O Brasil aprendeu, em menos de uma década, a depender dos entregadores de aplicativo para quase tudo: comida, remédio, mercado, documentos, pequenos consertos, qualquer necessidade que caiba numa mochila ou numa caixa nas costas. O que era um serviço “de conveniência” virou parte da infraestrutura invisível das cidades, a ponto de hoje ser difícil imaginar um grande centro urbano sem essa frota de motos e bicicletas cruzando avenidas e vielas. Por trás dessa nova engrenagem econômica, porém, está um exército de trabalhadores com renda instável, baixa proteção social e um esforço diário que, muitas vezes, mal permite atravessar a linha da pobreza.
Um estudo recente da Fundação Encuentro, divulgado pelo portal Notícia Preta, ajuda a tornar esse esforço mensurável. Por meio do chamado Coeficiente Médio de Alcance de Pedidos (APP), os pesquisadores calculam quantos pedidos um entregador precisa realizar para garantir o valor de uma cesta básica total para uma família de quatro pessoas. O resultado é chocante: é preciso completar mais de 15 pedidos por dia, todos os dias do mês, apenas para ultrapassar a linha da pobreza.
Na Argentina, onde o indicador foi desenvolvido, isso significou, em setembro de 2025, nada menos que 461 pedidos mensais para custear o básico. O cenário é diferente nos detalhes, mas semelhante na essência, quando comparado ao Brasil: um mercado dependente da precarização de uma força de trabalho majoritariamente masculina, negra, jovem e moradora das periferias urbanas.
A engrenagem econômica por trás da mochila
Os números dão dimensão do fenômeno. Segundo dados recentes do IBGE, o país tem cerca de 1,7 milhão de trabalhadores em plataformas digitais, incluindo motoristas e entregadores. Dentro desse universo, algo em torno de 450 a 500 mil pessoas atuam em serviços de entrega de comida e produtos, considerando entregadores ativos em grandes plataformas e outros aplicativos menores. Eles são responsáveis por manter vivo um ecossistema que envolve bares, restaurantes, supermercados, farmácias, cozinhas fantasma, dark stores e até lojas de bairro que migraram aceleradamente para o delivery durante e após a pandemia.
Em termos de renda, o quadro é paradoxal. O IBGE aponta que trabalhadores por aplicativo, em média, tiveram rendimento mensal ao redor de R$ 2.996 em 2024, valor ligeiramente superior à média dos demais ocupados (R$ 2.875). Quando se olha especificamente para entregadores, porém, a fotografia se deteriora: levantamento do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), mostra que, mesmo em jornadas de 40 horas semanais, os ganhos líquidos típicos ficam entre R$ 1.980 e R$ 3.039, já descontados custos com combustível, manutenção e tempo ocioso imposto pelos algoritmos. Para jornadas de 20 horas semanais, a renda estimada cai para algo entre R$ 807 e R$ 1.325.
Esses valores se aproximam perigosamente da linha da pobreza quando confrontados com o custo real de vida nas grandes cidades.
O indicador APP traduz essa vulnerabilidade em equivalências concretas: manter uma família de quatro pessoas exige, na referência argentina, 461 pedidos por mês; pagar um aluguel médio demanda 271 entregas; encher um tanque de gasolina equivale a apenas duas corridas. Em outras palavras, cada pedido é uma fração muito pequena da sobrevivência mínima, o que obriga o trabalhador a somar dezenas de viagens diárias para não ficar para trás.
Trabalho essencial, renda instável
Ao mesmo tempo em que são essenciais para a circulação de bens e para o conforto da classe média urbana, os entregadores se veem presos a um modelo de trabalho marcado por instabilidade e incerteza. O próprio Cebrap destaca que a renda dos entregadores varia intensamente de acordo com as horas de trabalho e, sobretudo, com os períodos de ociosidade definidos pelos algoritmos das plataformas, sobre os quais o trabalhador não tem controle. Esses algoritmos determinam quando aparecem corridas, quanto se paga por cada rota, quais áreas são priorizadas e como se distribuem bônus e promoções, tornando imprevisível a renda final do mês.
Estudos recentes mostram que, apesar do aumento do número de trabalhadores por aplicativo, a formalização permanece baixa. O Banco Central estima que o número de pessoas que atuam em plataformas cresceu 170% em dez anos, consolidando esse tipo de ocupação como uma das principais portas de entrada para o mercado de trabalho urbano.
No entanto, a ausência de piso remuneratório claro, de contribuição previdenciária consistente e de mecanismos robustos de proteção em caso de doença, acidente ou queda da demanda reforça o caráter de “amortecedor” social dessas atividades: são elas que absorvem, temporariamente, parte do desemprego estrutural brasileiro, especialmente entre jovens negros e moradores de periferia.
Não por acaso, pesquisas sobre o perfil dos entregadores apontam forte concentração de pessoas negras, com menor acesso a empregos formais, e uma percepção generalizada de discriminação e insegurança. O estudo citado pelo Notícia Preta enfatiza que, para muitos desses trabalhadores, o trabalho por aplicativo não é uma escolha vocacional, mas a alternativa encontrada frente a um mercado formal que segue fechado ou seletivo.
A vida calculada em pedidos
Quando um indicador como o APP diz que “um entregador precisa de 15 pedidos por dia para escapar da pobreza”, o que está em jogo não é apenas uma estatística: trata-se da redução da vida cotidiana a uma métrica dura de produtividade. Para chegar a essa conclusão, a Fundação Encuentro considera o valor da cesta básica total e o preço médio por entrega, desenhando um retrato em que cada corrida é, literalmente, um tijolo na construção da sobrevivência mensal.
No caso brasileiro, embora os valores absolutos mudem, a lógica permanece. A combinação de pagamento por corrida, custos crescentes de combustível, manutenção de moto ou bicicleta, alimentação e, muitas vezes, aluguel, exige jornadas longas para que o trabalhador consiga fechar as contas. Dias de chuva, greves, oscilações na demanda e mudanças na política de repasses das plataformas podem significar quedas abruptas de renda, sem qualquer colchão de proteção.
Essa dinâmica tem implicações econômicas e sociais importantes. Do lado macroeconômico, entregadores ajudam a sustentar o consumo urbano, especialmente em períodos de restrição de mobilidade ou renda; no entanto, o baixo nível de estabilidade financeira limita sua própria capacidade de consumo de longo prazo, travando potencial de poupança e investimento e reforçando ciclos de vulnerabilidade. Do ponto de vista social, a precariedade desse trabalho recai, com mais força, sobre grupos historicamente excluídos, aprofundando desigualdades raciais e territoriais.
A nova onda: Meituan, Keeta e a guerra bilionária do delivery
Enquanto a base de entregadores luta para somar pedidos suficientes para escapar da pobreza, o mercado em torno deles vive um boom inédito. Em 2025, a chinesa Meituan, maior empresa de delivery do mundo, iniciou sua ofensiva no Brasil por meio da marca Keeta, escolhendo o país como principal aposta fora da Ásia.
A empresa lançou um piloto em Santos e São Vicente em outubro, com cerca de 700 restaurantes cadastrados e mais de 2 mil entregadores treinados, e agora estreia oficialmente na capital paulista e em outras oito cidades da Grande São Paulo, com investimento inicial de R$ 1 bilhão e um plano total de até R$ 5,6 bilhões em cinco anos.
Na largada em São Paulo, a Keeta já chega com 27 mil restaurantes parceiros e quase 100 mil entregadores cadastrados, além de campanhas agressivas de cupons de até R$ 200 e frete grátis, desenhadas para capturar rapidamente participação de mercado de concorrentes como iFood, Rappi e 99Food. A lógica é clara: o Brasil é visto como o segundo maior mercado potencial da Meituan fora da China, com um setor de entrega de comida online que deve gerar receita de cerca de US$ 21,18 bilhões em 2025 e manter crescimento anual acima de 7% até o fim da década, segundo projeções de mercado.
Esse movimento não ocorre isoladamente. Apps de delivery investem pesado no país desde 2019, e o setor cresce acima de 30% ao ano em alguns recortes, impulsionado pela adesão maciça do consumidor à conveniência de pedir tudo pelo celular. Além da Keeta/Meituan, Rappi anunciou investimentos bilionários e programas de taxa zero para atrair pequenos e médios restaurantes; a 99Food, que chegou a sair do país, retornou com um plano robusto de isenção de taxas por vários meses; e o próprio iFood reforçou sua estratégia em tecnologia, IA e novos serviços após fechar acordo com o Cade que limitou contratos de exclusividade, abrindo espaço para mais concorrência.
Os números de mercado ajudam a dimensionar a oportunidade: o delivery de alimentos e bebidas no e-commerce faturou cerca de R$ 16 bilhões em 2024, alta de 18,4% sobre o ano anterior, e deve alcançar dezenas de bilhões de reais em GMV nos próximos anos, com previsão de que mais de 90 milhões de pessoas utilizem serviços de entrega até 2029. Em outras palavras, o Brasil se consolidou como um dos grandes laboratórios globais de plataformas de delivery, atraindo players internacionais, capital bilionário e disputas cada vez mais acirradas por atenção, dados e hábitos de consumo.
Para os entregadores, entretanto, a chegada de gigantes como a Meituan é ambivalente. De um lado, há a promessa de mais demanda, novos incentivos e, em alguns casos, programas específicos de benefícios — a Keeta, por exemplo, anunciou que pretende destinar R$ 100 milhões em benefícios para entregadores no Brasil, na tentativa de se diferenciar em um mercado altamente competitivo. De outro, o histórico global do setor mostra que guerras de tarifa e estratégias de subsídio costumam pressionar margens de restaurantes e aumentar a dependência de trabalhadores em relação aos algoritmos, sem garantia de melhora estrutural da renda.
O contraste é evidente: no topo, um boom de investimentos, projeções otimistas e planos de expansão bilionária; na base, a necessidade de pelo menos 15 pedidos por dia para escapar da pobreza e a constante ameaça de mudanças unilaterais nas condições de trabalho. Entre esses dois extremos, está o desafio brasileiro: transformar a explosão de valor econômico gerado pela economia de plataformas em melhoria real de vida para quem carrega, nas costas e sobre duas rodas, a infraestrutura invisível da conveniência.
O papel das plataformas e a disputa por narrativa
Enquanto esse novo ciclo de competição se consolida, plataformas de delivery exibem números robustos de crescimento, inovação e investimentos, reforçando a imagem de um setor “vencedor” da economia digital. Dados de associações do setor e estudos patrocinados por empresas como iFood indicam que a renda bruta de motoristas e entregadores cresceu cerca de 5% acima da inflação em um ano, com ganho médio por hora em torno de R$ 31, e jornada média aproximada de 39 horas mensais.
Esses dados são frequentemente usados como argumento de que as plataformas oferecem oportunidades de ganho acima da média e flexibilidade para os trabalhadores. Porém, estudos independentes do Ipea, do IBGE e de universidades públicas chamam atenção para outro lado da história: a renda média por hora pouco diz sobre a insegurança de quem não sabe se terá corridas suficientes no dia, nem sobre a ausência de garantias mínimas quando o algoritmo “esfria”.
Além disso, avaliações internacionais sobre condições de trabalho em plataformas no Brasil têm sido duras: há relatórios que atribuem notas baixas a grandes empresas de aplicativos em critérios como remuneração justa, contrato estável, transparência de algoritmos e direito à organização coletiva. Esse tipo de diagnóstico tensiona a narrativa corporativa e reaquece o debate sobre regulação, especialmente em um país com histórico de informalidade crônica.
Entre o amortecedor e a bomba-relógio
Do ponto de vista da economia nacional, o trabalho de entregadores por aplicativo cumpre um papel ambíguo. Por um lado, atua como amortecedor: absorve parte do contingente desempregado ou subocupado, garante algum nível de renda para milhões de famílias e sustenta um setor de serviços que se tornou vital no pós-pandemia – do restaurante de bairro à grande rede de varejo, passando por farmácias e mercados.
Por outro lado, a ausência de proteção e previsibilidade transforma essa base de trabalhadores em uma bomba-relógio social. A cada aumento de combustível, cada mudança unilateral nas tarifas pagas por corrida, cada crise econômica que reduza a demanda, o impacto se transfere quase integralmente para quem está “sob rodas e com uma caixa nas costas”. A exposição à violência urbana, a longas jornadas no trânsito, ao risco de acidentes e à discriminação racial adiciona camadas de vulnerabilidade que não aparecem nos balanços das empresas, mas se impõem no cotidiano das periferias.
Do ponto de vista de política pública, isso exige respostas em múltiplas frentes: debate estruturado sobre a regulação do trabalho em plataformas; criação de mecanismos de contribuição previdenciária simplificada e acessível; incentivos para que as empresas compartilhem parte do risco econômico; e, sobretudo, políticas amplas de emprego e educação que ofereçam alternativas a esses trabalhadores no médio e longo prazo.
O recorte racial e a urgência da justiça econômica
O estudo divulgado pelo Notícia Preta resgata um ponto fundamental: a cor e o CEP de quem carrega a economia nas costas. A força de trabalho das plataformas no Brasil e em outros países da América Latina é majoritariamente composta por homens negros, jovens, moradores das periferias, frequentemente com acesso limitado a empregos formais. Eles estão na linha de frente de um modelo de negócios que se beneficia da flexibilidade e da desconexão entre empresa e trabalhador, mas herdam o ônus da insegurança e da falta de direitos.
Nesse contexto, o APP é mais do que uma métrica econômica; é um instrumento político e simbólico que explicita o esforço necessário para “sair da pobreza” não como uma trajetória de carreira, mas como a soma exaustiva de entregas diárias. Ao vincular número de pedidos a metas concretas como pagar a cesta básica, o aluguel ou encher o tanque, o indicador torna palpável aquilo que, muitas vezes, fica escondido atrás de slogans sobre “empreendedorismo” e “flexibilidade”.
Para o Brasil, país que discute seriamente a agenda de diversidade, inclusão e combate ao racismo estrutural, ignorar esse recorte seria fechar os olhos para uma das frentes mais urgentes de justiça econômica. Se empresas e governos admitem que a população negra é desproporcionalmente representada nos trabalhos mais precários, então políticas de proteção, formação e mobilidade social precisam enxergar os entregadores como prioridade – não apenas como “conveniência” urbana.
Para onde vamos?
A economia por aplicativos não vai desaparecer; ao contrário, tende a se expandir, diversificar serviços e conectar ainda mais as rotinas das famílias, empresas e cidades. A questão central é sob quais regras e com que tipo de contrato social esse crescimento acontecerá. Do jeito que está, os ganhos de eficiência e comodidade são, em grande medida, financiados por jornadas extenuantes, instabilidade financeira e sobrecarga de riscos sobre quem pedala, dirige ou caminha com uma caixa nas costas.
O estudo da Fundação Encuentro, ao mostrar que um entregador precisa de mais de 15 pedidos por dia para ultrapassar a linha da pobreza, joga luz sobre uma realidade que a sociedade brasileira já não pode tratar como “efeito colateral” da inovação. Os entregadores de aplicativo não são uma nota de rodapé na economia digital: eles são parte central de uma nova infraestrutura de serviços, sem a qual o consumo urbano e boa parte do varejo simplesmente patinariam.
Reconhecer isso implica, para governos, empresas e consumidores, assumir corresponsabilidade. Significa apoiar regulamentações que garantam remuneração mínima digna, transparência algorítmica, acesso à proteção social e possibilidade real de mobilidade profissional. Significa também repensar, como sociedade, o preço “real” da conveniência: cada pedido rápido e barato tem, do outro lado da tela, alguém calculando quantas corridas ainda faltam para, talvez, pagar a próxima cesta básica.
Se o Brasil quer, de fato, enfrentar seus desafios estruturais – da desigualdade ao desemprego, passando pelo racismo e pela informalidade crônica –, precisará olhar com seriedade para esse país sob rodas, com uma caixa nas costas, que cruza diariamente as avenidas de nossas cidades. Afinal, é ali, no cruzamento entre economia digital e trabalho invisível, que uma parte importante do nosso futuro está sendo decidida.