Durante a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), a Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou um estudo que reforça a importância da certificação do hidrogênio de baixo carbono (H₂BC) como ferramenta estratégica para acelerar a descarbonização da indústria e dos transportes pesados no Brasil.
Intitulado “Certificação do Hidrogênio: Benchmarking do Processo de Certificação e Contribuições ao Brasil”, o levantamento compara modelos adotados por dez países — entre eles Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, China e Japão — e propõe diretrizes para a criação de um sistema nacional robusto, capaz de garantir credibilidade ambiental, atrair investimentos e viabilizar políticas de incentivo.
Potencial brasileiro e necessidade de regras claras
“O Brasil tem condições singulares de se posicionar como um grande fornecedor de hidrogênio de baixo carbono, graças à alta participação de fontes renováveis na matriz elétrica”, afirma Ricardo Alban, presidente da CNI. “Mas, para transformar esse potencial em vantagem competitiva real, precisamos de regras claras, proporcionais e compatíveis com nossa realidade produtiva.”
A certificação funciona como um selo que comprova a baixa emissão de gases de efeito estufa (GEE) na produção do hidrogênio, evitando práticas de greenwashing e fortalecendo a confiança de investidores e compradores. Segundo Roberto Muniz, diretor de Relações Institucionais da CNI, ela também é essencial para que projetos brasileiros acessem programas como o Rehidro e o PHBC, criados pelas Leis nº 14.948 e 14.990, de 2024.
Impacto em setores estratégicos
A certificação do H₂BC é determinante para garantir rastreabilidade em produtos-chave da transição energética, como:
- Amônia verde: usada em fertilizantes e como combustível marítimo.
- Combustíveis sustentáveis: aplicáveis à aviação, navegação e transporte rodoviário pesado.
- Aço verde: produzido com hidrogênio no lugar do carvão, reduzindo emissões da siderurgia e atendendo ao CBAM — mecanismo europeu que taxa produtos intensivos em carbono.
Modelo nacional: flexível e competitivo
O estudo recomenda que o Sistema Brasileiro de Certificação do Hidrogênio (SBCH2), já previsto em lei, adote um modelo simples e alinhado à norma internacional ISO/TS 19870:2023. A proposta inclui o uso da abordagem “well-to-gate”, que considera as emissões desde a geração da energia até o portão da fábrica, sem incluir transporte e uso final.
A CNI também sugere que critérios como “adicionalidade” — uso exclusivo de novas fontes renováveis — sejam opcionais para o mercado interno, evitando custos excessivos. O certificado nacional poderia conter dados básicos, com informações adicionais para exportação.
“Um sistema de certificação robusto e tecnicamente fundamentado dará segurança jurídica e ambiental ao setor, permitindo que o país aproveite suas vantagens naturais e estabeleça relações de confiança com parceiros comerciais”, afirma Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI.
Iniciativas em curso
Em Pernambuco, o SENAI desenvolve um sistema digital de rastreamento para certificação, em parceria com empresas como Siemens, White Martins e CTG Brasil. No Porto de Suape, um eletrolisador de 100 kW já produz 30 kg de hidrogênio verde por dia, com infraestrutura completa para armazenamento e abastecimento de veículos.
O projeto utiliza sensores e Internet das Coisas (IoT) para garantir rastreabilidade de ponta a ponta, antecipando na prática as diretrizes propostas pela CNI. Em todo o país, mais de R$ 250 milhões já foram investidos em 45 projetos de pesquisa com H₂BC, envolvendo nove Institutos SENAI de Inovação e 62 parceiros.
Próximos passos
A regulamentação do SBCH2 ainda depende de definição por parte do governo federal. O estudo da CNI recomenda que essa etapa detalhe metodologias de cálculo, governança e reconhecimento internacional — pontos cruciais para tornar a certificação operacional e impulsionar o mercado brasileiro de hidrogênio de baixo carbono.
Tabela comparativa de modelos de certificação de hidrogênio
| País | Status do Sistema de Certificação | Critérios Principais | Foco Estratégico | Observações |
| Alemanha | Implementado | Adicionalidade, rastreabilidade, pegada de carbono, verificação independente | Exportação para UE, siderurgia, transporte | Alinhado ao CBAM e à diretiva RED II |
| Reino Unido | Em desenvolvimento | Avaliação de ciclo de vida, rastreabilidade | Indústria e transporte | Busca alinhamento com padrões europeus e internacionais |
| EUA | Implementado com incentivos fiscais | Intensidade de carbono, rotas tecnológicas, verificação de emissões | Estímulo à inovação e produção doméstica | IRA oferece créditos tributários graduados conforme emissões |
| China | Em estruturação | Rastreabilidade, metas de neutralidade climática | Mobilidade e indústria pesada | Foco em produção nacional e segurança energética |
| Japão | Voluntário | Avaliação de ciclo de vida, compatibilidade com padrões internacionais | Importação e uso interno | Interesse em importar H₂BC certificado de parceiros |
| França | Integrado à UE | Pegada de carbono, origem renovável | Exportação e descarbonização industrial | Parte do sistema europeu de certificação |
| Austrália | Em desenvolvimento | ISO/TS 19870:2023, abordagem well-to-gate | Exportação para Ásia e Europa | Foco em hidrogênio verde com energia solar e eólica |
| Índia | Inicial | Incentivos para tecnologias limpas, rastreabilidade | Produção doméstica | Políticas emergentes com foco em segurança energética |
| Coreia do Sul | Implementado | Classificação por rotas tecnológicas, intensidade de carbono | Mobilidade e indústria | Integração com políticas industriais e de inovação |
| Canadá | Em operação | Avaliação de ciclo de vida, rastreabilidade | Exportação e descarbonização | Alinhado a metas climáticas e acordos comerciais |
| Brasil | Em regulamentação (SBCH2) | Flexibilidade regulatória, alinhamento à ISO, abordagem well-to-gate, opcionalidade | Exportação, indústria, fertilizantes | Potencial competitivo com matriz elétrica renovável |
Fontes: Estudo CNI (2025), IEA, Hydrogen Council, relatórios nacionais de energia e clima.