Experiência: o ativo do futuro

Por Ricardo Mucci, jornalista, CEO da Umana Media House e Head da editoria de Silver Economy da GZM

Em um mundo que celebra a juventude, a inovação e a velocidade, um episódio recente no universo financeiro lembra uma verdade frequentemente esquecida: experiência continua sendo um dos ativos mais valiosos da liderança.

A transição de comando na Berkshire Hathaway é um exemplo eloquente disso. Após seis décadas liderando a empresa, Warren Buffett, aos 95 anos, deixou o comando executivo do conglomerado que ajudou a transformar em uma potência global de investimentos. Seu sucessor, Greg Abel, assume o cargo aos 63 anos, idade que, em ambientes corporativos contemporâneos, seria considerada inadequada para assumir a liderança de um Board.

Mas, no caso da Berkshire, a lógica é outra.

Basta lembrar alguns movimentos da Berkshire Hathaway, para entender a senioridade é um ativo valioso. Em 2008, Warren Buffet, em visita a China, juntamente com Charlie Munger, investiu cerca de US$ 230 milhões para adquirir 225 milhões de ações da BYD (cerca de 10% da empresa na época). Em março de 2025, a posição foi totalmente zerada, resultando em um retorno estimado de 3.890% ao longo de 17 anos, ou seja: cerca de US$ 9 bilhões.

Em seus 187 anos de existência, a empresa edificou uma cultura sólida e simples: o capital deve ser administrado com disciplina, paciência e visão de longo prazo. O relatório anual da companhia, divulgado recentemente, destaca que essa cultura de alocação racional de capital e foco no longo prazo foi um dos pilares da trajetória de Buffett e de seu parceiro histórico, Charlie Munger, já falecido. 

A estratégia é clara: decisões que envolvem bilhões de dólares não podem ser guiadas apenas por algoritmos, modismos ou impulsos de curto prazo. Elas exigem julgamento — e o julgamento, em grande medida – se torna mais assertivo em função da experiência.

Buffett costumava comparar o investimento a um jogo de paciência e disciplina. No relatório de 2025, há uma analogia com o lendário jogador de beisebol Ted Williams, que dividia a zona de strike em dezenas de quadrantes e só tentava rebater quando a bola entrava em sua “zona ideal”. A filosofia é simples: esperar a oportunidade certa e agir com convicção quando ela aparece. 

Essa abordagem explica parte do desempenho extraordinário da Berkshire. Entre 1965 e 2025, o valor de mercado por ação da empresa cresceu a uma taxa média anual próxima de 20%, quase o dobro do desempenho do índice S&P 500 no mesmo período. 

Esse resultado não nasceu da pressa, mas sim da experiência.

Buffett atravessou crises econômicas, embates políticos, ideologias, choques inflacionários, bolhas tecnológicas e transformações profundas na economia global. Cada ciclo acrescentou camadas de aprendizado que moldaram sua visão de investidor e gestor de risco.

É justamente essa herança que Greg Abel assume agora. No relatório, ele reconhece explicitamente que sua missão é preservar a cultura e os valores que sustentaram a Berkshire por décadas, mantendo o foco em disciplina de capital, integridade e visão de longo prazo. 

A sucessão na Berkshire oferece uma lição importante para o debate contemporâneo sobre liderança.

Experiência não é um ônus. É um bônus multiplicador de discernimento.

Em mercados complexos, onde decisões envolvem riscos sistêmicos, reputação e bilhões de dólares em capital de risco, a senioridade não é apenas útil; é principalmente estratégica. Talvez por isso Buffett tenha permanecido ativo até os 95 anos: não por apego ao cargo, mas porque o valor da experiência, quando aliado à lucidez intelectual, continua sendo insubstituível.

Num mundo obcecado por velocidade, a Berkshire Hathaway lembra que o tempo também é um ativo e, quando bem utilizado, pode se transformar na forma mais sofisticada de inteligência econômica.

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