz para atacar o sobreuso. Agências de extensão rural, por sua vez, são apontadas como fundamentais para difundir tecnologia e apoiar a transição no nível do produtor.
Féres e Rodrigues fazem questão de lembrar que os agrotóxicos tiveram papel relevante no aumento da produção e da produtividade no campo e que seus efeitos sobre a produção permanecem positivos quando usados de forma técnica. A mensagem central, porém, é que o Brasil precisa ir além da lógica de volume e custo de curto prazo se quiser seguir como potência agrícola e ser reconhecido como potência agrícola sustentável — para isso, tratar o sobreuso de agrotóxicos como problema de saúde pública, de competitividade e de eficiência econômica ao mesmo tempo deixa de ser opção e passa a ser condição de futuro.