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Mulheres avançam no protagonismo de negócios no Brasil

Imagem da plenário do CMEC 2025. Protagonismo feminino crescente em destaque
Dados do Brasil e do mundo mostram avanço recorde do empreendedorismo feminino, mas também evidenciam barreiras de renda, acesso a crédito e presença em espaços de decisão.

O empreendedorismo feminino no Brasil deixou de ser estatística de nicho para se tornar um pilar da economia real. Em 2024, o país registrou 10,35 milhões de mulheres donas de negócio, um recorde histórico segundo estudo do Sebrae, com as empreendedoras respondendo por 46,8% dos empreendedores iniciais – a maior taxa desde 2019. 

Ao mesmo tempo, persiste uma contradição conhecida: negócios liderados por mulheres faturam, em média, 24,4% menos que os comandados por homens, e empresas chefiadas por elas ainda são minoria entre empregadores formais. Esse avanço com freios estruturais é o ponto de partida para entender por que datas como o Dia do Empreendedorismo Feminino, celebrado no último dia 19 de novembro em mais de 140 países, vêm ganhando relevância: elas funcionam como lembrete de que protagonismo não se mede só em CNPJs, mas em condições concretas de poder, renda e influência.

No Brasil, essa discussão tem ganhado rosto, palco e agenda organizada. O 2º Congresso da Mulher Brasileira, realizado em novembro no Teatro Bradesco e promovido pelo Instituto Vasselo Goldoni (IVG), é um exemplo eloquente. Mais de 1.900 participantes se reuniram para debater autonomia econômica, inteligência artificial, inclusão produtiva, saúde social e liderança, sempre com a equidade de gênero no centro. 

A organização, fundada em 2017, já impactou dezenas de milhares de mulheres com programas como o Nós por Elas (o maior programa gratuito de mentoria feminina do país), o Semeando Pérolas (focado em autoestima e saúde emocional) e o Carreira 50, voltado à recolocação e ao empreendedorismo de mulheres maduras. Em um país em que as empreendedoras são, em média, mais escolarizadas – 72,4% têm ensino médio completo e quase 29% possuem ensino superior – mas ainda ganham menos, iniciativas de formação e rede deixam de ser “adicionais” e passam a ser infraestrutura de competitividade.

Outro evento de destaque foi o CMEC – Liberdade para Empreender, coordenado por Ana Claudia Badra, que reuniu empresárias, lideranças setoriais e especialistas para discutir os desafios e oportunidades do empreendedorismo feminino no Brasil, com foco em autonomia econômica, ambiente de negócios e políticas de incentivo. O encontro destacou a importância de fortalecer redes de apoio, ampliar o acesso a crédito e reduzir barreiras estruturais que ainda limitam a atuação das mulheres no mercado. Sob a condução de Ana Claudia, o evento reforçou a necessidade de uma agenda contínua que una capacitação, representatividade e protagonismo feminino na economia.

A reportagem da GZM explorou a trajetória de uma executiva que pode ser considerada como exemplo de ascensão e protagonismo. Adriana Melo, CFO da SAS Brasil e empreendedora à frente da fazenda @casatout e de projetos de mentoria financeira, nos ajuda a ilustrar a densidade desse protagonismo. Com mais de 20 anos em empresas como Fiat, Votorantim, Ferrero e Gartner, Adriana fez da transição constante sua escola de liderança: sair de Curitiba para São Paulo, trocar uma empresa de dono – onde estava realizada – por uma multinacional americana de capital aberto, assumir reportes 100% em outra língua e conviver com uma margem mínima para erros. 

Adriana Melo, CFO da SAS Brasil e especialista em finanças e tributação: “O maior crescimento sempre veio do desconforto”.

Hoje, ao conciliar o mundo corporativo com o campo e a mentoria, Adriana traduz em prática o que muitas pesquisas mostram em teoria: mulheres estão cada vez mais presentes tanto no topo de estruturas tradicionais quanto criando seus próprios caminhos de negócio – formais ou híbridos, analógicos e digitais.

E Adriana traz uma chave ainda pouco comum ao debate: a centralidade das finanças no desenho de projetos de vida e de empresa. Em vez de tratar números como obstáculo, ela os entende como ponto de partida para a liberdade. Nas mentorias, observa que muitas empreendedoras brilhantes travam quando precisam encarar fluxo de caixa, margem ou imposto; no campo, com a @casatout, finanças significam ciclos longos e sustentabilidade; no mundo corporativo, clareza para decidir sob pressão. 

Essa visão dialoga com relatórios internacionais: o GEM Women’s Entrepreneurship Report 2024/2025 mostra que, em 51 países, mulheres empreendedoras tendem a priorizar sustentabilidade, impacto social e modelos de negócio mais resilientes a longo prazo – mas ainda enfrentam alto medo de falhar e barreiras de acesso a capital. Para Adriana, “números não aprisionam; eles permitem ousar com base”. É o oposto da velha narrativa de que finanças “não são para mulheres”: aqui, elas são condição para que autonomia não vire apenas romantização de sobrecarga.

E a cena brasileira se encaixa em um quadro global de expansão. Dados do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) indicam que, em 2024, uma em cada dez mulheres no mundo iniciou um novo negócio, contra um em cada oito homens, com as taxas mais altas de intenção empreendedora justamente na América Latina, Caribe e países de baixa renda. Em 19 dos 47 países analisados, as taxas de startup femininas cresceram entre 2023 e 2024, com saltos expressivos em economias como Jordânia e Marrocos. 

Quase um terço dos donos de negócios estabelecidos já são mulheres, e em 18 dos 51 países mapeados elas aparecem em paridade ou à frente dos homens quando o recorte é de negócios inovadores ou com novos produtos no mercado. O Brasil figura entre os dez países com maior proporção de mulheres empreendedoras, segundo o GEM, mas compartilha com seus pares latino-americanos um padrão: alto dinamismo, muita criatividade – e uma dependência ainda forte de empreendimentos por necessidade, em ambientes marcados pela informalidade.

Por trás dessa potência, no entanto, há um gargalo global bem definido: dinheiro. Relatórios da International Finance Corporation (IFC) e do Banco Mundial estimam que o “buraco” de crédito para pequenas e médias empresas lideradas por mulheres chegue a US$ 1,5 trilhão no mundo, correspondendo a cerca de 30% de todo o gap de financiamento para PMEs. A OECD, em estudo recente, aponta que, nas economias avançadas, mulheres são cerca de 25% menos propensas que homens a financiar seus negócios com empréstimos bancários e lançam empresas com volumes de capital significativamente menores. 

No alto crescimento, o cenário é ainda mais assimétrico: relatórios compilando dados de venture capital mostram que empresas lideradas por mulheres recebem algo em torno de 2% do volume total de investimento em muitos mercados, apesar de serem responsáveis por uma fatia crescente de startups tecnológicas e orientadas à exportação.

No Brasil, essa desigualdade aparece em duas camadas. A primeira é a renda: empresas lideradas por mulheres faturam, em média, 60% menos que aquelas comandadas por homens, segundo dados apresentados no âmbito do G20 pelo Sebrae; paradoxalmente, as empreendedoras são, em média, 22% mais qualificadas que seus pares masculinos. A segunda é o acesso a mercados mais sofisticados: apenas 14% das empresas exportadoras brasileiras pertencem a mulheres, o que indica o quanto ainda há de caminho a percorrer na inserção internacional. Somam-se a isso as barreiras invisíveis: tempo reduzido para se dedicar ao negócio em função da dupla ou tripla jornada, redes de relacionamento mais restritas e vieses culturais que ainda associam “grandes decisões” e “assunção de risco” à figura masculina.​

É justamente por isso que ambientes como o 2º Congresso da Mulher Brasileira ganham tanta relevância. As falas de lideranças como Ana Paula Padrão, Lorice Scalise (Roche), Carolina Ignarra, Mafoane Odara e Glaucimar Peticov vão na mesma direção: protagonismo exige intencionalidade, e inclusão não acontece por inércia. Na fala de Edna Vasselo Goldoni, presidente do IVG, “o Congresso da Mulher Brasileira é, acima de tudo, um chamado à união. Quando mulheres se unem, suas vozes ganham força, transformam realidades e constroem pontes para um futuro mais justo. Acreditamos no poder coletivo como caminho para a verdadeira transformação social”, destacou.

Quem está acompanhando essa trajetória é o empresário e mentor Paulo Motta, fundador da Agência Blays, da The Networkers Club e da IMvester, para quem a força das mulheres no empreendedorismo não está apenas nos números: “A mulher empreendedora traz uma visão multifacetada, que combina sensibilidade, análise de risco e execução com precisão. Ela pensa o negócio de forma integrada, com foco em resultado, mas também em propósito”, afirma.

Motta observa que essa combinação se reflete diretamente na inovação. Startups e pequenas empresas fundadas por mulheres tendem a apresentar modelos mais adaptáveis, gestão de pessoas mais estruturada e maior fidelização de clientes. “Elas reagem mais rápido às mudanças do mercado e transformam desafios em oportunidades. É uma mentalidade de construção, não de disputa”, destaca.

Um exemplo disso foi o recente encontro promovido por Rafaella Viscardi, representada pela Agência Blays, que reuniu nomes como Cris Arcangeli, Milene Domingues, Zulmira Monteiro e Adriana Restum, como um retrato da potência feminina em diferentes esferas. “Ver tantas mulheres inspirando e liderando conversas sobre protagonismo e inovação é um sinal claro de que o mercado está mudando. Essas conexões fortalecem o ecossistema e mostram o quanto o olhar feminino é essencial para o futuro dos negócios”, destaca Rafaella, que é Coreógrafa do SBT e atua no posicionamento e presença das mulheres no mercado. Acesse o vídeo do evento na plataforma Instagram  neste link: https://www.instagram.com/p/DQnfMCNDE8k/

É nesse tabuleiro que histórias como a de Adriana Melo ganham contornos pedagógicos. Quando ela diz que “empreender exige aprender a vender e a se vender” e que intraempreendedorismo é tão crucial quanto abrir o próprio CNPJ, ela toca em um ponto sensível: muitas mulheres constroem carreiras sólidas em backoffice – finanças, jurídico, operações – e só depois percebem que precisam aparecer, negociar, ocupar palco. O movimento que hoje se vê no Brasil – com CFOs, advogadas, executivas de RH e especialistas em tecnologia convertendo expertise técnica em mentorias, consultorias, negócios digitais, projetos no campo ou na economia criativa – é sintoma de um país que começa a valorizar trajetórias múltiplas. A Faria Lima e o interior de Minas, para usar a imagem de Adriana, podem caber na mesma biografia.

Comparado a outras regiões, o Brasil está menos atrasado do que supõe o pessimismo crônico – e mais pressionado do que indicam as celebrações apressadas. O relatório de empreendedorismo feminino do GEM destaca a América Latina como uma das regiões com maiores taxas de intenção empreendedora feminina, mas também alerta para o peso da informalidade e da motivação por necessidade. 

Em países africanos como Nigéria, Quênia e África do Sul, por exemplo, mulheres lideram uma parcela altíssima de negócios em varejo, agro e serviços, utilizando soluções digitais e dinheiro móvel para contornar barreiras de infraestrutura – mas esbarram em restrições de crédito e proteção social semelhantes às brasileiras. Na Europa e na OCDE, a participação de mulheres na fase de startup é menor (cerca de 9% das mulheres em idade ativa tocando novos negócios, contra 11% dos homens), porém com maior presença em segmentos de alta inovação e exportação, onde há mais instrumentos de financiamento e apoio estruturado.

Se há um fio condutor entre todas essas geografias, ele passa pela combinação entre redes de apoio e desenho de políticas públicas. A UNDP vem reforçando, em pronunciamentos no Dia do Empreendedorismo Feminino, que investir em mulheres é uma das estratégias com melhor retorno econômico e social: negócios liderados por elas tendem a criar empregos em suas comunidades, estabilizar cadeias locais e reinvestir renda em educação e saúde. 

A IFC chega à mesma conclusão ao falar em “oportunidade de negócios para instituições financeiras” ao desenvolver produtos específicos para PMEs lideradas por mulheres, considerando o crédito hoje negado como mercado potencial e não como risco intransponível. Para o Brasil, onde Sebrae, bancos públicos e programas como o Sebrae Delas já começam a mapear e atacar essas lacunas, o desafio é acelerar escala e coordenação, evitando a dispersão de iniciativas.

No plano micro, a lição que se repete nos depoimentos de Adriana Melo e nas sessões do Congresso da Mulher Brasileira é direta: autonomia financeira é pré-condição para autonomia de escolhas, e finanças bem cuidadas são aliadas, não vilãs. A recomendação de Adriana para quem quer construir carreira sólida sem abrir mão de propósito e equilíbrio é quase um manifesto de gestão de risco pessoal: construir base financeira, escolher movimentos de carreira com intencionalidade e manter espaço para projetos que tragam sentido – do negócio na cidade ao sonho no campo. Quando isso se combina com redes como as criadas pelo IVG, com mentorias em larga escala e programas que cruzam gerações, o protagonismo feminino deixa de ser exceção heroica e começa a ganhar contornos de política de desenvolvimento.

Ao olhar para o conjunto – dados nacionais, referência internacional e histórias concretas – o quadro é claro: as mulheres já são protagonistas de uma fatia decisiva dos negócios no Brasil e no mundo; o que falta é que o sistema econômico, financeiro e institucional reconheça, finance e proteja esse protagonismo na mesma proporção. 

O Dia do Empreendedorismo Feminino, as premiações do Sebrae, os congressos como o do IVG e as trajetórias de líderes como Adriana Melo são marcos de um movimento que não volta atrás. A questão, daqui em diante, não é se as mulheres vão liderar mais negócios – isso já está em curso –, mas quão rápido conseguiremos alinhar acesso a crédito, redes, cuidados e reconhecimento ao tamanho dessa força. O futuro da economia brasileira passa, inevitavelmente, pela capacidade de transformar o talento feminino em poder de decisão, e não apenas em resistência silenciosa.

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