Ontem, 5 de outubro, o Banco Central anunciou novamente a manutenção da taxa Selic em patamar elevado, mantendo os 15% da reunião anterior. A decisão não surpreende quem acompanha o cenário macroeconômico brasileiro, mas reacende a pergunta: quais efeitos reais vêm sendo observados na vida das empresas e no desempenho global do país? E o que diz a ciência econômica sobre essas consequências? A resposta é mais complexa do que aparenta — e os estudos acadêmicos desvendam nuances e contradições muitas vezes ignoradas no debate público.
Panorama internacional e nacional: alta de juros, fragilidade estrutural
O Brasil convive historicamente com taxas de juros reais entre as mais altas do mundo. Enquanto referências globais — como as taxas de longo prazo praticadas em países desenvolvidos — já oscilaram entre 0% e 2% nos últimos dez anos, a Selic real brasileira frequentemente supera 4% ou 5% ao ano, chegando a registrar médias entre 11% e 17% ao ano entre 1995 e 2004, segundo estudos analisados pela GZM. Mesmo em países em desenvolvimento, como México e Turquia, os patamares raramente se aproximam dos encontrados no Brasil para crédito empresarial e ao consumidor, que historicamente chegaram a ultrapassar 100% ao ano em modalidades como o cheque especial.
O trabalho do professor Jabr H.D.Omar, professor na Universidade Federal de Pelotas e Ph. D. em Economia pela McGILL Univertsity/Montreal, Canadá, publicado na Revista de Economia Contemporânea, mostra que as causas das taxas tão altas estão atreladas a quatro fatores principais: controle inflacionário, vulnerabilidade externa, custo do endividamento público e estrutura oligopolista do setor bancário brasileiro. As consequências não poderiam ser mais relevantes: além de frear o investimento produtivo, os juros elevados “produzem efeitos perversos sobre o crescimento do PIB e a estabilidade econômica”.
Efeitos documentados sobre empresas: evidências e dados
Vários estudos nacionais sustentam que pequenas e médias empresas (PMEs) sentem mais intensamente a elevação das taxas de juros. Segundo pesquisa econométrica publicada na Revista Econômica do Nordeste em 2024, micro e pequenas empresas representaram 56% dos pedidos de falência entre 2010 e 2021, e seus autores demonstraram que, estatisticamente, cada ponto percentual de aumento da taxa de juros básica eleva em 0,25% o número de pedidos de falência no país — sinalizando a forte sensibilidade dessas empresas ao custo do crédito.
Outro dado relevante: períodos de maior oferta monetária e crédito reduzem as chances de falência, enquanto altas de juros e restrição de crédito têm efeito oposto, como confirmado tanto no Brasil quanto em estudos internacionais aplicados à Turquia, Estados Unidos e países da América Latina. O impacto é maior no comércio varejista e setor de serviços, áreas onde empresas de menor porte predominam. Exemplo: no Brasil, o número de novos negócios (micros e MEIs) explodiu após a pandemia, mas esses mesmos negócios são mais vulneráveis à elevação de custos financeiros e constituíram parcela majoritária dos encerramentos de atividade já em 2023, segundo dados da Serasa Experian.
Contradições e heterogeneidade: quando os juros não explicam tudo
Apesar da robustez dos resultados acima, nem todos os estudos apontam o mesmo grau de impacto universal. Pesquisadores australianos, utilizando microdados empresariais, observaram que grandes corporações conseguem manter níveis de investimento mesmo diante de aumentos relevantes das taxas de juros, em parte por acesso a crédito externo, reservas acumuladas e poder de barganha junto ao sistema financeiro. Assim, o clássico efeito negativo dos juros elevados sobre o investimento pode ser suavizado, dependendo da estrutura da firma, setor e tamanho.
Outra dimensão importante é o papel da conjuntura internacional: em momentos de forte incerteza global, queda expressiva dos juros não necessariamente traz aumento imediato de investimento, já que expectativas, excesso de capacidade ociosa e fatores psicossociais podem ter mais peso do que o custo do crédito. Adicionalmente, há registros empíricos de que, em alguns países, um pequeno aumento inicial das taxas pode sinalizar estabilidade macroeconômica, controlar pressões inflacionárias e, até certo limite, estimular o crescimento via atração de capital e redução de volatilidade cambial — como sugerido por grandes trabalhos internacionais que encontram efeitos curvilíneos (“thresholds”) nessas relações
Exemplos práticos e dilemas do caso brasileiro
O próprio caso brasileiro ilustra as contradições desse debate. Entre 2012 e 2023, o Brasil experimentou dois grandes ciclos de redução da Selic: entre 2016 e 2017, com queda de 14,25% para 6,50%; e após o choque inicial da Covid-19, quando a taxa foi reduzida a 2%. Em ambos os casos, o crescimento do PIB e a resposta do investimento produtivo foram tímidos, frustrando expectativas lineares. Marina Sanches, doutora em Economia pela Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, destaca em seu estudo que essa inércia se deve à falta de confiança empresarial e, mais recentemente, ao elevado grau de endividamento público e privada — ou seja, outros fatores potencialmente limitando os efeitos positivos esperados dos juros baixos.
Na contramão, entre 2015 e 2016, enxurradas de pedidos de recuperação judicial e falências de empresas pequenas e médias coincidiram com o ciclo de alta dos juros (Selic a 14,25%) e restrição de oferta de crédito, como mostram tanto estatísticas da Serasa Experian quanto os resultados econométricos acima mencionados. Em 2020, durante a pandemia, a combinação de juros baixos, oferta de liquidez via políticas extraordinárias do Banco Central e diversas linhas de crédito emergencial permitiu reduzir significativamente o volume de falências: foram apenas 972 pedidos, menos da metade do nível médio do início da década.
Impactos agregados e a dívida pública
O impacto das taxas de juros se estende à dinâmica da dívida pública e à capacidade de atuação do Estado brasileiro. Quando as taxas de juros reais médias superam 11% ao ano (caso recorrente no país), aproximadamente 3,3% do PIB vão anualmente para o pagamento de juros sobre o estoque da dívida interna, drenando recursos que poderiam ser usados em políticas sociais e investimento público. Segundo estudo do Banco Central, a taxa de juros explicou cerca de 61% do aumento de R$ 535 bilhões na dívida interna entre 1995 e 2001.
O resultado prático: para estabilizar a razão dívida/PIB, o governo precisa de superávits primários robustos, crescimento econômico acelerado ou condições externas extremamente favoráveis em termos de valorização cambial. Do contrário, há risco de espiralização do endividamento — e, por consequência, de pressões para manter os juros elevados, num ciclo reforçador negativo.
Setores com sensibilidades diferentes
Há vasta evidência de que a indústria e setores que dependem de ciclos longos de investimento e financiamento, como a construção civil, são mais afetados por elevações dos juros do que segmentos menos intensivos em capital, como alimentação ou serviços de saúde. Isso é comprovado por análises setoriais tanto no Brasil quanto no exterior, onde volumes expressivos de investimento progridem (ou retraem) em sincronia com as decisões do Banco Central, ainda segundo dados do estudo realizado por Sanchez, da USP.
Por outro lado, setores fortemente capitalizados ou internacionalizados — agronegócio de grande escala, exportadores, multinacionais — conseguem se proteger, em parte, do efeito direto da política monetária doméstica, operando com linhas externas e aproveitando assimetrias na política global de juros.
Pesquisas e bases internacionais: o consenso da divergência
Além das evidências brasileiras, trabalhos internacionais apontam para uma verdade cada vez mais aceita na literatura, como pesquisa publicada na Global Business Finance Review: há consenso sobre o efeito negativo dos juros altos em períodos prolongados e sobre setores e perfis de empresa mais fragilizados, mas as trajetórias exatas são função de variáveis como credibilidade institucional, política fiscal, integridade bancária, fatores comportamentais e contexto global. Trabalhos recentes mostram que, mesmo dentro do G20, respostas das economias à baixa dos juros variam: nos EUA e Canadá, a taxa de juros afeta o consumo de maneira diferente entre as camadas sociais e entre capitais regionais; em países latino-americanos e asiáticos, os efeitos sobre crédito e falência de empresas são mais rápidos e intensos.
Recomendações dos estudos para o Brasil
Se a ciência econômica traz ensinamentos para a política monetária, eles vêm mais na forma de alertas do que de receitas uniformes. A recomendação principal de autores nacionais e estrangeiros é usar múltiplas ferramentas para garantir crescimento sustentável: atuar sobre a concorrência bancária, ampliar oferta de crédito direcionado, equilibrar política fiscal, estimular novos investimentos públicos e privados, e desenhar políticas setoriais que reconheçam a heterogeneidade dos impactos. Para reduzir efetivamente as taxas de juros sem sacrificar a credibilidade institucional e o controle inflacionário, é preciso agir também sobre a dívida pública, aprofundar reformas estruturais e estimular a competição efetiva no sistema financeiro.
Enquanto as decisões de hoje mantêm juros altos visando estabilidade e controle inflacionário, os dados e exemplos históricos reforçam: sem crescimento econômico vigoroso, inovação e um ambiente de crédito acessível, os custos sociais e produtivos dessa estratégia seguirão elevados E os desafios, como se vê, longe do consenso científico.