A história do Mart Minas não é apenas a narrativa de uma rede de supermercados que deu certo; é o registro de uma transformação estrutural no consumo de Minas Gerais. O que nasceu em 2001, em Divinópolis, como uma operação regional de nicho, evoluiu para se tornar a maior força do atacarejo mineiro e um dos players mais eficientes do Brasil.
Ao analisarmos a densidade dessa trajetória, percebemos que o sucesso da companhia repousa sobre um tripé estratégico: a inspiração em modelos globais de eficiência, a profunda conexão com a geografia mineira e uma disciplina operacional que transforma centavos em bilhões.
A gênese: de Divinópolis para o mundo
A fundação do Mart Minas por Murilo Martins Amaral há 25 anos foi precedida por um período de estudo intenso. Amaral não buscava apenas abrir mais um “depósito” de mercadorias; ele mirava referências internacionais de alto desempenho, como a gigante americana Costco.
O objetivo era importar a lógica do membership club e do hard discount, adaptando-a à cultura brasileira. A premissa era a simplicidade poderosa: escala máxima, custo mínimo e uma proposta de valor clara onde o cliente percebe a vantagem financeira imediata ao aumentar o volume da compra. Essa clareza conceitual permitiu que, em apenas oito anos, a rede já estivesse consolidada e expandindo para outras quatro cidades mineiras.
O DNA mineiro como vantagem competitiva
A expansão do Mart Minas é um reflexo fiel da complexidade de Minas Gerais. Com um território vasto e um consumo extremamente pulverizado, o estado exige uma logística descentralizada e resiliente.
O diferencial da rede foi entender que o “mineiro” valoriza relações baseadas em confiança e prudência financeira. Enquanto grandes redes nacionais tentavam impor modelos padronizados vindos de São Paulo, o Mart Minas construiu uma identidade regional, respeitando as distâncias e as particularidades de cada praça do interior antes de, finalmente, enfrentar o desafio da capital.
A conquista de Belo Horizonte e o salto de maturidade
A entrada no mercado de Belo Horizonte marcou o momento de maior tensão e transformação na história da empresa. Competir diretamente com players globais e nacionais na região metropolitana exigiu que o Mart Minas abandonasse qualquer resquício de amadorismo familiar para adotar uma governança corporativa rígida.
Nesta fase, a sociedade com Rono Neves foi fundamental para acelerar o ritmo de expansão. A empresa passou por um processo profundo de profissionalização, envolvendo:
- Consultorias especializadas: Para refinar processos logísticos e financeiros.
- Planejamento estratégico: Definição de metas de longo prazo que iam além da simples abertura de lojas.
- Sucessão e liderança: Preparação de uma nova geração de gestores capazes de sustentar o crescimento.

A Era das aquisições e a consolidação nacional
A década de 2020 consolidou o Mart Minas não apenas como um líder estadual, mas como um consolidador de mercado. Dois movimentos recentes ilustram essa agressividade estratégica:
- Dom Atacadista (Rio de Janeiro): A aquisição de 50% do capital da empresa fluminense marcou a saída do grupo do território mineiro, levando sua expertise operacional para um dos mercados mais competitivos do país.
- Apoio Mineiro: A compra estratégica de unidades da rede Apoio Mineiro reforçou a capilaridade do grupo em áreas onde a concorrência era mais acirrada, eliminando sobreposições e ganhando ainda mais escala de compra.
A operação: onde “cada centavo conta”
Na densidade narrativa da Mart Minas, a palavra de ordem é disciplina operacional. Em um setor onde as margens de lucro são extremamente apertadas (frequentemente abaixo de 3%), a eficiência não é um bônus, é a condição de existência.
- Padronização: As lojas seguem um modelo rigoroso de layout e sortimento, o que facilita a reposição e reduz o erro humano.
- Tecnologia com Propósito: Ao contrário de empresas que buscam inovação por “moda”, o Mart Minas aplica inteligência artificial e automação apenas onde há ganho real de produtividade.
- Combate ao Desperdício: A cultura da empresa é avessa a gastos supérfluos, mantendo uma estrutura administrativa enxuta para garantir o preço baixo na ponta.
Impacto socioeconômico e futuro
O impacto do Mart Minas na economia produtiva é mensurável em números monumentais. Com a projeção de atingir R$ 16 bilhões em faturamento em 2026 e operar mais de 110 lojas, o grupo torna-se um dos maiores empregadores de Minas Gerais.
Além do aspecto financeiro, a rede institucionalizou o “Troco Solidário” e outros projetos de apoio cultural e esportivo, reforçando o compromisso com as comunidades onde atua. O legado que Murilo Martins Amaral busca deixar é o de uma organização ética e perene, capaz de sobreviver às instabilidades do mercado brasileiro através da entrega constante de valor ao consumidor.
Nesta entrevista exclusiva para a série Brasil Produtivo, Murilo Martins Amaral conversou com o presidente do Mercado&Opinião, Marcos Koenigkan, para detalhar como a disciplina operacional mineira e o foco incessante na produtividade sustentam um império onde “cada centavo conta”. Confira:
Marcos Koenigkan: qual é a origem da empresa e como você chegou à liderança do negócio?
Murilo Martins Amaral: Eu fundei o Mart Minas há 25 anos, em Divinópolis, com uma visão muito clara: trazer para Minas Gerais um modelo inspirado em referências internacionais que eu estudava profundamente, como a Costco. Com uma lógica simples e poderosa — quanto mais o cliente compra, melhor é a condição, e ele precisa sair da loja com a sensação de que fez um excelente negócio. Desde o início, construímos a empresa com foco em escala, eficiência e preço competitivo.
Marcos Koenigkan: Quais foram os momentos mais decisivos na construção ou transformação da companhia ao longo dos anos?
Murilo Martins Amaral: A vinda para Belo Horizonte foi um dos momentos mais desafiadores e estratégicos da nossa trajetória. Entramos para competir diretamente com grandes players nacionais, o que exigiu ganho de escala, eficiência e maturidade de gestão. A sociedade com Rono Neves trouxe um ritmo mais acelerado de expansão e consolidou nossa presença no estado.
Outros marcos relevantes foram a aquisição do Dom Atacadista e, mais recentemente, a compra das lojas que pertenciam ao Apoio Mineiro — movimentos que fortaleceram nossa posição e ampliaram nossa capilaridade. Paralelamente, investimos fortemente na profissionalização da empresa, com consultorias especializadas, governança estruturada, planejamento estratégico claro, sucessão em pauta e formação de lideranças preparadas para a transformação do negócio.
Marcos Koenigkan: Qual foi a sua principal contribuição desde que assumiu?
Murilo Martins Amaral: Dedicação diária ao negócio, acompanhamento próximo da operação e clareza na definição de papéis. Sempre acreditei que crescimento sustentável exige disciplina, alinhamento e responsabilidade individual bem definida. Nossa evolução é resultado de constância e foco.
Marcos Koenigkan: Quais valores definem a cultura da empresa?
Murilo Martins Amaral: Amamos o que fazemos. Atendemos a todos como clientes. Temos agilidade e disciplina nas rotinas. Evitamos desperdícios. Esses valores não estão apenas no discurso — estão na operação diária, nas decisões de investimento e na forma como nos relacionamos com funcionários, fornecedores e clientes.
Marcos Koenigkan: O que significa liderar um grande grupo empresarial no Brasil de hoje?
Murilo Martins Amaral: Liderar no Brasil exige resiliência. Vivemos desafios constantes relacionados a mão de obra, complexidade tributária, ambiente político e instabilidade econômica. Além disso, temos o compromisso com o abastecimento — especialmente em um setor essencial como o alimentar. Ser líder hoje significa equilibrar crescimento com responsabilidade social, geração de empregos e manutenção da competitividade em um ambiente de alta pressão.
Marcos Koenigkan: Quais são hoje os maiores desafios e oportunidades do seu setor?
Murilo Martins Amaral: Os maiores desafios são a pressão de margens, o custo logístico elevado, a carga tributária complexa e um consumidor cada vez mais sensível a preço. Por outro lado, o atacarejo ainda apresenta grande potencial de expansão. O brasileiro busca eficiência na compra, e o formato atende tanto o consumidor final quanto pequenos comerciantes. A oportunidade está em ganhar produtividade e ampliar presença regional com disciplina.
Marcos Koenigkan: O que o Brasil faz bem na economia produtiva, mas ainda recebe pouco reconhecimento?
Murilo Martins Amaral: O varejo alimentar brasileiro é extremamente eficiente. Operamos com margens apertadas, alta carga tributária e desafios logísticos relevantes, mas ainda assim conseguimos abastecer o país com competitividade. A capacidade de adaptação do empreendedor brasileiro é um diferencial que muitas vezes não recebe o devido reconhecimento.
Marcos Koenigkan: Como sua empresa está incorporando inovação e tecnologia?
Murilo Martins Amaral: Temos investido fortemente em melhoria de processos, sistemas integrados de gestão e inteligência artificial. Para nós, inovação precisa gerar produtividade. Tecnologia que não melhora processo ou resultado não faz sentido.
Marcos Koenigkan: Que movimentos de futuro são inevitáveis para o setor?
Murilo Martins Amaral: O futuro do varejo passa pelo básico bem feito. Antes de qualquer tendência sofisticada, é fundamental ter operação eficiente. Ao mesmo tempo, veremos maior uso de dados, automação, integração de canais e consolidação do setor. A escala continuará sendo determinante para competitividade.
Marcos Koenigkan: Que legado você deseja deixar?
Murilo Martins Amaral: Quero deixar uma empresa sólida, preparada para as próximas décadas, com governança estruturada e lideranças capacitadas. Mais do que números, o legado está na construção de uma organização ética, que gera oportunidades, desenvolve pessoas e contribui para o crescimento de Minas Gerais e do Brasil.
Marcos Koenigkan: Quais as expectativa de faturamento para 2026?
Murilo Martins Amaral: O Mart Minas e o Dom Atacadista projetam faturamento de aproximadamente R$ 16 bilhões para 2026 com mais de 110 lojas em operação. Hoje, contamos com milhares de colaboradores diretos e uma ampla rede de empregos indiretos ao longo da cadeia produtiva.
Marcos Koenigkan: Quais decisões permitiram ganhar escala e rentabilidade?
Murilo Martins Amaral: Disciplina na expansão, padronização de lojas, negociação estratégica com fornecedores e controle rigoroso de despesas. No atacarejo, cada centavo conta. Sortimento assertivo, giro alto e estrutura simplificada são fundamentais para proteger margem em um ambiente competitivo.
Marcos Koenigkan: Como o DNA mineiro influenciou o modelo do Mart Minas?
Murilo Martins Amaral: Minas Gerais tem consumo pulverizado, grandes distâncias e forte característica regional. O DNA mineiro também traz relações baseadas em confiança, visão de longo prazo e prudência financeira — elementos que fazem parte da nossa identidade empresarial.
Marcos Koenigkan: Onde o Mart Minas executa melhor que a média?
Murilo Martins Amaral: Na disciplina operacional. Controle de estoque, abastecimento, precificação, padronização e acompanhamento próximo da operação são diferenciais claros. No nosso setor, execução é tudo.
Marcos Koenigkan: Como avaliar tendências sem perder foco no core?
Murilo Martins Amaral: Toda nova tendência passa por uma pergunta simples: melhora eficiência e vendas? Digitalização, meios de pagamento e uso de dados são importantes, mas não substituem o básico. A inovação entra para fortalecer esse modelo — não para desviá-lo.
Acesse outras reportagens e os ebooks da série Brasil Produtivo no site: www.brasilprodutivo.com.br