A minha lembrança de infância no subúrbio do Rio de Janeiro tem cheiro de churrasco, som de samba e sensação térmica de 40 graus dentro do Chevette do meu pai, suando no trajeto da Ilha do Governador até Piedade aos finais de semana. Eu tinha 7 anos, era início dos anos 90, e a única coisa que eu sabia era que aquele calor parecia seguir a gente. Hoje eu entendo que o que me incomodava no meu corpo tinha dois nomes: racismo ambiental e pobreza energética.
Todo sábado, meus pais me colocavam no Chevette sem ar-condicionado e a gente saía da Portuguesa, ali pertinho do Jardim Guanabara, um dos bairros com os maiores IDHs do Rio, 0,963, para atravessar a cidade até a casa da família em Piedade, que no ano 2000 aparecia com IDH 0,850, o 54º do município. Naquela época eu não entendia nada de índice de desenvolvimento humano. Mas eu sabia perceber quando a paisagem mudava: das ruas arborizadas, da brisa do mar e dos coqueiros da Ilha para o cinza seco da Avenida Brasil, onde o vento parecia desaparecer e o calor ganhava peso.
Eu sentia que no trajeto entre um bairro e outro a temperatura aumentava de um jeito estranho. Era como se o calor também tivesse endereço. E tinha. Anos depois, ao ler o Censo 2022 do IBGE, descobri que cerca de seis em cada dez moradores de favelas no Brasil vivem em trechos de vias sem nenhuma árvore. Fora das favelas, a realidade é quase o oposto: 69% das pessoas moram em ruas arborizadas. Quando eu penso nesse dado, eu volto automaticamente para dentro do Chevette, suando, reclamando, e meus pais tentando me distrair com música. Aquele calor não era só meteorológico, era estrutural.
E se a gente olha apenas para a população que se declarou preta vivendo em favelas, o número é ainda mais cruel: 68% vivem em trechos sem árvores; só 9,4% têm acesso a uma rua com cinco ou mais árvores. Na prática, isso significa que a cor da pele ajuda a definir a sensação térmica da vida. A minha memória confirma o que os dados descrevem: a cada quilômetro que a gente avançava em direção a Piedade, o mundo parecia ficar menos verde, mais duro, mais quente.
Do alto da laje dos meus tios, onde eu subia para ver meus primos soltarem pipa, eu avistava as montanhas ao longe. Na minha cabeça, montanha era só montanha. Mas hoje eu sei que, cercados por relevos, concreto e pouca ventilação, muitos bairros periféricos acumulam calor, verdadeiras ilhas térmicas. Nada disso é por acaso. Assim como não é acaso o fato de que nas maiores favelas do país menos de 20% dos moradores vivam em ruas com calçada, e que apenas 3,8% tenham calçadas sem obstáculos. Fora dessas áreas, esse número sobe para 22,4%. Quem mora em favela não tem só menos sombra. Tem menos infraestrutura, menos circulação de ar, menos investimento público, menos chance de escapar do calor extremo que a mudança climática intensifica.
Dentro da casa dos meus tios, a cena que nunca esqueci é a do freezer enferrujado, preso com corrente e cadeado porque a porta não fechava direito. Era ali que ficavam as carnes do churrasco do domingo. A gente abria rápido, para não perder o frio, e eu sempre passava a mão no gelo para me refrescar por um segundo. Aquilo, que para mim era quase brincadeira, hoje eu entendo como parte da pobreza energética: famílias negras de baixa renda usando a energia elétrica prioritariamente para garantir comida conservada porque não podem correr o risco de perder alimentos. Um estudo do Instituto Pólis mostra exatamente isso: para famílias com até dois salários mínimos, a geladeira é o principal motivo do consumo de energia, e isso revela risco direto de insegurança alimentar.
E se a energia já era pouca, a luz caindo no verão era quase tradição. Eu adorava porque significava brincar no escuro com vela, pique-esconde mais emocionante, gargalhada pela casa. Mas a verdade é que a interrupção constante do serviço sempre foi parte da rotina dos subúrbios. Hoje sei que no Rio apenas 41% dos domicílios em favelas têm iluminação pública no entorno e só 67% recebem energia de distribuidora com medidor próprio. Os outros 33% dependem de ligações de outras fontes, improvisadas, inseguras e instáveis. A infância romantiza o que a estrutura precariza.
Com o tempo, eu entendi que não era só calor ou falta de luz. Era economia. Era desigualdade. Era política. E os dados mais recentes reforçam o que o meu corpo aprendeu cedo: mulheres negras de baixa renda pagam proporcionalmente muito mais pela energia do que homens brancos de renda alta. Uma mulher negra de renda média chega a comprometer mais de 13% da renda mensal quando a bandeira tarifária está no nível vermelho mais alto. Um homem branco de renda alta, vivendo em áreas mais frescas, arborizadas e ventiladas, dificilmente ultrapassa 7%. E, mesmo assim, são as mulheres negras que não conseguem reduzir consumo, porque não há de onde cortar: ventilador, luz, geladeira. Tudo já está no mínimo vital. Enquanto isso, as famílias de alta renda têm margem para adaptar o uso sem perder conforto.
Quando penso nisso, volto àquele momento em que eu, criança, atravessava do terceiro melhor IDH da cidade para o quinquagésimo quarto e o calor parecia me empurrar para dentro de uma verdade silenciosa: a desigualdade tem temperatura. Tem paisagem. Tem cor. Não é coincidência que as áreas menos arborizadas do país sejam justamente onde vive a maior parte da população negra. Isso tem nome. Isso é racismo ambiental.
E, do lado da energia, outra palavra se impõe: injustiça. Porque o mecanismo das bandeiras tarifárias, criado para repassar aos consumidores os custos de termelétricas acionadas em períodos de seca e calor extremos, penaliza mais justamente quem menos consome e quem mais sofre com os efeitos da mudança climática. É como se os pobres pagassem para que o sistema elétrico sobreviva, enquanto grandes consumidores do mercado livre, mais ricos, continuam isentos.
Eu nasci e cresci dentro desse sistema sem saber que ele existia. A maioria de nós nasce assim: sentindo no corpo antes de entender no caderno. A gente aprende cedo o medo de cortarem a luz, o cuidado para não abrir tanto a geladeira, o banho que precisa ser rápido, o ventilador que precisa funcionar, a casa que esquenta porque não tem árvore, o ônibus que parece uma estufa, a rua que ferve porque não tem sombra.
Quando cresce, estuda, lê, pesquisa, nomeia e tudo ganha sentido. A menina de sete anos que derretia no Chevette só não sabia explicar. Mas ela já sabia.
Porque é assim que o racismo ambiental age: primeiro no corpo, depois nos livros. E é assim que a pobreza energética marca a vida periférica: como um conceito que a gente vive muito antes de aprender.