Em um cenário econômico global cada vez mais competitivo, a inovação se tornou a chave para a sobrevivência e o crescimento das empresas. No Brasil, no entanto, a ponte entre a pesquisa acadêmica e as demandas do mercado ainda precisa ser fortalecida. Para desvendar os desafios e as oportunidades dessa relação, a Gazeta Mercantil conversou com Anderson Correia, presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Nesta entrevista, Correia discute a importância estratégica de unir o conhecimento gerado nas universidades e centros de pesquisa com a capacidade de produção e a visão de negócio das empresas.
Ele defende que essa sinergia é fundamental não apenas para a criação de novos produtos e processos, mas para o desenvolvimento de soluções que agreguem valor à economia nacional e impulsionem a competitividade das indústrias brasileiras.
O presidente do IPT compartilha insights sobre como as parcerias podem ser um motor de inovação, superando gargalos e transformando o conhecimento científico em riqueza e progresso social. Ele também comentou sobre novos projetos do IPT e a implantação da unidade da instituição em Brasília, numa parceria com o Governo do Distrito Federal (GDF).
A conversa é um guia para líderes empresariais e acadêmicos que buscam construir um futuro mais próspero e inovador para o país e pode ser acessada na íntegra na plataforma Spotify neste link e, a seguir, os principais trechos dessa conversa. Confira:
GZM: O senhor pode começar nos apresentando melhor o IPT, para quem ainda não conhece?
Correia: O IPT é uma instituição antiga, tem 125 anos, mas que está sempre se renovando. Então ela não é como diz o hino do São Paulo (clube), “as suas glórias vêm do passado”. Vem também, mas a gente vai fazendo coisas novas. Tanto que está aí nosso plano novo de Brasília. O instituto começou lá atrás como um laboratório da escola Politécnica da USP, se chamava Gabinete de Resistência dos Materiais, depois ele se tornou uma autarquia e virou o Instituto de Pesquisa e Tecnológica. Foi para o Butantan, na USP, que antes ficava no centro de São Paulo, junto com a Poli.
Depois ele foi abrindo novas unidades em São José dos Campos, Franca, São Sebastião, Manaus e Bertioga, onde temos 11 biodigestores. Agora temos planos em Brasília. Hoje contamos com mil funcionários trabalhando em pesquisa em 8 unidades de negócios, várias áreas do conhecimento que varia desde energia, materiais, biotecnologia e área de computação, entre outros.
Estamos abrindo também novos núcleos em áreas de conhecimentos diferentes, em saúde, bem-estar e meio ambiente. E a gente atende cerca de 3 mil empresas por ano em nossos projetos. Então é um instituto que tem um leque grande de clientes.
E atende não só empresas, mas também prefeituras e ainda tem vasta ligação com a academia nacional e Internacional. Diria que o IPT é uma peça essencial hoje para o crescimento tecnológico do país, ou seja, não só do Estado de São Paulo, mas também de todo o Brasil.
GZM: Como o projeto Brasília o IPT está fincando bandeira na capital federal. Qual o objetivo estratégico dessa iniciativa e como é que ela se encaixa na missão nacional do IPT?
Correia: O IPT já atende outras entidades que estão fora do Estado de São Paulo, no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, atendemos a Vale, por exemplo, que tem barragens em Minas Gerais, em Goiás, não só barragens, mas também é serviço logístico.
No Rio de Janeiro atendemos a área de saneamento com vários serviços. Atuamos na transposição do Rio São Francisco também, então a gente está sempre presente nesses locais, até mesmo no exterior, com clientes em Cingapura, na América do Sul, na Europa e também na América do Norte.
Temos também muitos clientes de Brasília, agências reguladoras, atendemos o governo e também projetos em parceria com as universidades e estudos de pesquisa, então o GDF veio, com a fundação de apoio e com o parque Biotic, que é o parque tecnológico do Distrito Federal, nos visitar.
Foi muito boa a conversa, tanto que depois fizemos 11 workshops em Brasília dentro do Biotic. Nesses workshops apresentamos o nosso portfólio de serviços e gerou muito interesse não só do GDF, mas também das empresas.
Nós então levamos o assunto ao Conselho de Administração, que deu “luz verde” para fazermos os estudos necessários. Estamos trabalhando agora com as propostas de viabilidade, assim que tivermos isso vamos dar andamento na criação de um CNPJ e teremos um espaço dentro do Biotic.
GZM: E como é que o IPT pretende fortalecer a indústria local e estimular políticas públicas inovadoras na região?
Correia: A gente está numa região muito propícia pra falar de políticas públicas, inclusive, já existe um plano para atuação no Distrito Federal, um plano que a gente almeja. Isso vem muito também no desejo do GDF de reforçar a parte industrial.
No Distrito Federal e nas cidades satélites o forte é serviços, além de muita parte também administrativa. Então, por exemplo, hoje, um aluno faz engenharia na UnB, Ceub ou na Unip e, dependendo da engenharia que ele fizer, ele vai ter dificuldade de inserção.
Fora também que existem possibilidades de uma indústria maior, tanto em Brasília como no entorno e até se estendendo um pouquinho no Centro Oeste. Tem a indústria que pode ser voltada pro agronegócio, a indústria que pode também suprir a questão de serviços do Distrito Federal, a criação de novas empresas.
Nós temos a Embrapa localizada no Distrito Federal, mas não tem uma indústria forte lá. E essa transformação é uma história que o IPT tem com o Estado de São Paulo, por exemplo.
E por que não apoiar também o GDF nessa conquista? Então a gente pretende apoiar a indústria local, que hoje não é mais aquela indústria de outros tempos, muito baseada apenas na manufatura, apenas na numa indústria de base. Hoje a indústria é baseada no conhecimento, ela é mais enxuta, ela é lean, ela é menor, muito mais baseada na alta tecnologia, exigindo menos, espaços físicos, menos “chão de fábrica”. É uma coisa que o GDF pode ganhar espaço nessa esteira.
GZM: E o senhor falou agora dessa questão da indústria do conhecimento, então a gente não tem como deixar de falar da digitalização de parque industrial e também da inteligência artificial. Vocês no IPT já consideram essas áreas prioritárias, mas como é que vocês têm desenvolvido planos para incorporar essas ferramentas e tecnologias dentro desses novos arranjos e da promoção científica em que o IPT está envolvido?
Correia: Tinha uma visão no passado de que um organismo de governo, como os ministérios de Brasília e a parte de administração pública, não tem tanto a necessidade da inteligência artificial.
Então alguém pode me dizer, “eu me formei em direito, eu vou ser advogado, eu vou ser juíza, eu vou trabalhar no STJ, no STF, então eu não vou usar a tecnologia”. No ano passado, alguém pode até dizer isso, a gente começou a avançar usando um Word 11, por exemplo, e hoje ele vai usar um robô para fazer o trabalho dele.
Então a inteligência artificial está em tudo, ela vai trabalhar com todos os setores, então a gente vê muito espaço para a modernização digital do governo, a entrada da inteligência artificial. E o IPT tem experiência nisso, com o governo do Estado de São Paulo, com os organismos públicos e com a indústria também.
Nós temos um setor forte de inteligência artificial, não apenas gente do IPT, mas nós temos empresas que estão presentes dentro do nosso site. Exemplo disso é o Google, que está colocando no nosso centro de engenharia 400 pesquisadores que vão trabalhar com esses temas.
Temos outras empresas também, como a Vale 5G, que cuida da parte de conectividade na empresa. E temos também a Lenovo, uma empresa de TI muito forte que está conosco no campus. Então a gente tem uma experiência muito boa e acredita que pode apoiar não apenas o governo e o Ministério, mas apoiar o próprio Biotic nos seus projetos.
O IPT tem essa ambição. Eu lembro, lá atrás, mais de 10 anos atrás, quando o Parque Tecnológico de São José dos Campos foi criado e o IPT foi junto na criação. Colocamos um grande laboratório, que é o laboratório de estruturas leves, que apoiou a criação desse parque ainda no seu início.
GZM: Falamos dessas tecnologias novas, modernas, mas tem uma que é mais antiga, que é a sustentabilidade, afinal o meio ambiente é uma tecnologia já que vem sendo elaborada, há milhares de anos, pela natureza. Hoje tem uma visão científica até sobre como usar a sustentabilidade e o meio ambiente para ajudar os negócios em termos de longevidade. Como esses temas da sustentabilidade e meio ambiente têm interagido com as pautas do IPT?
Correia: Eu sou professor do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), fui reitor também lá. E a gente tem muito orgulho do nosso modelo de trabalho e que também é forte no IPT, que se chama de “hélice tríplice”, que é desenvolver projetos em três pilares: indústria, academia e governo. Esse é o modelo que o ITA tem e é o modelo que o IPT defende.
Agora tem surgido “hélice quádrupla” e até “quíntupla” ou “sêxtupla”. E o que é isso? Você pensa nos três pilares da ESG e não pode mais pensar em produzir um produto que ele não atenda esses critérios, além de muitos outros
Eu vou fabricar um trator, por exemplo, mas agora, como que esse trator está sendo produzido? Quanto que está emitindo? Onde se produz está tendo algum tipo de violação aos direitos humanos? Como está sendo a contabilidade da empresa? Então tudo tem que ser pensado nisso daí.
E com a construção civil também não é diferente. Então essa parte aí de novos materiais, novos produtos. A construção civil no GDF, onde tem muita construção, tem o projeto de cidade inteligente, tem a arborização, e o IPT é muito forte nesses temas. A gente tem, por exemplo, um aplicativo que o IPT desenvolveu, que controla toda a arborização das cidades, inventário, quanto tem que cortar árvores, quanto tem que podar. Ou como que você consegue fazer o remanejamento. Tudo isso para evitar risco de queda de uma árvore, por exemplo.
Nessa parte de construção civil a gente tem uma área forte chamada de habitação e edificações. A gente planeja quais são os melhores sistemas construtivos e sempre focando na parte do meio ambiente. Temos um núcleo de baixo carbono que avalia como a cidade tem que se desenvolver para ser carbono neutro.
Trabalhamos com 4 cidades já: São José dos Campos, Sorocaba, Santos e Cubatão. Talvez Brasília possa até entrar também nesse projeto, então. Mas, enfim, nós temos uma grande frente de sustentabilidade. Acredito que isso pode ser integrado junto com as iniciativas do Biotic, que tem muito crescimento a ser feito, inclusive.
O Plano de Expansão vai para uma área de, se não me engano, na ordem de 1 milhão de metros quadrados. Ou seja, é bastante construção que pode ser feita já no modelo de sustentabilidade.
GZM: O senhor falou da indústria como parte dessa hélice e o plano Nova Indústria Brasil é o programa que talvez seja um dos grandes motores de desenvolvimento desse setor da economia. Como é que vocês têm monitorado e articulado em torno desse programa, tanto em nível governamental quanto também no próprio ecossistema das indústrias?
Correia: O IPT faz parte da MEI, que é a Mobilização Empresarial para Inovação. É um movimento que a gente integra com outros sistemas, como a Embrapii, e sempre alinhado com as políticas da Nova Indústria Brasil. Temos muitos projetos Finep também e só no ano passado a gente captou R$ 100 milhões de projetos.
Na apresentação que a Finep fez na MEI, na presença de mais de 100 empresários, eles colocaram quais são as entidades que mais fizeram projetos com a indústria, na chamada Mais Inovação, e o IPT estava lá na linha de frente sendo o instituto que mais tinha projetos, junto com a Embrapa. Coincidentemente também é com quem a gente coopera em Brasília. Então o IPT é muito próximo da NIB.
Toda vez que o governo quer trazer a academia para perto da indústria, o IPT atua como elo de ligação. Pela Embrapii, pela Finep, pela Fapesp e pelo BNDES a gente consegue atuar como esse elo de ligação.
GZM: Estamos falando de um certo nível já estruturado de empresas, Indústrias que fazem conexão entre si e com as políticas públicas e as linhas de fomento. Mas existe um outro nicho super importante, que são as startups e empresas menores que estão buscando ambientes propícios para melhorar suas soluções ou para implantar suas soluções às vezes. Como é que o IPT trabalha com esse tamanho de empresa?
Correia: Nós somos membros fundadores do Cietec, que é o Centro de Inovação que fica dentro da USP e já tem mais de 25 anos. A gente criou a nossa incubadora também, que é a Open Tech, com foco mais em aceleração. Ela vem ao IPT e fica 6 meses, recebendo também financiamento do Sebrae, que tem um convênio com o IPT em 2 áreas, biotecnologia e inteligência artificial.
Nós atendemos nesse programa de 200 a 300 startups por ano dando mentoria, assessoria técnica, uso do laboratório e apoiamos para que ela busque os investidores também com toda nossa tecnologia. Esse programa foi ampliado, o Sebrae fez a renovação dele, e a gente vai continuar levando um programa semelhante desse para o IPT de Manaus.
A gente acredita que em Brasília a gente possa fazer algo semelhante também com as startups do Distrito Federal. A gente já dá a mesma mentoria em São Paulo e em Manaus e no DF a gente vai fazer algo semelhante, inclusive com a UnB, onde já temos conversa para isso.
GZM: O IPT tem planos de outras iniciativas já pensados ou pelo menos tem essa abertura para levar novas iniciativas Brasil afora?
Correia: Sim, o IPT tem planos para mais crescimento. Uma delas é em Piracicaba, é uma unidade que ainda não foi inaugurada, mas está em um momento de desenvolvimento. A gente vai instalar um laboratório para certificação de máquinas agrícolas, que a região é muito voltada ao setor do agro, tanto que tem a ESALQ (da USP) que vamos ser vizinhos em nosso Centro. Nós vamos nos instalar na Faculdade de Engenharia de Piracicaba, que pertence à Prefeitura da cidade, e o laboratório está em desenvolvimento, mas assim que estiver concluído, a gente vai inaugurar também.
Muita gente pensa que o agro não tem indústria e está equivocado. Alguém pode dizer que o agro é commodity, que não tem tecnologia, mas tem sim. Tem tanto a biotecnologia como também toda a indústria mecânica. Um exemplo é uma empresa brasileira, a Jacto, que é nossa parceira de produção de máquinas agrícolas. Essas indústrias precisam fazer testes, laudos, ensaios e muitas vezes tem que fazer no exterior.
Então estamos ali numa unidade pra dar esses testes, pra que essas empresas como Jacto e John Deere, entre outras, tenham uma entidade local para poder fazer esses testes. Isso vai ajudar muito o desenvolvimento da indústria, fora também a parte energética, que a gente está trabalhando na unidade com a parte de transformação de etanol em hidrogênio em parceria com a USP. Tudo isso é um projeto que é uma nova frente.