Em um cenário de crescentes alertas sobre a escassez de água, a indústria tem um papel fundamental na busca por soluções sustentáveis. E a Nutribras Alimentos, uma das maiores empresas do setor de proteína animal em Mato Grosso, divulgou uma iniciativa que se destaca ao provar que é possível aliar alta produção com responsabilidade ambiental, reciclando e reutilizando 100% da água que consome em suas operações.
A empresa, localizada em Sorriso (MT), foi o principal destaque do II Seminário Regional de Recursos Hídricos, que reuniu representantes da sociedade civil, poder público e setor produtivo para debater a gestão hídrica. A Nutribras apresentou seu modelo inovador, mostrando como a indústria pode ser parte da solução para a crise hídrica.
Durante o seminário, o engenheiro de segurança do trabalho e de meio ambiente da Nutribras, Júnior Martins, detalhou o funcionamento do sistema da empresa, que investiu R$ 773 mil no último ano em sistemas de tratamento e medição de consumo hídrico.
“O frigorífico produz, capta, trata e consome toda a água utilizada no processo produtivo”, explicou Martins. O sistema de tratamento, que utiliza sete lagoas com etapas específicas, garante que a água descartada no rio Tenente Lira atenda a todos os padrões ambientais.
Nas fazendas, o modelo é ainda mais sustentável: o efluente gerado na suinocultura é tratado e reaproveitado através da fertirrigação, um processo em que 20% de biofertilizante é misturado com 80% de água limpa para irrigar as lavouras. “Isso fecha um ciclo virtuoso que alia produção agropecuária e preservação ambiental”, reforçou o engenheiro.
Exemplo para o setor
O modelo da Nutribras foi elogiado por autoridades presentes no evento, como Jorge Muller, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) dos Afluentes da Margem Direita do Alto Teles Pires. Para ele, a atuação da empresa é a prova de que a preservação é compatível com o desenvolvimento econômico. “Se todas as indústrias seguissem esse modelo, o cenário hídrico do país seria muito mais promissor”, afirmou.
Paulo Bellicanta, presidente do Sindicato das Indústrias Frigoríficas de Mato Grosso (Sindifrigo), destacou que a Nutribras rompeu com antigos paradigmas do setor, tornando-se referência em boas práticas. “Durante muito tempo, se acreditou que uma indústria frigorífica, por consumir tanta água, não conseguiria adotar esse tipo de prática. Mas a Nutribras provou que é possível”, disse Bellicanta.
Já Eliel Ferreira, analista da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema), reforçou que empresas que se comprometem com a racionalização e o reuso da água não apenas garantem sua operação futura, mas também a qualidade de vida das próximas gerações. Já Arthur Paro, da Águas de Sorriso, enfatizou que o reuso industrial alivia a pressão sobre mananciais essenciais para o abastecimento humano, especialmente em períodos de seca.
O compromisso da Nutribras com a sustentabilidade se alinha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 6.3 (qualidade da água e redução da poluição) e 6.4 (uso eficiente da água em todos os setores). A empresa planeja continuar investindo na modernização de seus sistemas, garantindo um futuro mais sustentável para a indústria e a sociedade.
A GZM conversou com Fábio Junior Alves de Sousa, supervisor de meio ambiente da Nutribras Alimentos, para saber mais detalhes da iniciativa da empresa. Confira:
GZM: A Nutribras afirma reutilizar 100% da água utilizada em suas operações. Qual foi o maior desafio para implantar esse modelo de reuso completo e como ele se tornou viável em termos econômicos e operacionais?
Fábio: Reutilização de 100% da água: O maior desafio foi estruturar um sistema robusto que garantisse qualidade no tratamento da água para reuso, sem comprometer a segurança operacional nem a eficiência das atividades. Para isso, adotamos a fertirrigação como uma das principais soluções, aproveitando os efluentes tratados na irrigação e adubação das lavouras nas propriedades da empresa. Essa prática permite o fechamento do ciclo da água e dos nutrientes, garantindo destinação eficiente e segura. A viabilidade econômica se concretizou com a redução expressiva no consumo de água potável, diminuição de custos com fertilizantes, menor necessidade de descarte de efluentes e melhorias na imagem institucional, além de fortalecer os compromissos ESG da empresa.
GZM: O sistema de fertirrigação nas fazendas evita o lançamento de efluentes em corpos hídricos. Como essa solução se integra ao modelo de produção agropecuária da empresa e que ganhos ambientais e produtivos ela trouxe?
Fábio: Fertirrigação e ganhos ambientais/produtivos: A fertirrigação transformou o efluente tratado em um insumo agrícola, fechando o ciclo da água e dos nutrientes. Essa solução está totalmente integrada ao modelo de produção agropecuária da Nutribras, com benefícios como menor dependência de fertilizantes químicos, aumento da matéria orgânica no solo e eliminação de riscos de contaminação de corpos hídricos. Como resultado, tivemos um aumento na produtividade agrícola, redução de custos e ganhos ambientais significativos.
GZM: A participação ativa em comitês de bacias hidrográficas mostra um engajamento institucional com a governança da água. De que forma essa atuação influencia as decisões estratégicas e o relacionamento com a sociedade civil e o poder público?
Fábio: Participação em comitês de bacia: A atuação em comitês fortalece o diálogo com diversos atores – setor público, sociedade civil, instituições de ensino e demais empresas – e permite à Nutribras alinhar-se e participar das políticas de governança hídrica da região. Essa participação contribui para decisões estratégicas mais embasadas e fortalece o compromisso da empresa com a gestão sustentável dos recursos hídricos.
GZM: Com base nos compromissos com os ODS 6.3 e 6.4, quais indicadores a empresa adota para monitorar a eficiência no uso da água e como esses dados são utilizados para guiar melhorias contínuas?
Fábio: Indicadores e ODS 6.3 e 6.4: Monitoramos indicadores como volume de água captado, reutilizado, consumido por tonelada produzida e eficiência dos sistemas de reuso. Esses dados são avaliados periodicamente e direcionam ações de melhoria contínua, como otimização de processos, manutenção preditiva de equipamentos e revisão de parâmetros operacionais. O foco é evoluir constantemente em direção à eficiência máxima no uso da água.
GZM: Além do reuso da água, a Nutribras investe em tecnologias como geração de biogás e uso de biofertilizantes. Como essas frentes se conectam na construção de uma estratégia integrada de sustentabilidade e qual o próximo passo nessa jornada?
Fábio: Outras tecnologias sustentáveis e próximos passos: A Nutribras também investe em geração de biogás a partir de resíduos orgânicos e no uso de biofertilizantes, fortalecendo uma abordagem circular na gestão de recursos. Essas tecnologias se conectam à estratégia de sustentabilidade ao transformar passivos ambientais em ativos produtivos e energéticos. O próximo passo é ampliar essas iniciativas, integrar indicadores de desempenho ESG a todos os níveis da empresa e fortalecer parcerias voltadas à inovação ambiental.