Iniciamos a era da IA: Inteligência Ansiosa

Por Diego Rondon, CEO e cofundador da e-volve.one – consultoria especializada em estratégia de crescimento com foco em RH

Prometeram que a inteligência artificial libertaria as pessoas do trabalho repetitivo. Que automatizaria o operacional, reduziria a sobrecarga e devolveria tempo para pensar, criar e viver melhor. A equação parecia simples: menos tarefas mecânicas, mais qualidade de vida. Só que os primeiros sinais vindos de pesquisas internacionais começam a tensionar essa narrativa confortável.

No relatório Future of Work Trends for CHROs 2026, o Gartner introduz um alerta que passa longe do entusiasmo tecnológico. Segundo a consultoria, o maior custo oculto da inteligência artificial pode ser a saúde mental dos funcionários, e os impactos emocionais e cognitivos tendem a se tornar um problema urgente na força de trabalho já em 2026. Não é um argumento ideológico, é uma leitura de tendência baseada na observação do que está acontecendo dentro das organizações.

A promessa era eficiência. O efeito colateral começa a ser ansiedade.

Estudos conduzidos por universidades europeias e asiáticas ao longo de 2024 e 2025 mostram uma correlação crescente entre exposição intensiva a sistemas de IA e aumento de insegurança ocupacional. Profissionais relatam sensação de substituibilidade, comparação constante com a performance algorítmica e medo difuso de obsolescência. Mesmo quando a tecnologia é apresentada como ferramenta de apoio, o impacto subjetivo pode ser o de vigilância permanente e expectativa de entrega acelerada.

Há também um componente cognitivo que começa a ganhar espaço no debate acadêmico. Pesquisadores em psicologia organizacional investigam o fenômeno que alguns já chamam de “desuso deliberado do pensamento profundo”. Quando relatórios são resumidos automaticamente, quando diagnósticos vêm pré estruturados, quando decisões são sugeridas por modelos preditivos, o cérebro humano deixa de praticar certos níveis de análise com a mesma frequência. A capacidade não desaparece, mas pode perder agilidade e confiança. Como qualquer músculo, tende a responder ao uso ou à falta dele.

Em ambientes corporativos orientados por metas agressivas, a presença da IA nem sempre reduz a carga de trabalho. Em muitos casos, ela eleva o patamar de expectativa. Se agora é possível produzir um relatório em um terço do tempo, a régua sobe. Se a máquina gera dez versões de uma proposta, espera se que o profissional entregue vinte. A tecnologia acelera, o sistema exige mais, e o tempo subjetivo de descanso não aparece.

Outro ponto menos discutido envolve o tecido social das organizações. Parte significativa da saúde mental no trabalho está associada a vínculos, colaboração e senso de pertencimento. Quando interações humanas são substituídas por interações mediadas por sistemas inteligentes, o risco é o empobrecimento dessas trocas. A produtividade pode aumentar enquanto o sentimento de conexão diminui. E pertencimento é um dos principais fatores de proteção emocional dentro das empresas.

Nada disso significa que a inteligência artificial deva ser vista como vilã. O que os dados sugerem é que tecnologia introduz variáveis psicológicas que não estavam no radar inicial dos projetos de transformação digital. A adoção sem reflexão tende a amplificar tensões já existentes. Culturas orientadas apenas a performance encontram na IA um acelerador. Culturas maduras, com segurança psicológica e liderança consciente, encontram uma aliada.

Para o RH, o tema exige sofisticação. Não basta treinar o uso técnico das ferramentas. É preciso formar pensamento crítico sobre quando utilizá las, como validar resultados e onde preservar a decisão humana. Também se torna necessário revisar indicadores de desempenho. Volume de produção mediado por IA não pode ser confundido com valor agregado humano.

Líderes precisarão desenvolver sensibilidade para identificar sinais sutis de dependência excessiva, fadiga cognitiva e queda de autoconfiança profissional. Pesquisas internas de clima podem incluir dimensões relacionadas a sobrecarga digital, percepção de substituibilidade e impacto emocional do uso intensivo de automação. Saúde mental deixa de ser pauta periférica e passa a integrar a estratégia de transformação tecnológica.

A grande ironia deste momento é que a ferramenta criada para otimizar a inteligência humana pode, se mal conduzida, fragilizá la. Organizações que desejam colher os ganhos da inteligência artificial precisarão investir simultaneamente na inteligência emocional coletiva. Caso contrário, o ganho de eficiência virá acompanhado de um custo silencioso, pago na forma de ansiedade, esgotamento e erosão de confiança.

O futuro do trabalho não será definido apenas pela potência dos algoritmos. Será definido pela capacidade das lideranças de preservar o que torna o trabalho uma experiência humana significativa enquanto incorporam o que a tecnologia tem de melhor a oferecer. Quem ignorar essa equação pode descobrir tarde demais que produtividade sem saúde é um ativo que se deteriora rapidamente.

Compartilhe nas redes:

Boletim por E-mail

GZM NEWS

Cadastre seu e-mail e receba nossos informativos e promoções.

publicidade

Recentes da GZM

Mais sessões