Eficiência não é mais título, é resultado financeiro

Por Felipe Araujo, Diretor Executivo e Estratégia no Futebol

Eficiência no futebol brasileiro deixou de ser medida por títulos e passou a ser avaliada por estrutura de custos, geração de caixa e capacidade de retorno. Até meados dos anos 2010, o critério dominante era simples: venceu, o projeto era considerado bem-sucedido; não venceu, tudo era descartado. Esse modelo, orientado pela pressão imediata, comprometeu a continuidade de processos e levou a um acúmulo relevante de passivos financeiros.

Esse padrão produziu dois efeitos claros: baixa retenção de talentos internos e crescimento descontrolado do endividamento. A conta, invariavelmente, chegava. O Cruzeiro Esporte Clube é um exemplo emblemático. Após anos de competitividade, com presença constante em decisões e disputas na parte superior da tabela, bastou uma ruptura de equilíbrio financeiro para que salários fossem atrasados e o clube enfrentasse o rebaixamento. O mesmo padrão pode ser observado no Santos Futebol Clube, que, mesmo com histórico recente de protagonismo esportivo, não sustentou sua estrutura financeira no médio prazo.

A mudança de paradigma é evidente. O foco deixa de ser exclusivamente o troféu e passa a ser o balanço. Com a introdução das SAFs, o planejamento deixa de ser anual e passa a ser estruturado em ciclos: qual a posição financeira atual, quais os próximos passos e como o clube estará em três ou cinco anos. A discussão se desloca para temas como formação de ativos, desenvolvimento de atletas, previsibilidade de receita e retorno sobre o capital investido.

A nova ótica, time não comemora títulos e sim balanços

Nesse novo contexto, o título passa a ser consequência de um processo bem executado, não o seu ponto de partida. O próprio Cruzeiro Esporte Clube, em sua reestruturação, apresentou valorização relevante do ativo mesmo sem conquistas expressivas no período recente. Em paralelo, clubes tradicionais como São Paulo Futebol Clube, Sport Club Corinthians Paulista e Clube Atlético Mineiro continuam enfrentando desafios relacionados ao aumento do endividamento, reflexo de ciclos de investimento pouco disciplinados.

Por outro lado, associações como Sociedade Esportiva Palmeiras e Clube de Regatas do Flamengo operam como exceções estruturais. Mesmo sem conquistar títulos todos os anos, mantêm competitividade sustentada por governança, disciplina financeira e clareza estratégica. A ausência de decisões impulsivas, mesmo diante do sucesso de terceiros, como Botafogo de Futebol e Regatas e Fluminense Football Club em competições recentes, evidencia maturidade de gestão.

Qual a nova tese, então?

A nova tese, na prática, é clara: existem clubes que operam para maximizar retorno, não necessariamente para disputar títulos a qualquer custo. São ativos comparáveis a empresas de médio risco no mercado financeiro — não lideram o topo da pirâmide, mas entregam previsibilidade e eficiência. Clubes como Grêmio Novorizontino, Mirassol Futebol Clube, Operário Ferroviário Esporte Clube e Volta Redonda Futebol Clube operam com estruturas enxutas, foco em scouting e desenvolvimento de atletas, priorizando equilíbrio operacional e valorização de ativos. O ROI desses clubes em 2025 ficou entre 12% e 17%, para efeitos de comparação, na B3, empresas no espectro triplo BBB, tiveram um ROI entre 11 e 15%. Isso demonstra como o futebol hoje tem sua força.

O futebol brasileiro mudou

Esse modelo se sustenta em duas frentes principais: recrutamento eficiente e formação. O Cuiabá Esporte Clube, mesmo enfrentando oscilações esportivas, acumulou aproximadamente R$ 170 milhões em receitas com transferências de atletas nos últimos anos, evidenciando a capacidade de geração de valor fora do resultado imediato em campo.

O futebol brasileiro mudou. Não basta vencer; é necessário ser eficiente, responsivo e disciplinado na alocação de recursos. Clubes que mantêm o hábito de investir de forma agressiva em elencos sem sustentação financeira tendem a ampliar seu nível de risco e perder competitividade ao longo do tempo. A consequência é conhecida: retração esportiva, pressão institucional e discursos recorrentes sobre a necessidade de equilíbrio, aquele famoso discurso: Agora precisamos de ter o “fair play financeiro”, curioso que quando gastou o que não tinha para fazer o “esquadrão”, não teve fair play “caseiro”.

Os números consolidados reforçam essa transformação. Os 30 maiores clubes do país movimentaram, em 2025, cerca de R$ 11,6 bilhões em receitas, estabelecendo um novo patamar para a indústria. O valuation agregado atingiu aproximadamente R$ 47,4 bilhões, sinalizando maior interesse de investidores e parceiros comerciais. As associações ainda concentram a maior fatia, com R$ 7,9 bilhões em receitas e R$ 31,5 bilhões em valor de mercado, puxadas por clubes de grande audiência. No entanto, as SAFs já representam R$ 3,7 bilhões em receitas e R$ 15,9 bilhões em valuation, com crescimento acelerado sustentado por capital, governança e eficiência operacional.

A conclusão é objetiva: no futebol atual, título é evento. Eficiência é modelo. E, no longo prazo, é o modelo que determina quem permanece competitivo, dentro e fora de campo.

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