Quem nunca sonhou com um trabalho que o levasse a Paris, Miami ou Buenos Aires com tudo pago? Para muitos, viajar a trabalho é sinônimo de status, conforto e glamour. Mas o executivo Denys Vojnovskis, com quase um milhão de quilômetros rodados em viagens corporativas, decidiu contar o que realmente acontece quando o crachá embarca — e o corpo e a mente ficam em modo de sobrevivência.
Em seu novo livro, O Emprego que você pediu a Deus, Denys desmistifica a rotina dos chamados “viajantes profissionais” com 39 crônicas que misturam humor, reflexão e boas doses de realidade. São histórias de jet lag, extravio de bagagem, reuniões intermináveis, saudade da família e até emergências médicas em países estrangeiros. Tudo narrado com leveza, mas sem filtro.
“A ideia veio das inúmeras vezes que ouvi ‘você tem o emprego que pedi a Deus’”, conta o autor. “As pessoas enxergam só o lado glamouroso, mas não veem o cansaço, a solidão e os desafios que vêm junto.”
Um manual para quem vive — ou deseja viver — entre conexões
Mais do que um relato pessoal, o livro funciona como um guia informal para quem já vive essa rotina ou está prestes a embarcar nela. Denys compartilha aprendizados sobre logística, comunicação intercultural, saúde mental e até etiqueta corporativa em viagens. Tudo com a autoridade de quem já deu mais de 24 voltas ao redor da Terra — literalmente.
Denys Vojnovskis é executivo do setor de tecnologia, com carreira construída em empresas globais e atuação comercial que o levou a rodar o mundo. Autor de dois livros técnicos sobre vendas indiretas, agora se aventura na literatura de crônicas com uma proposta mais pessoal e bem-humorada.
Para saber mais sobre a obra, a GZM conversou com o autor, que contou sobre as ideias que conectam os artigos que compõem o livro. Confira:
GZM: Qual foi o momento decisivo que fez você transformar sua rotina de viagens em livro?
Denys Vojnovskis: Todo mundo que viaja muito a trabalho sempre ouve coisas do tipo “Viagem a trabalho para Miami? Este é o emprego que pedi a Deus!”, “Duas semanas em Buenos Aires com tudo pago, com direito a fim de semana? Isto não é trabalho, são férias”. E eu, claro, já tinha ouvido esse tipo de comentário de muita gente.
Mas quem de verdade fez tocar o sininho da boa ideia foi uma priminha, que na época tinha 8 ou 9 anos de idade. O pai dela, meu primo-irmão, trabalhava de motorista de aplicativo e me levava sempre ao aeroporto para minhas viagens a trabalho. Numa dessas ocasiões, me disse que a filhinha dele, ao vê-lo sair de casa, perguntou: “O Denys vai viajar de novo, pai? Quando eu crescer quero ter um emprego assim!”.
Fiquei pensando, se essa rotina das viagens a trabalho mexe com o imaginário até de uma criança, acho que temos aí uma boa história. Na verdade, 39 histórias (ou crônicas), que formam o meu livro.
GZM: Que tipo de impacto emocional você percebeu ao longo dos anos como viajante corporativo?
Denys Vojnovskis: Eu diria que o grande aprendizado emocional que adquiri depois de tanto tempo viajando, a maioria das vezes sozinho, é lidar com as ausências e as faltas dessa vida de viajante. Ausência das pessoas que mais amamos, familiares e amigos, daquele jantar em família, do programa de TV favorito, da partida do time do coração, das datas comemorativos (quantos aniversários e outras celebrações perdemos). Eu brinco que, quando estamos há muito tempo fora de casa, sentimos falta até do nosso vaso sanitário rs.
Mas, como tudo tem um lado bom, ou pelo menos um aprendizado, a gente aprende a conviver bem com a gente mesmo. Eu sempre digo que adoro minha companhia, e que me dou muito bem comigo mesmo. E isso é muito importante, não somente para as viagens a trabalho, mas para todos os aspectos da vida.
GZM: Qual foi o perrengue mais surreal que você enfrentou em uma viagem a trabalho?
Denys Vojnovskis: Meu pai faleceu, aqui no Brasil, enquanto eu estava a trabalho em Miami. Sem dúvida foi o momento mais impactante de todas as viagens que fiz até hoje. Mas falando de perrengue propriamente dito, daqueles que são ruins de viver mas muito bons de contar, foi quando eu perdi minha carteira em Bogotá, com todo meu dinheiro, cartões de crédito e documentos (num domingo a noite, quando estava chegando para passer uma semana inteira na Colômbia).
Fiquei desesperado e, como diria Caetano, “sem lenço e sem documento”… mas o desfecho dessa história você vai precisar ler o livro para saber rs.
GZM: Como você enxerga o equilíbrio entre vida pessoal e profissional nesse estilo de carreira?
Denys Vojnovskis: É bastante complicado. Eu sempre digo que, enquanto a gente está numa viagem a trabalho, não existe vida pessoal. A gente está 100% a disposição da empresa, 24 horas por dia. Ainda que estejamos visitando um ponto turístico no fim de semana ou jantando num bom restaurante, não estamos com a família, com os amigos, ou seja, com as pessoas do nosso convivio intimo. E isso faz toda a diferença.
Para quem viaja a trabalho também é complicado manter atividades extra-trabalho que exigem regularidade, como cursos, esportes, e até mesmo os relacionamentos amorosos são prejudicados pela ausência constante. Não quero fazer disso tudo um drama, é claro que com boa-vontade e com alguma flexibilidade, se pode arranjar formas de compensar. Mas devemos estar muito atentos para que nossa vida pessoal não se deteriore por conta do excesso de viagens.
GZM: O que você diria para quem está começando a viajar a trabalho e acha que é só glamour?
Denys Vojnovskis: No mundo corporativo, nem sempre temos a possibilidade de escolha. Muitas vezes temos que nos adaptar àquilo que nossa função exige e ao que a empresa espera de nós. Eu diria a quem está começando nessa vida que tente aproveitar as boas coisas dessa rotina. Conhecer novos países, novas culturas, lugares turísticos (quando sobra um tempinho), novos restaurantes.
Já que é algo inevitável, tentar fazer desse inevitável o mais prazeroso possível. E se cada viagem vale como uma universidade, como dizem, então que aproveite para aprender muito.
GZM: Como as empresas podem cuidar melhor dos colaboradores que vivem em trânsito?
Denys Vojnovskis: Graças a Deus sempre trabalhei em empresas que tinham essa preocupação. Sempre me hospedei em bons hoteis, sempre tive a liberdade de escolher o melhor horário para os voos (respeitando os interesses da viagem, claro), além de nunca ter restrições quanto a comer em bons restaurantes (obviamente, também dentro de certos limites).
Ainda assim, a rotina das viagens é muito desgastante, principalmente as viagens para o exterior: cansaço físico provocado por todos os deslocamentos, tempos de espera em aeroportos, tempo de voos, e também há um cansaço mental muito grande, com a necessidade de estar sempre falando um idioma estrangeiro, num lugar que você não conhece bem, com outros costumes, outra cultura e, claro, com a responsabilidade de fazer aquela viagem dar bons resultados para a empresa.
Eu sugeriria que as empresas pensassem em algo como “um dia de folga para cada X dias viajando”. Quando estamos fora de casa, estamos 24 horas por dia a trabalho, 100% a disposição da empresa. Sem poder nos dedicar a nenhuma (ou quase nenhuma) atividade pessoal.
Não dá para ir ao médico, ao dentista, à aula de pilates, ao curso de piano, à festa de aniversário de um familiar/amigo querido, entre outras coisas que perdemos… acho que seria justa essa recompensa, para que pudéssemos nos dedicar um dia inteiro justamente às nossas atividades corriqueiras, do dia a dia.
GZM: Depois de quase um milhão de quilômetros, o que mudou na sua forma de viajar — e de viver?
Denys Vojnovskis: Minha primeira viagem a trabalho aconteceu em meados da década de 1990. Ou seja, mais de 30 anos já se passaram. Acredito que os avanços tecnológicos que vivemos nesse periodo, que não foram poucos, mudaram totalmente a forma e a rotina de uma viagem a trabalho. Principalmente o surgimento e a popularização da internet e do smartphone.
Nas minhas primeiras viagens a trabalho, a gente dirigia e se guiava através de mapas de papel (aqueles grandões, dobrados em várias partes) já que não existia GPS. Se comunicar com a familia, via telefone fixo, era muito caro, então a gente podia ligar rapidinho e de vez em quando (hoje em dia, com o whatsapp por exemplo, a gente se comunica com família e amigos várias vezes ao dia).
Por outro lado, como não havia internet e nem todos levavam laptop em suas viagens, quando terminava o “expediente” por volta das 18h, a gente tinha tempo livre para curtir o destino. Agora isso não é possível, já que o expediente nunca termina, e a noite sempre sobra um montão de emails para responder e trabalho para fazer.
Acho que a conclusão é que os avanços tecnológicos nesses 30 anos trouxeram alguma comodidade, mas também aumentaram substancialmente a carga de trabalho e stress nas viagens a trabalho.

Livro: O Emprego que você pediu a Deus
Autor: Denys Vojnovskis (@denysvojnovskis)
Preço: R$ 56,90
Disponível para venda online