O envelhecimento populacional é um fenômeno global, mas ainda carece de políticas públicas e pesquisas em muitos países. No Brasil, o tema ganhou destaque ao ser escolhido como proposta de redação do ENEM 2025. Nos Estados Unidos, onde 18% da população já tem 65 anos ou mais, a questão é acompanhada de perto por instituições como a AARP — maior organização de idosos do mundo, com mais de 40 milhões de filiados — e por centros de pesquisa como o Pew Research Center.
A pesquisa mais recente do Pew, intitulada How Americans Are Thinking About Aging, traça um panorama detalhado da velhice nos EUA em 2025. O levantamento, realizado com 8.750 adultos, mostra como os americanos percebem o envelhecimento, suas expectativas, preocupações e hábitos. A transição demográfica é impulsionada pela longevidade dos baby boomers e pelo aumento da expectativa de vida.
Percepções e sentimentos sobre o envelhecer
Entre os entrevistados com 65 anos ou mais, 49% afirmam estar envelhecendo “muito bem”. Já entre os mais jovens, apenas 30% esperam ter a mesma experiência. O estudo revela sentimentos ambivalentes: 67% dos americanos se dizem preocupados com a velhice, enquanto 51% demonstram entusiasmo com o futuro. As principais preocupações são saúde, finanças e solidão; as expectativas positivas incluem liberdade, lazer e tempo com a família.
Saúde e desigualdades
A saúde mental é avaliada como excelente ou muito boa por 60% dos idosos, mas apenas 37% dizem o mesmo da saúde física. Um em cada quatro relata episódios de confusão mental ou perda de memória, e mais de um terço admite sentir-se só em algum momento. A renda influencia diretamente essas percepções: 49% dos idosos de alta renda avaliam sua saúde física como ótima, contra 26% dos de baixa renda. O padrão se repete na saúde mental: 73% dos mais ricos se consideram mentalmente saudáveis, ante 45% dos mais pobres.
Insegurança financeira
Mais de 40% dos adultos americanos duvidam que terão recursos suficientes para a aposentadoria. Entre os idosos, 20% não se sentem confiantes quanto ao futuro econômico. A insegurança é maior entre mulheres e jovens. Enquanto 72% dos idosos de alta renda dizem ter reservas seguras, apenas 21% dos de baixa renda compartilham da mesma percepção.
Vida social e familiar
Apesar dos desafios, 48% dos idosos dedicam tempo a hobbies e interesses pessoais, e 36% mantêm vida social ativa com amigos. O convívio familiar é central: 71% dos pais idosos conversam com filhos adultos várias vezes por semana, e 41% mantêm contato frequente com os netos. As mulheres são mais presentes e comunicativas nas relações familiares e sociais.
Estética e autoimagem
A busca por rejuvenescimento também aparece no estudo: 56% dos americanos já consumiram ou consideram consumir suplementos anti-idade, 52% pintam o cabelo e 23% admitem ter feito ou considerar procedimentos estéticos não cirúrgicos. As mulheres, especialmente as de maior renda, lideram essas práticas, evidenciando o crescimento do mercado de estética voltado à longevidade.
Autonomia e moradia
Embora a maioria dos idosos viva de forma independente, 22% relatam dificuldade em realizar tarefas como subir escadas ou carregar compras, e 16% precisam de ajuda eventual para cuidados pessoais. Apenas 44% discutiram alternativas de moradia assistida com filhos adultos, indicando que o tema ainda é tabu.
Longevidade e cultura
Três em cada dez americanos acreditam ter “considerável controle” sobre o envelhecimento, especialmente no que diz respeito à saúde física e mobilidade. A idade média desejada para viver é de 91 anos. O estudo também compara o envelhecimento em diferentes regiões: nos EUA, prevalecem independência e individualismo; na América do Sul, a interdependência familiar; na Europa, políticas públicas robustas; e na Ásia, o respeito cultural aos mais velhos.
Reflexões para o Brasil
Embora o aposentado americano tenha, em média, mais recursos que o brasileiro, os dados do estudo servem de alerta para a urgência de políticas públicas que garantam segurança e qualidade de vida à população idosa. Ao mesmo tempo, o envelhecimento abre espaço para novos modelos de negócio. Dois setores em expansão são os condomínios voltados para pessoas com mais de 60 anos e o mercado de bem-estar (Wellness), que inclui produtos e serviços voltados à saúde, estética, mobilidade e qualidade de vida.
O desafio está lançado: como envelhecer com dignidade, autonomia e propósito em um mundo que ainda se adapta à longevidade como realidade dominante.