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O que as vendas na Black Friday dizem sobre a economia brasileira

Entre consumo aquecido, juros altos e famílias endividadas, dados da Black Friday ajudam a decifrar o humor econômico do país

A Black Friday 2025 confirmou o lugar da data como um “raio-x” do consumo no Brasil. No e-commerce, o faturamento da quinta a domingo deve alcançar cerca de R$ 11 bilhões, alta de 17% em relação a 2024, que já havia crescido 10,7% sobre 2023. Na véspera, o varejo online somou R$ 2,28 bilhões, avanço de 34,1% ante 2024, com 5,9 milhões de pedidos e forte aceleração do volume de compras. As primeiras 12 horas da sexta registraram R$ 1,69 bilhão, 24,5% acima de 2024, consolidando um ritmo robusto de vendas.​

Nos dois anos anteriores, o movimento já mostrava retomada. Em 2023, a Black Friday online cresceu 8,4%, com faturamento de cerca de R$ 3,94 bilhões na sexta. Em 2024, o valor saltou para R$ 4,27 bilhões, alta de 10,7%, com tíquete médio em torno de R$ 515, porém levemente menor que em 2023. Em 2025, a tendência se fortalece: o tíquete médio cai um pouco na véspera (R$ 385 contra R$ 469 em 2024), mas o número de pedidos dispara, sugerindo um consumidor mais sensível a preço, porém ainda disposto a comprar.​

Do lado macroeconômico, a fotografia é de uma economia em ajuste. A inflação medida pelo IPCA roda próxima de 4,7% em 12 meses até outubro de 2025, em linha com o centro da meta, após desaceleração desde os picos pós-pandemia. A taxa Selic, que voltou à casa dos dois dígitos em 2024 para conter a alta de preços, começa 2025 ainda elevada em termos reais, encarecendo o crédito e limitando a expansão do consumo financiado, embora o Banco Central já sinalize ciclo de cortes graduais.​

Mesmo assim, o endividamento das famílias permanece em patamar alto. Dados recentes indicam que cerca de 30% da renda média está comprometida com dívidas, nível próximo dos recordes de 2023, enquanto a inadimplência tende a subir em 2025 diante de juros ainda caros e renda que se recompõe lentamente. Ao mesmo tempo, pesquisas apontam que mais de três quartos das famílias continuam endividadas, quadro que reforça o uso de crédito rotativo, parcelados e financiamentos como mecanismo de sustentação do consumo.​

Os números da Black Friday sugerem, portanto, um consumidor cauteloso, mas não retraído. Há sinais de racionalização: tíquete médio ligeiramente menor em alguns recortes, antecipação de compras ao longo do “Black November” e foco em categorias de maior utilidade, como eletrônicos, linha branca, smartphones e itens de primeira necessidade. Ao mesmo tempo, a expansão expressiva do volume de pedidos revela confiança suficiente para consumir, apoiada em mercado de trabalho menos frágil e inflação mais previsível, apesar da pressão do crédito caro.​

Para as empresas, o cenário é de economia resiliente, porém tensionada: o crescimento de dois dígitos nas vendas digitais indica capacidade de reação do varejo, digitalização acelerada e amadurecimento logístico, mas também expõe dependência de promoções agressivas e parcelamentos, em ambiente de juros altos e famílias no limite de sua capacidade de endividamento.​

Na fotografia final, a Black Friday 2025 mostra uma economia que não está em euforia, tampouco em colapso. O Brasil combina inflação sob controle relativo, consumo em recuperação e nível de endividamento estruturalmente elevado. O apetite às compras em novembro revela disposição para consumir, mas também reforça a necessidade de políticas que aliviem o custo do crédito e melhorem a renda real. Para o varejo e para os formuladores de política econômica, a mensagem é clara: o país segue andando, mas ainda carrega um peso considerável nas costas.

As principais categorias que impulsionaram o faturamento da Black Friday 2025 no e-commerce brasileiro

  • Smartphones, liderando com cerca de R$ 179 milhões nas primeiras 12 horas.​
  • Televisores (TVs), com aproximadamente R$ 166 milhões no início do dia.​
  • Geladeiras e demais itens de linha branca, em torno de R$ 125 milhões.
  • Moda e acessórios, com forte volume de pedidos, embora tíquete menor.​
  • Beleza e perfumaria, favorecida por kits promocionais e alto interesse do consumidor.
  • No total do varejo (online + físico), projeções também destacam hiper/supermercados, eletroeletrônicos, móveis/eletrodomésticos, vestuário e farmácias/perfumaria como pilares de faturamento.

Black “Thursday” é destaque, mais uma vez 

A véspera da Black Friday ganhou protagonismo e, em 2025, já rivaliza – e em muitos recortes supera – a própria sexta como principal dia de compras no Brasil. O e-commerce faturou cerca de R$ 2,28 bilhões na quinta-feira, alta de 34,1% em relação a 2024, com 5,9 milhões de pedidos e forte crescimento de volume, enquanto a madrugada de sexta somou R$ 1,69 bilhão nas primeiras 12 horas. 

Na prática, o consumidor brasileiro já internalizou a lógica da “Black Week” e até do “Black November”, diluindo o pico de consumo e antecipando decisões para aproveitar promoções antes da possível escassez de estoque ou de aumentos de preço.

Véspera da Black Friday (quinta, 27/11)

  • O e-commerce faturou cerca de R$ 2,28 bilhões na véspera, alta de 34,1% em relação ao mesmo dia de 2024.
  • Foram aproximadamente 5,9 milhões de pedidos, crescimento de 63,2%, com tíquete médio em torno de R$ 385 (queda ante 2024).​
  • No acumulado de 1º a 27 de novembro, o comércio eletrônico somou cerca de R$ 39,2 bilhões, avanço de 36,2% ano a ano.​
  • Em outra leitura, dados de cartões do Itaú apontaram aumento de 22,3% nas vendas processadas entre segunda (24) e quarta (26), sinalizando uma “véspera aquecida”.

Dia da Black Friday (sexta, 28/11) – dados parciais

  • Nas primeiras 12 horas da Black Friday, o e-commerce faturou cerca de R$ 1,69 bilhão, crescimento de 24,5% sobre igual período de 2024.
  • Foram registrados cerca de 3,27 milhões de pedidos, aumento de 44% ano a ano, com tíquete médio próximo de R$ 518.
  • Em transações, a Cielo reportou a “melhor madrugada da história”, com crescimento de 29,8% e mais de 8,5 milhões de transações até 6h, além de pico de 476 operações por segundo à meia-noite.

Esse movimento tem algumas explicações estruturais. Primeiro, o varejo aprendeu a “abrir” a Black Friday mais cedo, estendendo ofertas para a quinta e, muitas vezes, para toda a semana, o que leva parte relevante da demanda a migrar para a véspera. 

Segundo, o consumidor está mais racional: pesquisa preços com antecedência, monitora variações e, ao identificar um bom desconto na quinta, prefere fechar a compra de imediato em vez de esperar a sexta na expectativa de um “superdesconto” incerto. Terceiro, a logística e os meios de pagamento tornaram-se mais eficientes, permitindo que grandes volumes sejam absorvidos sem depender de um único dia de pico.​

Do ponto de vista econômico, a força da véspera indica um consumidor que, apedar de ainda pressionado por juros altos e endividamento, está atento a janelas de oportunidade. A antecipação de compras ajuda famílias a encaixar gastos no orçamento, evita congestionamento digital e físico e reduz a sensação de “tudo ou nada” da sexta-feira.

Para o varejo, a concentração menor em um único dia diminui riscos operacionais (queda de sistemas, rupturas, atrasos de entrega) e possibilita melhor gestão de estoque e preços. Em termos de leitura macro, a quinta-feira mais forte reforça a ideia de um mercado mais maduro, em que a data deixa de ser um evento de impulso e se consolida como uma temporada estratégica de consumo planejado.

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