Às vésperas da COP30, que será realizada em Belém entre os dias 10 e 21 de novembro, um novo relatório da The Earth League — consórcio internacional de cientistas e especialistas em clima — lança um alerta contundente: a crise climática está se acelerando mais rapidamente do que as ações de mitigação implementadas pelos países. O documento, divulgado na noite de quarta-feira (29), reúne os achados científicos mais recentes e propõe medidas urgentes para conter o avanço do aquecimento global.
Evidências da aceleração climática
Coordenado por 70 pesquisadores e com contribuições de mais de 150 especialistas de diversos países, o relatório foi estruturado em dez tópicos principais, distribuídos em três frentes: evidências da aceleração do aquecimento global, impactos observados e caminhos para aprimorar a mitigação.
O primeiro destaque aponta que os recordes de temperatura registrados em 2023 e 2024 não podem ser explicados apenas pelo fenômeno El Niño. Há um desequilíbrio energético na Terra, causado pela redução da refletividade das nuvens sobre os oceanos e pelo recuo da cobertura de gelo, que intensifica o aquecimento.
“A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que 2024 foi o ano mais quente já registrado, com temperaturas médias atingindo 1,55 °C acima dos níveis pré-industriais”, afirma Mercedes Bustamante, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e integrante da equipe que elaborou o relatório.
Impactos oceânicos e retroalimentação da crise
O aquecimento global também se manifesta nos oceanos. Em 2024, a temperatura média da superfície do mar ficou 0,6°C acima da média histórica (1981–2019) e cerca de 0,9°C acima dos níveis pré-industriais. Isso gerou recordes de ondas de calor oceânicas, perda acelerada de geleiras e elevação do nível do mar.
Bustamante explica que o aumento da temperatura da superfície do mar reduz a capacidade dos oceanos de absorver gás carbônico, um dos principais gases do efeito estufa. “Com águas mais quentes, o oceano absorve menos CO₂, o que agrava ainda mais a crise climática”, alerta.
Biodiversidade, saúde e segurança hídrica em risco
Entre os demais tópicos abordados, o relatório destaca:
- Declínio e redistribuição de espécies marinhas, afetando ecossistemas e economias costeiras.
- Esgotamento de águas subterrâneas, comprometendo o abastecimento humano e agrícola.
- Aumento de surtos de doenças tropicais, como dengue, impulsionados pelo calor.
- Riscos crescentes de incêndios florestais, com perdas humanas e econômicas.
Metas climáticas insuficientes
O documento também avalia as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), compromissos voluntários dos países para reduzir emissões. Segundo Bustamante, “se totalmente implementada, a última rodada de NDCs reduziria as emissões globais em apenas 5,9% até 2030 — bem abaixo dos 42% necessários para limitar o aquecimento a 1,5°C ou dos 28% para mantê-lo abaixo de 2°C”.
A cientista ressalta que muitos países ainda não apresentaram suas NDCs atualizadas, o que compromete os avanços esperados na COP30. “É preciso criar indicadores de progresso padronizados, monitorar a transição para além dos combustíveis fósseis, fortalecer a conservação e restauração florestal e proteger a biodiversidade e os sumidouros de carbono”, afirma.
Ela também destaca a importância das estratégias de remoção de CO₂, tanto para compensar emissões difíceis de reduzir quanto para permitir, no futuro, emissões líquidas negativas.
Resumo GZM
- 🌡️ A crise climática está se acelerando mais rápido que as ações de mitigação.
- 🌊 Oceanos mais quentes absorvem menos CO₂, agravando o efeito estufa.
- 🌱 A biodiversidade, a saúde pública e a segurança hídrica estão sob ameaça.
- 📉 As metas climáticas atuais são insuficientes para conter o aquecimento global.
- 🌍 O relatório da The Earth League pode embasar decisões mais ambiciosas na COP30.
🔗 Acesse o estudo completo aqui.
Fonte: Agência Bori