Com a decisão de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, as empresas brasileiras enfrentam um novo patamar de referência: a necessidade de superar a rentabilidade da renda passiva em 2026.
Em um cenário em que o capital aplicado em instrumentos conservadores entrega retorno real elevado, o custo de não investir parece pequeno — mas o custo de não inovar é fatal. Tradicionalmente, o Brasil é um ambiente de juros elevados.
No entanto, o atual patamar de 15% a.a. reabre uma discussão estratégica: por que correr riscos com projetos, novos produtos, aquisição de ativos ou inovação, se o caixa bem alocado já entrega um retorno expressivo? A resposta é simples: porque manter-se estático em um mercado global em transformação é abrir mão do futuro.
Se, por um lado, a renda passiva se tornou altamente atraente, por outro, ela não gera diferencial competitivo, nem cria novas fontes de receita ou fideliza clientes. Superar a Selic, portanto, passa a ser o novo benchmark interno de retorno sobre o capital investido. Um desafio especialmente relevante em setores intensivos em capital, como agroindústria, manufatura, energia e papel e celulose.
Nesse novo contexto, áreas de inovação precisam deixar de ser apenas centros de custo com horizonte difuso e passar a operar como unidades de investimento com retorno mensurável. Projetos de pesquisa e desenvolvimento devem agora apresentar, desde a concepção, indicadores como payback, ROI ajustado ao risco e tempo de maturação.
É tempo de revisitar a tese de inovação como diferencial competitivo e colocá-la sob métricas claras. Se a Selic rende 15% ao ano, um projeto que entregue 20% de retorno com payback de dois anos é estratégico. O que não se pode mais tolerar é alocar recursos em iniciativas que, embora “transformadoras”, não tenham horizonte claro de rentabilidade.
Exemplos positivos não faltam. No setor calçadista, a Vulcabras lançou o primeiro supertênis brasileiro, o Corre Supra, com tecnologia proprietária, fruto de um dos maiores centros de P&D da América Latina. Já a Cambuci, dona da Penalty, cresceu com inovação aplicada, aliando eficiência operacional ao lançamento de produtos sustentáveis e parcerias esportivas. Esses movimentos geraram resultados concretos, com ROI visivelmente superior ao custo de oportunidade do capital.
O mesmo observa-se em setores tradicionais como papel e celulose, onde empresas como Suzano, Klabin e Eldorado ampliaram produtividade e exportações com base em biotecnologia, energia renovável e gestão estratégica da dívida. Não é coincidência que estejam entre os destaques no estudo de inovação da indústria brasileira realizado pela Grownt. Em vez de ver a Selic elevada como obstáculo, as companhias brasileiras podem transformá-la em bússola estratégica.
Cada real alocado em inovação, expansão ou melhoria de processos deve ser confrontado com a seguinte pergunta: “isso vai render mais do que o capital parado no caixa?” Se a resposta for não, é preciso repensar. Se for sim, é hora de escalar.
Em vez de nos acomodarmos com a rentabilidade confortável da renda passiva, precisamos disputar margem, mercado e liderança. E isso só se faz com ambição, clareza de retorno e foco em execução.