Para países como o Brasil, que tradicionalmente olham para rankings mais como curiosidade do que como bússola estratégica, o movimento acende um alerta incômodo. A nova geografia das universidades diz menos sobre vaidade acadêmica e mais sobre onde estarão, nas próximas décadas, os polos de inovação, os empregos de maior valor agregado e a capacidade de um país disputar posição em cadeias tecnológicas críticas. Fingir que isso é apenas “competição entre gringos” é repetir, no século XXI, o erro de tratar educação superior e ciência como orçamento discricionário — e não como infraestrutura de poder.
O mapa está mudando — e rápido
Em menos de 20 anos, a China saiu da periferia dos rankings para dominar listas baseadas em produção científica, ao ponto de concentrar nove entre as dez instituições de maior relevância em alguns indicadores, deixando Harvard como única representante ocidental no topo. A mensagem é objetiva: com planejamento, dinheiro e coerência de política pública, é possível reverter hierarquias históricas e usar universidades como ponta de lança de um projeto nacional.
O Brasil, ao contrário, passou a maior parte dos últimos anos cortando orçamentos de CNPq, Capes e do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, comprimindo bolsas e estrangulando a capacidade de pesquisa das universidades federais. Hoje, USP, Unicamp e UFRJ aparecem como ilhas de excelência em rankings globais, mas distantes do top 100, enquanto a presença brasileira se dilui nas faixas intermediárias das listas de Leiden, QS e THE. Em paralelo, perde‑se tempo discutindo se universidade deve “só ensinar” ou também pesquisar, como se países que renunciaram à pesquisa tivessem, em algum momento da história recente, avançado em desenvolvimento.
Rankings não são fetiche: são sinalização de futuro
É confortável dizer que rankings são “imperfeitos” — e são mesmo. Medem o que conseguem medir: artigos, citações, reputação, recursos, internacionalização. Não esgotam a qualidade de ensino, o impacto social ou a diversidade de trajetórias. Mas é justamente por isso que são úteis como termômetro: indicam onde há ecossistemas capazes de produzir conhecimento novo em escala, atrair talentos e influenciar agendas tecnológicas globais.
Para um executivo que decide onde instalar um centro de P&D, para um jovem pesquisador que escolhe onde fazer doutorado ou para um governo que busca parceiras em semicondutores, IA ou biotecnologia, o ranking funciona como atalho. Quando o Brasil aparece consistentemente fora do primeiro pelotão, a mensagem é clara: aqui não está — ainda — um dos principais endereços globais para ciência de fronteira. E isso não é um problema apenas de universidades; é um problema de indústria, de produtividade e de lugar na fila quando novas tecnologias forem transferidas, licenciadas ou internalizadas.
O erro de tratar ciência como gasto conjuntural
A trajetória orçamentária recente mostra que o país tratou seu sistema de ciência e universidades como variável de ajuste fiscal. Entre 2019 e 2022, o chamado “orçamento do conhecimento” caiu de R$ 25,3 bilhões para R$ 17,1 bilhões, ao mesmo tempo em que a arrecadação dos fundos vinculados crescia. Capes e CNPq chegaram a planejar cortes em projetos de pesquisa para manter o mínimo de bolsas, num desenho que estrangula justamente a etapa que transforma formação em resultado.
Essa lógica é míope por duas razões. Primeiro, porque ciência é lenta: o artigo que aparece hoje em uma revista de alto impacto é fruto de projetos iniciados há cinco, dez anos. Cortar agora significa ficar invisível nos rankings daqui a uma década. Segundo, porque capacidade científica não se recompõe com um decreto de aumento de verba; exige tempo para reconstruir grupos, laboratórios, reputação e redes internacionais. Se há lição na ascensão chinesa, é esta: construir liderança tecnológica é maratona, não sprint — e exige, nas palavras de um relatório recente, “investimento sustentado em conhecimento, talento e instituições de alto desempenho, nada disso se compra com ondas de gasto de curto prazo”.
O que o Brasil poderia estar perguntando aos rankings
Em vez de desqualificar rankings, o Brasil deveria usá‑los para fazer três perguntas incômodas. A primeira: em quais áreas de conhecimento queremos estar entre os 50 primeiros do mundo — e o que falta em termos de gente, infraestrutura e financiamento para isso? A segunda: por que, mesmo sendo a maior economia da América Latina e o país mais representado nos rankings regionais, seguimos tão distantes da fronteira global de pesquisa em tecnologias críticas? A terceira: que arranjos de financiamento (público, privado, filantrópico) podem blindar ciência e universidades da volatilidade cíclica do orçamento federal?
Responder a essas perguntas implica mexer em prioridades: rever a visão de universidade apenas como centro de ensino, discutir metas de presença qualificada em rankings específicos (Leiden em certas áreas, por exemplo), incentivar consórcios entre instituições para ganhar massa crítica e criar instrumentos estáveis de financiamento, como fundos patrimoniais e contratos de desempenho. Não se trata de “governar por ranking”, mas de entender que ele é uma das poucas métricas internacionalmente comparáveis daquilo que vai definir a competitividade de países nesta década.
Ou levamos o alerta a sério — ou continuaremos espectadores
Quando rankings mostram China liderando 90% das tecnologias estratégicas monitoradas, enquanto Brasil luta para manter laboratórios funcionando, a conclusão é incômoda: estamos discutindo o tamanho do quadro na parede enquanto outros países constroem a casa. A questão não é se Harvard está em 3º ou 5º lugar, mas o fato de que o mapa da ciência está sendo redesenhado — e o Brasil, se continuar tratando isso como curiosidade de caderno de educação, corre o risco de consolidar um lugar confortável na plateia, longe do palco onde se decide o futuro.
Um editorial não muda orçamento, mas pode ajudar a mudar a pergunta. Em vez de “em que posição estamos?”, talvez a pergunta mais honesta seja: “que tipo de país queremos ser quando os rankings de 2035 forem publicados?”. Se a resposta incluir industrialização verde, liderança em bioeconomia, protagonismo em saúde e tecnologia, não haverá atalho que dispense universidades fortes, pesquisa de qualidade e políticas de ciência tratadas como parte da estratégia de Estado — e não como linha cortável nas próximas contingências.