O que mede o Enamed e o que os dados mostram
Criado pelo Inep como um “Enade específico da Medicina”, o Enamed avalia o desempenho de estudantes concluintes e médicos já formados em uma prova padronizada, que passa a embasar o conceito oficial dos cursos. Na edição de 2025, o exame avaliou 89.024 participantes – 39.258 concluintes de 351 cursos de Medicina e 49.766 profissionais – com 75% de proficiência geral.
Quando se olha apenas para quem está se formando agora, o quadro é mais preocupante: entre os concluintes, só 67% atingiram desempenho considerado adequado. Do lado das instituições, dos 304 cursos analisados, 204 (67,1%) ficaram em patamar satisfatório (conceitos 3, 4 e 5), mas quase um terço – 99 cursos, ou 32% – recebeu notas 1 e 2, faixas em que menos de 60% dos estudantes demonstraram domínio mínimo esperado e que vão passar por supervisão do MEC.
O psiquiatra Antonio Egídio Nardi (UFRJ), publicou um artigo entitulado “Enamed: um espelho incômodo da formação médica no Brasil” resumindo o diagnóstico: a avaliação “trouxe à tona problemas que já eram percebidos empiricamente, mas agora aparecem de forma mais objetiva, comparável e transparente” e revela um “quadro ao mesmo tempo elucidativo e preocupante”.
Expansão acelerada, qualidade irregular
Por trás desses números está uma expansão veloz dos cursos de Medicina nas últimas duas décadas, especialmente na rede privada e em cidades de médio porte, nem sempre acompanhada por infraestrutura, corpo docente e cenários de prática adequados. O levantamento do Enamed mostra que há cursos com desempenho de excelência (conceito 5) lado a lado com instituições em que a maioria dos estudantes não atinge o mínimo aceitável – em geral com maior concentração de notas baixas em determinadas regiões e entre faculdades privadas de baixo investimento.
Para Nardi, o exame funciona como um “espelho incômodo” não apenas para as escolas pior avaliadas, mas para todo o sistema de formação médica, ao trazer evidências quantificadas de desigualdades que antes eram descritas em termos qualitativos. E coloca uma questão central para a política pública: como compatibilizar a necessidade de ampliar o número de médicos no país com a obrigação de garantir padrões mínimos de qualidade e segurança.
Formação teórica forte, prática e atitudes ainda pouco captadas
Um ponto importante da discussão é o que o Enamed mede – e o que ele ainda não consegue medir bem. O exame é composto, em grande parte, por questões objetivas que avaliam conhecimento teórico, capacidade de raciocínio clínico em cenários simulados e domínio de diretrizes e protocolos.
Isso é essencial, mas não suficiente. Especialistas alertam que o Enamed “capta pouco das habilidades clínicas, da comunicação médico-paciente, do profissionalismo, do raciocínio ético e da tomada de decisão em cenários reais” – justamente dimensões cruciais para a qualidade do cuidado na ponta. Há, portanto, o risco de que escolas passem a “ensinar para a prova”, ajustando currículos para maximizar desempenho em testes de múltipla escolha, sem enfrentar lacunas estruturais de internato, supervisão prática, interdisciplinaridade e cuidado centrado na pessoa.
Especialistas defendem que o Enamed seja entendido como um componente de um sistema mais amplo de avaliação: combinado a visitas in loco, análise de infraestrutura, indicadores de residência, desempenho em serviços do SUS e métricas de inserção profissional.
O que isso significa para o SUS e para o paciente
Na prática, os dados do Enamed têm implicações diretas para a saúde pública. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, classificou os resultados como “um verdadeiro diagnóstico da formação médica no nosso país”, ressaltando que ele precisa orientar decisões sobre abertura de novos cursos, expansão de vagas e supervisão de instituições com desempenho crítico.
Em um país em que faltam médicos em muitas regiões, mas sobram dúvidas sobre a qualidade de parte dos cursos, o desafio é delicado: não se trata apenas de formar mais profissionais, mas de garantir que eles cheguem ao SUS e à saúde suplementar com competências alinhadas às necessidades reais da população – atenção primária resolutiva, capacidade de trabalhar em equipe multiprofissional, manejo de condições crônicas e abordagem humana e ética em contextos de alta vulnerabilidade.
Como lembra Nardi, “qualquer política séria de formação médica” precisa encarar o Enamed não como um fim em si mesmo, mas como ponto de partida para revisar critérios de autorização e renovação de cursos, estimular melhoria contínua e, se necessário, limitar a atuação de instituições que não conseguem garantir padrões mínimos. Caso contrário, o custo da má formação recairá, inevitavelmente, sobre o paciente – especialmente o mais pobre, que depende exclusivamente do sistema público.
Próximos passos: transparência, supervisão e transformação estrutural
Do lado do governo, o MEC e o Inep anunciaram que cursos com conceito 1 e 2 serão alvo de supervisão específica, podendo ter redução de vagas, suspensão de novos ingressos e exigência de planos de melhoria com prazos definidos. As portarias que consolidam o Enamed como indicador oficial para Medicina, publicadas no fim de 2025, também buscam dar previsibilidade técnica às regras de cálculo e uso dos resultados.
Para além das medidas imediatas, o debate aberto pelo exame e pelo artigo “Enamed: um espelho incômodo…” aponta três frentes estruturais:
- Transparência e informação ao estudante e à sociedade: resultados acessíveis, comparáveis e bem comunicados são fundamentais para que futuros alunos possam escolher melhor onde estudar – e para que a sociedade cobre das instituições que estão abaixo do mínimo aceitável.
- Revisão da lógica de expansão de vagas: a abertura de novos cursos e campi precisa deixar de ser resposta automática à pressão local e passar a obedecer critérios de necessidade regional, capacidade instalada e compromisso com o SUS.
- Integração educação–saúde: conselhos profissionais, universidades, serviços de saúde e gestores públicos terão de atuar de forma coordenada para alinhar currículos às demandas do sistema, fortalecer internatos em cenários reais de prática e apoiar a educação permanente ao longo da carreira.
O Enamed, com todas as suas limitações, deu um primeiro retrato nacional da formação médica baseada em evidências, e não apenas em reputações. Cabe agora transformar esse “espelho incômodo” em ponto de inflexão: não para estigmatizar cursos ou regiões, mas para garantir que o direito à saúde comece, de fato, por uma formação sólida, equânime e comprometida com o cuidado à população brasileira.
Como o ensino da medicina é avaliado ao redor do mundo
Países que levam a sério a qualidade da formação médica tratam avaliação como peça central de uma arquitetura maior de regulação profissional, segurança do paciente e planejamento de força de trabalho. Em geral, combinam três camadas: exames nacionais de licenciamento, padrões mínimos para escolas e mecanismos de revalidação ao longo da carreira.
Abaixo, um panorama sintético de como isso aparece em diferentes países – e qual diagnóstico cada modelo vem produzindo.
Estados Unidos: USMLE como termômetro… em crise de confiança
Nos Estados Unidos, todos os médicos precisam ser aprovados na série de exames USMLE (United States Medical Licensing Examination), que avalia conhecimento científico, raciocínio clínico e habilidades clínicas antes da licença plena. Estudos mostram que desempenho no USMLE se correlaciona com melhor qualidade de cuidado em atenção primária, menos reclamações de pacientes e melhor performance em certificações de especialidade – o que o torna um indicador indireto da qualidade da formação.
Mas o sistema enfrenta críticas crescentes. Pesquisas recentes falam em uma “crise de confiança” entre escolas médicas e o órgão responsável pelos exames, já que o USMLE acabou virando, na prática, o principal filtro para acesso à residência, distorcendo currículos: estudantes passam a priorizar cursos e materiais focados na prova, em detrimento da aprendizagem clínica mais ampla. A mudança do Step 1 para resultado apenas “aprovado/reprovado” tenta reduzir essa pressão, mas o debate segue: muitos educadores defendem que exames padronizados sejam apenas um dos instrumentos, não o eixo em torno do qual todo o ensino gira.
Reino Unido: prova nacional combinada com avaliação prática
No Reino Unido, o General Medical Council está implantando o UKMLA (UK Medical Licensing Assessment), que se tornará obrigatório para todos os graduados em Medicina que desejem se registrar para exercer. O modelo tem duas partes:
- um teste nacional de conhecimento aplicado (AKT), em múltipla escolha,
- e uma avaliação de habilidades clínicas e profissionais (CPSA), integrada aos exames práticos (OSCE) já realizados pelas escolas, mas sob requisitos comuns de qualidade.
O diagnóstico que motivou a mudança foi a percepção de variações importantes entre escolas na forma de avaliar e na preparação dos alunos para a prática, inclusive no tocante a segurança do paciente, comunicação e profissionalismo. Ao padronizar um núcleo mínimo de conhecimento e competência clínica, o UKMLA busca reduzir essas disparidades e dar ao regulador uma visão mais clara do sistema como um todo.
Japão e Coreia do Sul: exames nacionais de alta pressão
Países como Japão e Coreia do Sul operam há décadas com Exames Nacionais de Licenciamento Médico altamente competitivos, com taxas de reprovação deliberadamente mantidas na casa de 10% ao ano. No Japão, estudos recentes mostram que o conteúdo dessas provas vem se deslocando para dar mais peso a doenças comuns e competências centrais da prática geral, reduzindo foco em condições raras – uma forma de alinhar avaliação com necessidades reais do sistema de saúde.
Na Coreia, pesquisas discutem o corte mínimo (cut score) e problemas de segurança da prova, mas o consenso é que o exame funciona como filtro importante para garantir um patamar básico de competência, em um cenário de forte expansão de escolas. O custo é a alta pressão sobre estudantes e o risco de ensino excessivamente orientado ao teste.
Sudeste Asiático: NLE como resposta à expansão desordenada
Um estudo sobre exames nacionais de licenciamento no Sudeste Asiático mostra que países como Tailândia, Filipinas, Indonésia e Malásia adotaram esse tipo de prova justamente para reagir a uma expansão rápida de escolas médicas sem mecanismos robustos de garantia de qualidade.
Na Indonésia e na Tailândia, a introdução do NLE em meados dos anos 2000 levou a:
- revisões de currículos,
- fortalecimento de avaliação de habilidades clínicas,
- identificação mais rápida de cursos com desempenho crítico,
- e gatilhos para reformas na educação médica e na regulação profissional.
O diagnóstico dos autores é claro: em contextos de crescimento acelerado da oferta, o exame nacional virou ferramenta para “puxar” para cima a qualidade mínima e induzir mudanças nas escolas.
Europa e países da OCDE: padrões globais e revalidação contínua
Em boa parte da Europa Ocidental, o foco não está apenas no exame de entrada, mas na qualidade institucional e na competência ao longo da carreira. A Federação Mundial de Educação Médica (WFME) propôs padrões globais de qualidade que vêm sendo usados por escolas e órgãos reguladores para autoavaliação, acreditação e melhoria contínua.
Além disso, países da OCDE como Holanda, Reino Unido, França e Canadá vêm consolidando modelos de educação continuada e recertificação que, na prática, são avaliações de longo prazo da prática médica: créditos obrigatórios, participação em auditorias clínicas, revisão de pares e mecanismos de revalidação periódica de registros. O diagnóstico aqui é que competência não é evento pontual na formatura, mas processo – e que sistemas de saúde de alta qualidade exigem monitoramento permanente de desempenho, não apenas filtros de entrada.
Lições comuns e diagnósticos recorrentes
Apesar das diferenças de contexto, alguns fios condutores aparecem:
- Exames nacionais são cada vez mais usados para garantir um piso mínimo de conhecimento e habilidades clínicas, sobretudo em países com expansão acelerada de escolas ou grande entrada de graduados estrangeiros.
- Esses exames produzem diagnósticos úteis, ao revelar variações significativas entre escolas, regiões e perfis de curso, e se correlacionam, em muitos casos, com indicadores de qualidade de cuidado (menos erros, menos reclamações, melhor desempenho em pós‑graduação).
- Há, porém, críticas importantes: risco de ensino “para a prova”, pressão excessiva sobre estudantes, uso de uma nota única como filtro para residência, subavaliação de dimensões como comunicação, ética, empatia e trabalho em equipe.
- A tendência internacional é combinar instrumentos: provas padronizadas, avaliação prática estruturada (OSCE e similares), acreditação de escolas, educação continuada obrigatória e, em alguns países, revalidação periódica da licença.
Em síntese, outros países mostram que avaliações nacionais bem desenhadas são poderosas para iluminar desigualdades e disparidades na formação médica – exatamente o que o Enamed começa a fazer no Brasil. Mas o diagnóstico internacional também é claro: exame nenhum, sozinho, “conserta” a formação. Ele precisa estar acoplado a políticas de supervisão, apoio à melhoria, regulação de abertura de cursos e uma cultura profissional que veja avaliação não apenas como barreira de entrada, mas como parte de um compromisso permanente com a segurança do paciente e a qualidade do cuidado.